A responsabilidade social de quem tem USD$ 49 bilhões em caixa

Rômulo de Araújo Mendes
7 min de leitura

São muito poucas empresas no mundo que, um dia, chegam a possuir USD$ 49 bilhões em caixa. A Google é um exemplo. Dentre elas estão a Apple (em torno de 100 bilhões) e Microsoft (50 bilhões).

A Microsoft, via Bill Gates, já faz intensas doações para obras sociais, com vistas a erradicar a fome e as doenças no mundo. Com efeito, o trabalho da Fundação Bill e Melinda Gates é um dos mais belos e importantes no campo da filantropia hoje no mundo.

Não conheço as iniciativas finantrópicas da Apple, pelo que não os referencio.

A Google Org também tem feito importantes iniciativas de filantropia. Isto é relevante, mas não é tudo. Há um esforço, que a Google precisa fazer, por se tratar de sua responsabilidade social e política de maior buscador da Internet.

Trata-se da defesa da imprensa livre.

Eu explico a minha posição.

A liberdade de imprensa e, como corolário, a existência de órgãos de imprensa com capacidade de se sustentarem por meio da geração de publicidade paga por anunciantes privados, sem a necessidade de nenhuma publicidade oficial, é um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Não que os Estados sejam fundados, tendo como órgãos empresas jornalísticas, porque, quando isto ocorre, fatalmente estamos diante de casos de regimes autoritários e países de baixo índice de desenvolvimento.

Por outro lado, em países onde a imprensa é livre e sustentada por publicidade privada, via de regra temos democracias fortes, com alternância real de poder, respeito ao voto popular,  baixo índice de corrupção e elevado índice de desenvolvimento econômico.

Nos países onde a imprensa e formalmente livre, mas depende ainda de publicidade oficial para se manter, temos, em regra, regimes democráticos, mas com instituições fracas, tentativas reiteradas de detentores dos três poderes de retrocesso político-institucional e elevado índice de corrupção. Basta ver o exemplo do Brasil, onde poucos órgãos de imprensa são realmente independentes e as consequências estão aí para todos nós vermos e sentirmos, com consequências nefastas para no nosso desenvolvimento econômico e para a educação de nossas crianças.

Acontece que o advento da Internet e, como corolário, dos buscadores (Google, principalmente) está matando a imprensa livre. Isto porque antes da Internet somente os órgãos de imprensa podiam publicar notícias e, portanto, detinham quase o monopólio da publicidade dirigida ao público, que procura notícias. Com o advento da Internet, porém, qualquer pessoa passou a poder divulgar informações (verdadeiras ou não) para o mundo, o que retirou a fonte de sustento da imprensa. Isto, sem dúvida, democratizou o acesso aos meios de divulgação de informação, mas, por outro lado, está destruindo quem realmente produz a verdadeira notícia.

Temos que considerar que a notícia é escrita por jornalistas, que a pesquisam com fontes, que às vezes, somente eles conhecem. A Internet é a fonte primária do blogueiro. Ela não é a fonte primária do jornalista. Este procura notícia com quem realmente detém a informação.

Para conseguir isto, o jornalista, às vezes precisa ir para zonas de guerra (muitos perdem a vida), entram em zonas de tráfico de drogas (que saudades do Tim Lopes!), se embrenham em quadrilhas de corruptos, de homicidas etc. Nunca vi nenhum blogueiro fazer isso, até porque isto custa muito caro.

Produzir notícia de verdade consome tempo, experiência, e checagem das informações com várias fontes. Tudo isto representa dinheiro.

Nós blogueiros não precisamos pagar esta conta, porque pesquisamos tudo isto na Internet, depois que os jornalistas fizeram o trabalho sujo e pesado. Nosso trabalho é apenas compilar e depois faturar a publicidade junto com as agências on-line, entre elas, a Google.

No entanto, se deixarmos morrer as empresas de jornalismo, morreremos também nós os blogueiros, porque não teremos mais notícias para ler e, depois, copiar.

Uma das mais importantes e tradicionais empresas de jornalismo, que estão em dificuldades financeiras, porque a Internet está destruindo o seu mercado é o The New York Times Company, que inclui o próprio jornal homônimo, o The Boston Blobe e o Herald Tribune. O The New York Times é considerado simplesmente o melhor jornal do mundo em função de sua independência jornalística e do cuidado como trata a notícia. No entanto, a continuar a perder verbas publicitárias para a Internet, com vem acontecendo nos últimos anos, vai, fatalmente, falir.

O mundo precisa decidir então, se quer viver sem o The New York Times.

Eu, como cidadão, que presa a democracia, não quero viver em um mundo sem um jornal do quilate do The New York Times.

Como salvá-lo, então?

Simples, quem o está matando, deve pegar parte de seus imensos lucros, e injetar na The New York Times Company, fazendo um acordo de acionistas, de forma a que a família controladora continue no controle e que o novo sócio não tenha nenhum direito à gerência da instituição. No máximo, direito a uma cadeira no Conselho de Administração.

Sim. É dever da Google injetar pelo menos USD$ 1 bilhão no The New York Times, para ajudar a salvar a liberdade de imprensa, sob pena de, não o fazendo, permitir que a própria Internet, no futuro perca sua própria liberdade. Caso queira saber o que pode vir a acontecer com a Google, se ela não fizer isso, basta olhar hoje o exemplo da dupla China-Baidu. Isto dispensa maiores considerações.

O leitor que concordar com esta opinião, por favor, entre nesta corrente, para pedir à Google que cumpra esta obrigação social.

PS: não sou acionista de nenhuma das empresas aqui referidas.

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