Pesquisa tradicional perde espaço enquanto IA do Google domina os resultados

Renê Fraga
7 min de leitura

Principais destaques

  • Os AI Overviews já aparecem em 43% das pesquisas no Google, quase três vezes mais do que há um ano.
  • Usuários estão fazendo buscas mais longas e naturais, permanecendo mais tempo dentro do ecossistema do Google.
  • A mudança reduz o tráfego para sites e levanta preocupações entre veículos de imprensa e produtores de conteúdo.

A pesquisa na internet está passando por uma das maiores transformações desde a criação do Google. Um novo levantamento da empresa de inteligência de mercado Similarweb mostra que as respostas geradas por inteligência artificial estão deixando de ser um recurso complementar para se tornarem parte central da experiência de busca.

Os chamados AI Overviews, resumos produzidos por IA que aparecem no topo dos resultados de pesquisa, passaram de 15% para 43% das buscas realizadas em apenas um ano. O crescimento mostra que milhões de usuários estão recebendo respostas completas sem precisar abrir diversos links para encontrar as informações desejadas.

Essa mudança representa uma nova fase da pesquisa online. Durante décadas, o Google funcionou principalmente como uma ferramenta para localizar páginas da web. Agora, a plataforma passa a responder diretamente às perguntas dos usuários, reunindo informações de diferentes fontes e apresentando tudo em uma única interface.

O Google deixa de ser apenas um mecanismo de busca

Segundo a análise da Similarweb, o que começou como uma camada adicional de inteligência artificial rapidamente se tornou um elemento indispensável da jornada de pesquisa. Depois de visualizar um AI Overview, o usuário pode continuar explorando o assunto por meio do AI Mode, recurso conversacional que permite aprofundar o tema utilizando perguntas e respostas em linguagem natural.

Os números ajudam a mostrar a velocidade dessa evolução. As visitas ao AI Mode cresceram de 126 milhões em junho de 2025 para 279 milhões em maio de 2026. Em menos de um ano, o recurso mais que dobrou sua utilização, indicando que cada vez mais pessoas estão adotando um modelo de pesquisa semelhante ao de um assistente virtual.

Esse comportamento também alterou a forma como as pesquisas são feitas. Em vez de utilizar poucas palavras-chave, como “previsão do tempo” ou “melhor celular”, os usuários passaram a escrever perguntas completas, descrevendo exatamente o que desejam saber. Esse padrão se aproxima da maneira como as pessoas conversam naturalmente com sistemas de inteligência artificial.

Além disso, a Similarweb observou que o tempo médio gasto em pesquisas no Google aumentou. Isso sugere que os usuários permanecem dentro da plataforma por mais tempo, realizando perguntas adicionais e refinando suas buscas sem precisar recorrer a outros sites.

Sites e veículos de notícias sentem os efeitos da mudança

Se para os usuários a experiência pode ser mais rápida e prática, para empresas de mídia e criadores de conteúdo o cenário é bem diferente. Como as respostas aparecem diretamente no Google, muitos internautas deixam de visitar os sites que originalmente produziram aquelas informações.

Essa redução no tráfego tem sido uma das principais preocupações do setor editorial desde o lançamento dos primeiros recursos de IA generativa na pesquisa. Menos visitas significam menos visualizações de anúncios, menor alcance do conteúdo e redução das receitas obtidas por diversos veículos.

O relatório mostra que o número de respostas geradas por IA contendo citações para páginas da web aumentou mais de cinco vezes ao longo do último ano. Apesar desse crescimento, isso ainda não garante que os usuários realmente acessem as fontes originais.

No caso do ChatGPT, por exemplo, apenas 6,8% das consultas realizadas na versão para computadores nos Estados Unidos continham citações para sites em maio de 2026. Algumas áreas apresentam desempenho melhor, como turismo, varejo e esportes, onde as referências para páginas externas aparecem com maior frequência.

A preocupação dos produtores de conteúdo levou empresas de infraestrutura da internet a buscar soluções. A Cloudflare, por exemplo, lançou ferramentas que permitem bloquear robôs utilizados por empresas de inteligência artificial ou cobrar pelo acesso ao conteúdo por meio de um sistema de licenciamento. A iniciativa busca criar um modelo mais equilibrado para o uso das informações produzidas por jornalistas, especialistas e criadores independentes.

O comportamento dos usuários continua evoluindo

Embora o cenário seja desafiador para os sites, existem alguns sinais positivos. Segundo a Similarweb, uma atualização realizada no sistema de busca do ChatGPT em maio de 2026 aumentou significativamente o envio de visitantes para páginas externas.

Antes da atualização, aproximadamente 25% das consultas resultavam em acessos a sites. Após as mudanças, esse percentual praticamente dobrou e chegou perto de 60% no fim de maio. Isso indica que usuários estão aproveitando com mais frequência os links destacados dentro das respostas geradas por inteligência artificial quando desejam aprofundar determinado assunto.

Mesmo assim, a tendência geral permanece bastante clara. O papel do Google está mudando rapidamente. Durante muitos anos, o mecanismo de busca serviu como uma ponte entre usuários e milhões de páginas espalhadas pela internet. Agora, a empresa passa a concentrar cada vez mais informações dentro da própria plataforma.

Essa transformação altera profundamente a dinâmica da web. Empresas de tecnologia, produtores de conteúdo, veículos de imprensa, especialistas em SEO e profissionais de marketing digital precisarão adaptar suas estratégias para um cenário em que a inteligência artificial participa diretamente da forma como as pessoas encontram informações.

Ao mesmo tempo, usuários tendem a ganhar uma experiência mais prática e conversacional, recebendo respostas mais completas em menos tempo. O desafio será encontrar um equilíbrio entre essa conveniência e a sustentabilidade do ecossistema de sites que produz grande parte do conteúdo utilizado pelas ferramentas de inteligência artificial.

Nos próximos anos, a evolução dos AI Overviews e do AI Mode deverá continuar redefinindo a pesquisa online, consolidando uma nova fase da internet em que o Google deixa de ser apenas um ponto de partida para se tornar, cada vez mais, o destino final da busca por informação.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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