A importância de não ser mau

Renê Fraga
7 min de leitura

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Don’t be evil. Este é o lema da Google. Durante muito tempo, ele não foi questionado. Depois da compra da DoubleClick, entretanto, muito se tem discutido sobre isso. As consequências poderão ser muito ruins para o seu futuro.

Logo de início, sofreu um processo antitruste movido pela Microsoft e pela AT&T e, logo depois, um outro, questionando o direito à privacidade dos internautas, movido pelo Governo Americano e pela União Européia. Tudo isso, aliado ao fato de que a Google detém hoje cerca de 50% do mercado mundial de buscas na Internet (exceto na China, onde a cultura corporativa e a lentidão provocada pela resistência maior dela que às outras empresas à censura, dá vitória à Baidu), pode se tornar um enorme problema para a gigante das buscas.

O processo antitruste talvez não venha a ter êxito, mas a questão da privacidade poderá exigir da Google maiores providências que apenas reduzir de 24 para 12 meses o tempo de retenção das informações pessoais dos usuários, sob pena de vir a sofrer perdas irreparáveis em sua imagem e em seu valor de mercado.
O mercado é cheio de exemplos, mas vou citar apenas três deles.

A IBM, até então a maior empresa de tecnologia do mundo, foi arrogante e não acreditou no microcomputador. Com isso, permitiu a expansão da Apple e da Intel e o nascimento da Microsoft. Estas duas últimas, quase mataram a IBM, que, por contar com grandes cabeças, soube se reinventar e hoje é novamente uma potência.

A Apple era a maior empresa fabricante de micros do mundo, mas foi arrogante e não permitiu que seu MacOS (reconhecidamente, o melhor sistema operacional da época) fosse amplamente disseminado e não se tornou padrão. Por isso, quase faliu. Hoje, porque é uma das empresas mais inovadoras do mundo, voltou a ser uma gigante.

Mas o exemplo mais contundente é o da própria Microsoft, que, ao incentivar a padronização dos softwares, via cópias até ilegais, se tornou uma gigante. Entretanto, foi arrogante e matou a Netscape, entre outras práticas monopolistas. Isto lhe rendeu processos antitruste, que duraram 7 longos anos, consumiram centenas de milhões de dólares e levou à perda de 63% no valor de suas ações, no pior momento da crise. Entretanto, o maior prejuízo da Microsoft foi o enorme exército de consumidores inimigos da marca, que ela adquiriu. O dano à imagem não tem preço e é quase impossível de ser reparado.

Não podemos nos esquecer, entretanto, que a Microsoft tem seus méritos (e não são poucos). Bill Gates tem seu nome na história da informática e sua empresa já trouxe muitas inovações. Eu arriscaria a dizer que é a empresa que mais importância trouxe para a história recente do software. Mas errou e está pagando muito caro por isso.

A Google vive um rito de passagem, de gigante com ações de mais de US$ 500,00, com supremacia no mercado, o que pode ser considerado fruto de seu próprio sucesso, ou se permitir se tornar monopolista e violadora da privacidade. A linha é muito tênue. Mais do que traçar estratégias de mercado, os seus executivos terão que estudar a História, se quiserem que ela não se repita.

Tomara que eles sejam tão bons em História como o são em buscas na Internet.

Rômulo de Araújo Mendes é Juiz de Direito em Brasília e especialista em Direito Eletrônico.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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