Dia 24/01/2008: a Web poderá ser mudada para sempre

Rômulo de Araújo Mendes
9 min de leitura

Google Telecom logoNesta quinta-feira, 24 de janeiro de 2008, começará nos EUA o leilão para a venda do espectro de 700 Mhz. Como já tratado aqui outras vezes, precisamos ficar muito atentos a esta licitação, porque ela poderá vir a ditar as regras da Internet na próxima década. Como veremos aqui, não é certo de que isto se dará, mas é bem possível.

Você deve estar se perguntado: afinal, o que é este espectro de 700 Mhz, do qual o Rômulo fala tanto?
Nos Estados Unidos, a TV analógica estava sendo transmitida concomitantemente com a TV digital, cada emissora ocupando dois canais, sendo um para TV analógica e outro para a digital. É o mesmo que está ocorrendo em São Paulo e logo acontecerá em todo o Brasil. A TV analógica foi abolida nos Estados Unidos em 1º de janeiro. Com isso, os canais, nos quais ela era transmitida ficaram sem utilidade. Assim, a partir de amanhã, serão vendidos em um grande leilão, para empresas interessadas em criar operadoras de telefonia celular e sistemas de comunicação sem fio em geral (Internet, por exemplo). A grande vantagem destes canais é que eles são muito poderosos, porque chegam a atravessar paredes.

Uma licença nacional nos Estados Unidos terá lance mínimo de USD$ 2,4 bilhões, não incluída a construção da rede. Em outras palavras, os interessados terão que pagar, no mínimo USD$ 2,4 bilhões por nada menos e espaço vazio. E o pior: vale muito mais que isso. Até porque, depois deste leilão não se espera haver outros naquele país capazes de fornecer licenças desta natureza.

Chegou-se a dizer que uma licença nacional poderá ser vendida por até USD$ 10 bilhões. Acredito que com a crise das bolsas, estes valores poderão ser reduzidos, porque os investidores estão descapitalizados. De qualquer forma, não será barato.

Mas, por que a Web poderá ser mudada com este leilão?

A primeira mudança já aconteceu no ano passado, quando da fixação das regras para o leilão e já gerou pelo menos uma vencedora: a Google. Ela defendeu regras, que obrigassem às empresas, que vierem a adquirir licenças, a adotar padrões abertos, o que beneficia a política da gigante de Mountain View. Vide, por exemplo, o Android. Acredito eu que, em menor escala, a Yahoo! e a Microsoft também se beneficiaram com esta decisão, a última apesar de sempre ter defendido software proprietário. Há uma razão para isso: os grandes buscadores estão em meio a um cabo de guerra com as empresas de telefonia. Estas últimas desejam poder dar mais velocidade na Internet às informações dos usuários, que pagarem por isso. Esta estratégia, sem dúvida, é ótima para as empresas de telecom, mas é péssima para os consumidores (principalmente residenciais) e para os buscadores, além de comprometer a liberdade na grande rede.
Este cabo de guerra une Google, Microsoft e Yahoo!, contra AT&T, Verizon etc e a só abertura dos padrões já foi uma grande derrota sofrida pelas empresas de telecom.

Mas a mudança pode ser muito mais radical. E é aí que as opiniões se distinguem completamente entre os analistas. E novamente é a Google quem está no centro do debate.

A grande dúvida é: a Google disse que participará do leilão, mas ela irá para vencer ou para perder, por já estar satisfeita com a vitória obtida na questão dos padrões abertos? Ambas as correntes parecem estar, neste momento, praticamente com o mesmo percentual de adeptos, cada um com argumentos bem sólidos. Neste blog mesmo, não há consenso, porque o Renê Fraga acredita que a Google não participará para valer e eu penso ao contrário. Tento agora apresentar ambos os argumentos.

A corrente que acredita que a Google irá ao leilão apenas porque já prometeu ao FCC de fazê-lo, mas não fará força para vencer, acredita o seguinte:

  • a abertura dos padrões já é suficiente para a estratégia da empresa;
  • a aquisição das licenças representa apenas a ponta do iceberg, porque a construção de uma Google Telecom teria custos muito elevados; e
  • a montagem de uma Google Telecom levaria a gigante de Mountain View a fugir de seu foco, tendo que atender a clientes de telefonia celular, o que ela nunca fez e teria dificuldade de fazer, com grandes riscos para o seu futuro.

A segunda corrente, que acredita que a Google entrará no leilão com desejo sincero de vencer, defende os seguintes argumentos:

  • a abertura dos padrões foram apenas as condições necessárias para que ela pudesse participar do leilão, porque a ela somente interessaria este investimento dentro dos padrões abertos (vide Android, quiçá GPhone);
  • o grande foco e a grande fonte de receitas da Google são as buscas na Internet, que hoje são feitas, em sua maioria, por meio de equipamentos fixos. Entretanto, já se sabe que em pouco tempo a maioria delas, principalmente nas economias emergentes e na África, serão feitas por aparelhos móveis;
  • quando as buscas em aparelhos móveis forem majoritárias, possuir ou controlar uma empresa ou rede de telecomunicações móvel poderá representar para os buscadores a condição para existir no mercado;
  • todos os buscadores têm um custo muito grande com telecom e os pagam às empresas de telefonia e cabo e os poderiam transferir para sua própria telecom, caso adquirissem uma licença;
  • não bastasse isso, a estratégia das telecom de ameaçar a diminuição da velocidade das informações de quem não paga mais por isso estaria muito comprometida, senão totalmente derrotadada;
  • é sabido que a infra-estrutura robusta de computação, armazenamento e telecom é uma das maiores vantagens competitivas da Google. Destas, a única que não é de propriedade dela é a de telecom. Indubitavelmente, seus executivos gostariam muito de poder controlar totalmente esta estrutura;
  • dizem que eles já estão testando uma rede sem fio em Mountain View;
  • Paul Allen (vide Microsoft) está na disputa.

Por todas estas razões, eu acredito que a Google entrará para valer neste leilão. Ninguém, além dos principais executivos daquela empresa, sabem realmente, se ela oferecerá lance competitivo. Mais que isso, nem estes executivos sabem se ela efetivamente vencerá, mesmo entrando para valer na licitação, porque estará lutando contra empresas mais fortes (Microsoft, AT&T etc), que não querem de forma alguma sua vitória. Teremos, portanto, que esperar o final do certame, para sabermos. Qualquer que seja o resultado (mesmo que eu tenha errado), anunciarei aqui.

O importante é que acompanhemos com atenção, porque este leilão poderá mudar para sempre a relação dos buscadores com as empresas de telecom e mais, poderá gerar uma nova forma de telefonia celular: 3G e de baixo custo ou até gratuita, porque sustentada por meio de publicidade on line.

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