Google muda estratégia contra anúncios enganosos e aposta em IA para agir antes do problema aparecer

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques

  • Google bloqueou 8,3 bilhões de anúncios em 2025, o maior volume já registrado
  • Inteligência artificial, com destaque para o Gemini, barrou mais de 99% dos anúncios irregulares antes da exibição
  • Suspensões de contas diminuíram, indicando uma abordagem mais precisa e menos generalizada

O Google está passando por uma transformação relevante na forma como protege sua plataforma de anúncios contra abusos.

Em vez de focar exclusivamente na punição de anunciantes considerados problemáticos, a empresa vem adotando uma estratégia mais refinada, que atua diretamente sobre anúncios individuais antes mesmo que eles sejam exibidos aos usuários.

Essa mudança representa uma evolução importante no combate a fraudes digitais. Ao priorizar a prevenção em vez da correção, o Google busca reduzir danos, evitar a disseminação de conteúdos enganosos e tornar a experiência online mais segura para bilhões de pessoas que utilizam seus serviços diariamente.

Inteligência artificial no centro da fiscalização

O principal motor dessa transformação é o uso intensivo de inteligência artificial, especialmente por meio dos modelos Google Gemini. Esses sistemas são capazes de analisar enormes volumes de dados em tempo real, identificando padrões suspeitos e sinais de violação de políticas com uma precisão cada vez maior.

Na prática, isso significa que mais de 99% dos anúncios considerados problemáticos são interceptados antes mesmo de serem exibidos. Essa antecipação reduz drasticamente o impacto negativo para os usuários, evitando que golpes, desinformação e promessas enganosas ganhem visibilidade.

Outro fator que impulsionou essa evolução foi o crescimento do uso de inteligência artificial por parte de criminosos. Ferramentas generativas permitem a criação rápida de anúncios fraudulentos em larga escala, com textos e imagens cada vez mais convincentes. Diante desse cenário, o Google precisou elevar o nível de sofisticação de seus sistemas de defesa.

Menos punição geral, mais precisão

Um dos efeitos mais visíveis dessa nova abordagem é a redução significativa nas suspensões de contas. Embora possa parecer contraditório diante do aumento expressivo de anúncios bloqueados, essa tendência reflete uma atuação mais cirúrgica.

Em vez de aplicar punições amplas, como a suspensão completa de anunciantes, o Google agora consegue identificar exatamente quais peças publicitárias violam suas regras. Isso permite remover conteúdos específicos sem necessariamente penalizar toda a operação de um anunciante legítimo.

Segundo a empresa, essa mudança ajudou a reduzir em cerca de 80% os casos de suspensões incorretas. Isso é especialmente relevante para pequenas e médias empresas, que podem ser prejudicadas por bloqueios indevidos.

Além disso, o Google reforçou seus processos de verificação de anunciantes, exigindo que empresas comprovem sua identidade antes de publicar anúncios. Essa camada adicional de segurança dificulta a entrada de agentes mal-intencionados no sistema.

Crescimento de fraudes e resposta global

Apesar dos avanços tecnológicos, o cenário global continua desafiador. Em 2025, cerca de 602 milhões de anúncios e 4 milhões de contas foram associados a golpes, evidenciando a escala do problema.

Nos Estados Unidos, o Google removeu mais de 1,7 bilhão de anúncios e suspendeu milhões de contas, com violações relacionadas a práticas enganosas, abuso de rede e conteúdo impróprio entre as mais comuns. Já na Índia, um dos maiores mercados da empresa, o número de anúncios bloqueados chegou a quase meio bilhão, praticamente o dobro do registrado no ano anterior.

Curiosamente, mesmo com esse aumento expressivo na detecção de irregularidades, as suspensões de contas diminuíram nesses mercados. Isso reforça a mudança de foco: agir rapidamente sobre conteúdos específicos em vez de eliminar contas inteiras.

Um novo modelo de defesa digital

Essa nova estratégia também está alinhada com um movimento mais amplo dentro do Google, que vem integrando seus sistemas de inteligência artificial em praticamente todos os seus produtos e serviços.

No caso da publicidade, isso inclui desde a criação automatizada de campanhas até a detecção de ameaças emergentes em tempo real. O objetivo é tornar todo o ecossistema mais inteligente, adaptável e resistente a abusos.

Executivos da empresa destacam que os números devem continuar variando ao longo do tempo, já que tanto as tecnologias de defesa quanto as estratégias de fraude evoluem constantemente. Trata-se de uma disputa contínua, em que cada avanço de um lado exige uma resposta mais sofisticada do outro.

Ainda assim, a direção é clara: impedir que anúncios prejudiciais cheguem ao público. Ao atuar cada vez mais cedo no processo, o Google tenta transformar a segurança em algo invisível, mas altamente eficaz.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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