Google quer transformar a TV aberta brasileira em uma vitrine de compras

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Anúncios sob medida: a TV 3.0 poderá exibir propagandas diferentes para pessoas assistindo ao mesmo canal.
  • Conteúdo sem interrupção: a tecnologia permite combinar transmissão ao vivo, estatísticas, ofertas e recursos interativos na mesma tela.
  • Uma nova lógica de negócio: a aposta é aproximar a experiência da TV aberta daquela já conhecida no streaming, com publicidade digital mais segmentada.

A televisão aberta brasileira está prestes a ganhar uma camada que até pouco tempo parecia exclusiva dos aplicativos de streaming.

Durante a IBC 2026, em Amsterdã, a Google apresentou detalhes de sua estratégia para participar da próxima geração da TV brasileira, baseada na TV 3.0 (DTV+).

A ideia é simples de explicar, mas bastante ambiciosa: manter a transmissão tradicional e acrescentar uma camada conectada à internet capaz de entregar publicidade personalizada, gráficos interativos e até compras diretamente pela televisão.

E é aí que a velha lógica do intervalo comercial começa a mudar. 📺

A TV continua aberta. Mas a experiência fica conectada 🌐

A estratégia da Google está concentrada justamente na camada broadband da TV 3.0.

É ela que conecta o sinal tradicional aos recursos digitais das Smart TVs, criando uma espécie de ponte entre dois mundos que até agora funcionavam de maneira bastante separada.

🔎 O objetivo comercial: permitir que emissoras e redes de televisão utilizem uma infraestrutura digital mais sofisticada sem precisar construir tudo do zero.

Para acelerar esse processo, a empresa lançou o programa Ad Manager Technology Partner, uma certificação destinada a parceiros que fornecem tecnologias de mídia.

Entram nessa estrutura ferramentas de codificação, transcodificação, análise de audiência e distribuição de vídeo.

Na prática, emissoras e grandes grupos de comunicação passam a contar com soluções previamente testadas e homologadas.

Isso pode reduzir tanto o tempo quanto o custo necessário para colocar novos projetos digitais em operação.

O mesmo canal, comerciais diferentes 📺

Aqui está uma das mudanças mais importantes.

Na televisão tradicional, a lógica é coletiva: se um canal transmite um comercial às 20h15, todos os espectadores daquela transmissão recebem essencialmente a mesma publicidade.

A TV 3.0 abre espaço para outra possibilidade.

Com o DAI, ou Dynamic Ad Insertion, o anúncio pode ser escolhido de acordo com o perfil do espectador.

Imagine dois vizinhos assistindo ao mesmo telejornal, no mesmo horário e no mesmo canal.

Um pode receber uma propaganda de um supermercado. O outro, uma oferta de uma montadora.

O conteúdo editorial continua igual. A publicidade, não necessariamente.

💡 A televisão deixa de vender apenas espaço no intervalo e passa a vender uma audiência mais específica dentro daquele espaço.

É uma lógica muito mais próxima da publicidade digital do que da televisão aberta convencional.

E se o comercial nem precisar interromper o programa? 🤔

A evolução seguinte atende pelo nome de SGAI, ou Server Guided Ad Insertion.

O conceito permite inserir elementos comerciais e interativos sem simplesmente substituir o conteúdo principal por um intervalo convencional.

Durante uma partida de futebol, por exemplo, a transmissão poderia ser reduzida para uma janela menor da tela, enquanto o espaço restante apresenta informações adicionais.

Podem aparecer estatísticas da partida, menus ou ofertas.

E até comida.

🍔 Na prática: um código QR poderia permitir que o espectador acessasse uma oferta ou pedido enquanto continua acompanhando o jogo.

A televisão passa, nesse cenário, a funcionar menos como uma tela passiva e mais como uma interface.

A novela também pode virar uma vitrine 🛍️

O mesmo princípio pode ser aplicado a outros gêneros.

Durante uma novela, por exemplo, um banner em formato de “L” poderia apresentar informações sobre as roupas utilizadas por determinado personagem.

O espectador poderia então acessar um produto e iniciar uma compra diretamente pela experiência televisiva, inclusive por meio do controle remoto.

Isso muda a relação entre conteúdo e publicidade.

Em vez de esperar o programa terminar para descobrir onde comprar determinado produto, a informação pode aparecer no momento em que ela faz sentido para quem está assistindo.

🛒 O detalhe importante: a proposta não é apenas mostrar publicidade, mas transformar parte dela em uma ação interativa.

Não é só software. Tem uma boa dose de engenharia por trás ⚙️

Para que tudo isso funcione em escala nacional, existe uma camada técnica considerável.

A Google vem trabalhando com os fóruns técnicos do DTV+ para ajustar elementos como codecs de áudio e vídeo, protocolos de segurança e parâmetros de entrega.

Os testes também precisam considerar um dos cenários mais exigentes da televisão: transmissões ao vivo de grande audiência.

Segundo as informações apresentadas pela empresa, testes realizados com parceiros brasileiros indicaram estabilidade das ferramentas nesse tipo de transmissão.

O próximo desafio é outro.

Escalar.

O streaming encontrou a TV aberta?

Não exatamente.

A proposta é mais interessante justamente porque tenta combinar os dois modelos.

De um lado, permanece a transmissão aberta, que sustenta a distribuição tradicional da televisão brasileira. Do outro, entra uma infraestrutura conectada capaz de oferecer recursos que o público já conhece de plataformas digitais.

TV tradicionalTV 3.0 conectada
Publicidade igual para a audiênciaAnúncios direcionados
Intervalos convencionaisInserções e formatos interativos
Tela predominantemente passivaConteúdo com recursos digitais
TV e comércio separadosPossibilidade de compras pela tela

💰 A conta por trás da tecnologia: quanto mais precisa for a publicidade, maior pode ser o valor comercial daquela audiência.

É justamente essa possibilidade que torna a TV 3.0 tão relevante para emissoras, anunciantes, fabricantes de televisores e empresas de tecnologia.

E quem controla essa nova camada?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para os próximos anos.

A televisão aberta continua sendo um meio de massa. Mas, ao incorporar conectividade, dados, publicidade programática e interfaces interativas, ela passa a depender de uma cadeia tecnológica muito mais complexa.

A Google, por sua vez, não está apenas fornecendo uma ferramenta de anúncios.

A empresa também participa dos esforços técnicos relacionados ao ecossistema DTV+ e busca ampliar sua presença na infraestrutura que sustenta essa nova experiência.

Isso coloca a discussão além da simples chegada de um novo formato comercial.

Está em jogo quem fornecerá as ferramentas capazes de conectar emissora, espectador e anunciante.

A sala de estar pode virar o próximo carrinho de compras 🛋️

Pense na evolução.

Primeiro, a televisão transmitia um conteúdo para todos.

Depois, vieram os serviços sob demanda.

Agora, a próxima etapa pode misturar transmissão aberta, internet, publicidade personalizada, dados em tempo real e comércio na mesma tela.

A diferença é que tudo isso precisa funcionar sem transformar a experiência em um painel publicitário impossível de assistir.

Esse será um dos grandes testes da TV 3.0: descobrir até onde a interatividade melhora a televisão e a partir de que ponto ela começa a competir com o próprio programa.

Por enquanto, a Google está preparando a infraestrutura. Os canais e fabricantes terão de transformar essa infraestrutura em produto.

E, quando isso acontecer em escala, aquela velha tela da sala poderá continuar exibindo a mesma novela ou o mesmo jogo. Só que, por trás da imagem, a televisão terá aprendido uma lógica que o streaming conhece há anos: cada espectador pode estar vendo uma versão comercial diferente da mesma experiência.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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