Google usa sensores de celulares Android para detectar terremotos, mas tecnologia falhou durante tragédia na Turquia

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques:

  • Google usou sensores de movimento de celulares Android para alertar sobre terremotos em quase 100 países
  • Sistema enviou alertas errados durante os terremotos devastadores na Turquia em 2023
  • Erros nos algoritmos subestimaram a magnitude dos tremores, atrasando avisos críticos

Por anos, o Google utilizou a vasta rede de smartphones Android para criar um sistema global de alerta sísmico.

O projeto, pouco divulgado até então, transformou mais de dois bilhões de celulares em mini sismógrafos capazes de detectar tremores de terra em tempo real.

A iniciativa foi detalhada em um novo estudo publicado na revista Science, que mostra como o sistema ajudou a alertar usuários em cerca de 100 países entre 2021 e 2024.

Mas uma falha crítica durante os terremotos que atingiram a Turquia e a Síria em 2023 trouxe à tona limitações importantes da tecnologia.

Como funciona o Android Earthquake Alerts

O sistema, chamado Android Earthquake Alerts (AEA), usa os acelerômetros dos smartphones para captar as vibrações iniciais dos terremotos.

Ao identificar um padrão compatível com um tremor, o AEA pode emitir dois tipos de alertas: o mais leve, “Be Aware”, enviado como uma notificação comum para abalos menores; e o mais grave, “Take Action”, que dispara um alarme sonoro mesmo com o celular no modo silencioso.

O objetivo é avisar com segundos de antecedência, o suficiente para que a pessoa busque abrigo ou se afaste de áreas perigosas.

Desde que foi implantado, o sistema já emitiu alertas para mais de 11 mil terremotos ao redor do mundo.

A iniciativa é considerada uma alternativa acessível a sistemas sísmicos tradicionais, especialmente em países que não contam com infraestrutura avançada.

No entanto, sua precisão depende diretamente da qualidade das leituras feitas pelos sensores dos próprios celulares.

A falha crítica nos terremotos da Turquia

Em fevereiro de 2023, dois terremotos de grandes proporções atingiram a Turquia e a Síria, matando mais de 55 mil pessoas e ferindo outras 100 mil.

O sistema do Google falhou gravemente nesse momento. A empresa admitiu que enviou o alerta mais fraco para cerca de 500 mil pessoas, quando na verdade o tremor exigia o alerta mais severo.

Apenas 469 celulares receberam o aviso “Take Action” no primeiro tremor, ocorrido por volta das 4h15 da manhã, horário em que a maioria das pessoas estava dormindo com os celulares no silencioso — o que tornou o alerta fraco praticamente ineficaz.

O erro ocorreu porque os algoritmos do AEA inicialmente estimaram que o tremor tinha magnitude entre 4.5 e 4.9, quando na realidade foi um terremoto de 7.8 graus na escala de magnitude de momento (MMS).

Durante o segundo tremor, a subestimação também ocorreu, com cerca de 8 mil alertas fortes enviados, contra quase 4 milhões de alertas leves.

O Google afirma que, desde então, os algoritmos foram atualizados para evitar falhas semelhantes.

Reconhecimento tardio e questionamentos

Apesar de a falha ter sido evidente, o Google só reconheceu oficialmente os erros mais de dois anos depois, em um comunicado à BBC e no próprio artigo científico.

A demora em admitir o problema levanta questões sobre a transparência da empresa em situações que envolvem riscos à vida humana.

O sistema de alertas, embora inovador, carrega a responsabilidade de oferecer segurança a milhões de pessoas. Quando falha, as consequências podem ser trágicas.

O reconhecimento dos erros por parte do Google é um passo importante, mas não apaga o impacto da falha. Espera-se que, com os ajustes nos algoritmos e maior vigilância sobre a precisão dos alertas, a tecnologia possa evoluir e se tornar mais confiável para futuros desastres naturais.

O uso de celulares como sensores de emergência ainda tem grande potencial, mas exige melhorias constantes e responsabilidade.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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