Google transforma o Street View em uma experiência viva com IA capaz de simular cidades inteiras

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques:

  • Google integrou o Street View ao Project Genie, modelo de inteligência artificial da DeepMind que cria mundos interativos.
  • A novidade permite simular ruas reais com mudanças climáticas, iluminação dinâmica e diferentes cenários urbanos.
  • Tecnologia pode revolucionar turismo virtual, treinamento de robôs, carros autônomos e até experiências educacionais.

O Google revelou durante o Google I/O 2026 uma das integrações mais futuristas já apresentadas pela empresa nos últimos anos. A companhia anunciou que o Street View agora está sendo conectado ao Project Genie, um poderoso modelo de inteligência artificial desenvolvido pela DeepMind capaz de gerar ambientes virtuais interativos a partir de imagens do mundo real.

A proposta muda completamente a forma como o Street View funciona hoje. Em vez de apenas navegar por fotografias panorâmicas de ruas e avenidas, usuários poderão entrar em ambientes simulados pela IA, explorando cidades de maneira muito mais dinâmica e imersiva. A tecnologia consegue reconstruir cenários urbanos e até modificar fatores como clima, iluminação e atmosfera.

Na prática, isso significa que alguém poderá “visitar” virtualmente uma cidade em diferentes condições ambientais. Será possível observar como determinada rua fica durante uma tempestade, no inverno, à noite ou até em cenários extremos inspirados em filmes de desastre climático.

A DeepMind acredita que essa integração representa um passo importante na criação de modelos de IA que compreendem melhor o mundo físico. Além do impacto para usuários comuns, o sistema também foi pensado para aplicações em robótica, inteligência artificial generativa e veículos autônomos.

Como o Google está usando bilhões de imagens do Street View

O avanço só foi possível graças ao enorme banco de dados acumulado pelo Google ao longo de duas décadas de Street View. Desde o lançamento da ferramenta, carros equipados com câmeras especiais percorreram ruas em diversos países registrando imagens panorâmicas. Além disso, mochilas com sensores e câmeras também foram utilizadas em locais de difícil acesso.

Segundo o Google, a empresa já coletou mais de 280 bilhões de imagens em 110 países e nos sete continentes. Essa quantidade gigantesca de dados visuais se tornou uma das bases mais valiosas do mundo para treinamento de inteligência artificial espacial.

Agora, o Genie utiliza essas imagens para criar simulações navegáveis. O sistema não apenas reproduz o ambiente visualmente, mas também tenta entender continuidade espacial. Isso significa que a IA consegue manter coerência enquanto o usuário se move pelo cenário.

Durante as demonstrações apresentadas pelo Google, foi possível visualizar bairros conhecidos sendo reconstruídos pela IA de forma bastante convincente. Embora ainda exista aparência semelhante à de videogames modernos, a tecnologia já impressiona pela capacidade de criar espaços reconhecíveis e relativamente consistentes.

Jonathan Herbert, diretor do Google Maps, explicou que um dos maiores avanços está justamente na capacidade da IA de “lembrar” o ambiente ao redor do usuário. Ao girar a câmera em 360 graus, o sistema continua entendendo corretamente o espaço e reconstruindo elementos da cena sem perder coerência visual.

Turismo virtual pode se tornar muito mais realista

Uma das aplicações mais interessantes da novidade envolve turismo e planejamento de viagens. Hoje, milhões de pessoas utilizam o Street View para visualizar hotéis, bairros e pontos turísticos antes de viajar. Com a integração ao Genie, essa experiência pode ficar muito mais próxima de uma visita real.

Pesquisadores da DeepMind deram o exemplo de uma pessoa que pretende viajar para Nova York durante o inverno. Em vez de visualizar apenas fotos estáticas da cidade, ela poderia explorar uma simulação interativa mostrando ruas cobertas de neve, iluminação típica da estação e diferentes condições climáticas.

A tecnologia também pode transformar a forma como estudantes aprendem geografia, arquitetura e urbanismo. Escolas poderiam criar experiências educacionais imersivas, permitindo que alunos “caminhem” virtualmente por cidades históricas ou explorem regiões do planeta sem sair da sala de aula.

Além disso, a IA pode abrir portas para novas experiências em jogos eletrônicos e entretenimento. Como o Genie já é capaz de gerar mundos interativos a partir de imagens e descrições, a integração com o Street View adiciona um enorme nível de realismo baseado em locais reais.

Robôs e carros autônomos podem ganhar treinamento muito mais avançado

Outro foco importante do projeto envolve robótica e veículos autônomos. O Google revelou que versões do Genie já estão sendo utilizadas pela Waymo, empresa de carros autônomos da companhia.

Hoje, sistemas autônomos precisam ser treinados para lidar com situações raras e perigosas que dificilmente aconteceriam durante testes normais nas ruas. Com o Genie, esses cenários podem ser simulados virtualmente em larga escala.

A IA consegue criar eventos extremos como tempestades, nevascas intensas e situações incomuns no trânsito. Segundo os pesquisadores, isso permite que os sistemas aprendam a reagir a condições que talvez nunca encontrassem em testes tradicionais.

Jack Parker-Holder, cientista da DeepMind, explicou que a tecnologia também pode ajudar robôs a lidar com mudanças de iluminação. Um robô treinado em uma cidade frequentemente nublada poderia aprender antecipadamente como reagir quando o sol refletisse intensamente em determinadas superfícies, por exemplo.

A diferença em relação aos simuladores tradicionais é que o Genie trabalha com ambientes reais baseados em cidades verdadeiras. Isso torna o treinamento potencialmente muito mais próximo das situações do cotidiano.

A IA ainda possui limitações importantes

Apesar da empolgação em torno do projeto, o próprio Google admite que a tecnologia ainda está longe de ser perfeita. As simulações apresentadas ainda não possuem qualidade totalmente fotorealista e lembram gráficos avançados de videogames modernos.

Além disso, os modelos ainda enfrentam dificuldades para compreender física e interação entre objetos. Durante uma demonstração, uma personagem virtual atravessava cactos e arbustos sem qualquer reação realista do ambiente.

Isso acontece porque o sistema ainda está aprendendo relações de causa e efeito no mundo físico. Diferentemente de motores gráficos tradicionais, que possuem física programada manualmente, modelos como o Genie aprendem observando enormes quantidades de dados visuais.

Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que a evolução será rápida. Segundo a DeepMind, os modelos de simulação estão apenas alguns meses atrás dos avanços já alcançados por inteligências artificiais de vídeo como Veo e Nano Banana.

Esses modelos já conseguem entender comportamentos complexos como fumaça se dissipando no ar, tecidos reagindo ao movimento e objetos interagindo de maneira mais natural.

Google quer colocar a tecnologia nas mãos do público

Inicialmente, o Street View integrado ao Genie será disponibilizado para assinantes do plano Google AI Ultra nos Estados Unidos. O Google afirma que o acesso será expandido gradualmente para mais usuários e outros países nas próximas semanas.

Os executivos da empresa afirmam que o objetivo é permitir que desenvolvedores, pesquisadores e usuários comuns experimentem novas formas de interação com inteligência artificial espacial.

A longo prazo, a tecnologia pode redefinir completamente a relação das pessoas com mapas digitais. O Street View, que começou como uma simples ferramenta de visualização de ruas, pode se transformar em uma plataforma interativa capaz de recriar o mundo em tempo real.

Se a evolução continuar no ritmo atual, o Google poderá estar construindo algo muito maior do que um mapa inteligente. A empresa parece caminhar para criar uma representação digital viva do planeta, alimentada por inteligência artificial capaz de compreender ambientes, espaço e interação humana de forma inédita.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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