Google se contradiz: afinal, a web está crescendo ou em declínio?

Renê Fraga
4 min de leitura

✨ Principais destaques:

  • Em entrevistas e eventos, executivos do Google afirmam que a web nunca esteve tão ativa.
  • Nos tribunais, a empresa diz exatamente o contrário: que a web já estaria em rápido declínio.
  • Essa diferença de discurso está diretamente ligada à disputa legal sobre o futuro das ferramentas de anúncios do Google.

Nos últimos meses, o Google tem defendido duas versões completamente opostas sobre o estado da web.

De um lado, em entrevistas e apresentações públicas, seus executivos repetem que o cenário digital está em crescimento, com mais conteúdo e consumo do que nunca.

De outro, em documentos apresentados à Justiça nos Estados Unidos, a empresa sustenta que a web aberta está em “rápido declínio”.

Essa aparente contradição não é por acaso.

O discurso varia conforme o contexto: para o público, a ideia é mostrar otimismo; já perante juízes e reguladores, o tom de crise ajuda a evitar medidas que poderiam obrigar a empresa a vender parte de seus negócios em publicidade online.

O que o Google diz em público

O CEO Sundar Pichai comentou em maio que o número de páginas que o Google encontra ao rastrear a web cresceu 45% nos últimos dois anos, mostrando vitalidade.

Outros executivos, como Nick Fox, vice-presidente de Busca, e John Mueller, defensor da área de SEO, também reforçam a narrativa de que a web está “florescendo” e cheia de novas oportunidades.

Segundo eles, o consumo de informação segue forte e o dinamismo de criação de conteúdo continua acelerado, especialmente em tempos de inteligência artificial (IA).

O que o Google diz nos tribunais

Já em um documento judicial, os advogados do Google apresentaram outro quadro: segundo eles, a web aberta perdeu espaço e relevância, em parte pela migração de anunciantes para formatos mais modernos, como publicidade em TV conectada, mídia de varejo e soluções baseadas em IA.

Para sustentar o argumento, a companhia destaca números preocupantes: em 2019, o formato de anúncios exibidos na web aberta representava 40% das impressões em sua plataforma de anúncios; em 2025, essa participação caiu para 11%.

Ao adotar esse discurso, o Google busca convencer a Justiça de que forçar a empresa a se desfazer de seus negócios de publicidade prejudicaria ainda mais os editores que dependem da renda da web aberta.

O impacto por trás da contradição

Essa incoerência levanta questões importantes.

Se a web realmente estivesse em declínio, o receio dos editores sobre a diminuição de tráfego por conta da IA estaria confirmado.

Já se estivesse em expansão, como sugerem os executivos, não faria sentido a empresa argumentar o oposto em processos legais.

A tensão acontece em meio ao lançamento dos AI Overviews, os resumos com respostas gerados pela inteligência artificial direto no buscador.

Essa novidade tem sido duramente criticada por especialistas que apontam que ela pode reduzir o tráfego enviado para sites de conteúdo.

Reações de profissionais da área de SEO nas redes sociais mostram o desconforto: para muitos, o Google, que concentra enorme poder na definição de como as pessoas acessam informações, não pode simplesmente se eximir de responsabilidade sobre o futuro da web aberta.

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Seguir:
Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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