Seis buscadores que estão crescendo enquanto o Google vira uma plataforma de IA

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • O Google anunciou a maior mudança da história do Search, aproximando a busca tradicional de um chatbot com inteligência artificial.
  • Usuários insatisfeitos com AI Overviews e respostas automáticas começam a procurar alternativas mais simples, privadas e menos invasivas.
  • Ferramentas como Kagi, DuckDuckGo, Brave, Ecosia e até o curioso &udm=14 ganham força ao oferecer experiências diferentes do novo modelo do Google.

Google Search nunca mais será o mesmo

Durante décadas, usar a internet significava “dar um Google”. A empresa construiu um império baseado em uma caixa de pesquisa simples, rápida e eficiente. Mas isso está mudando rapidamente. No Google I/O 2026, o Google revelou uma transformação profunda no Search, colocando inteligência artificial no centro da experiência.

Agora, em vez de apenas exibir links organizados, o buscador passa a funcionar como uma conversa contínua com IA. A novidade inclui respostas automáticas mais avançadas, interações em formato de chat e até agentes inteligentes capazes de executar tarefas pelo usuário.

Segundo Elizabeth Reid, chefe da divisão de Search do Google, essa é “a maior atualização da busca em mais de 25 anos”.

O problema é que nem todo mundo gostou da ideia.

A reação nas redes sociais foi imediata. Muitos usuários demonstraram cansaço da presença excessiva de inteligência artificial em aplicativos, navegadores, sistemas operacionais e redes sociais. Para parte do público, o Google está deixando de ser um mecanismo de busca e se transformando em algo parecido com o ChatGPT.

E isso abriu espaço para um movimento que parecia improvável alguns anos atrás: pessoas procurando novos buscadores.

O desgaste do Google vai além da inteligência artificial

A resistência ao novo Search não acontece apenas por causa da IA generativa. Existe um desgaste acumulado há anos.

Muitos usuários reclamam do excesso de anúncios, resultados patrocinados, páginas otimizadas apenas para SEO e respostas cada vez menos úteis. Além disso, o Google vem enfrentando críticas relacionadas ao seu domínio do mercado. Em 2024, um tribunal dos Estados Unidos concluiu que a empresa atuou ilegalmente para manter seu monopólio nas buscas online.

Com a chegada das AI Overviews e do chamado “AI Mode”, parte dos usuários começou a sentir que perdeu o controle da experiência de pesquisa.

Antes, uma busca entregava uma lista de sites para o usuário escolher. Agora, a IA tenta responder tudo diretamente, resumindo conteúdos e incentivando perguntas adicionais dentro da própria plataforma.

Na prática, isso muda completamente a lógica da web aberta.

Sites independentes podem perder tráfego, criadores de conteúdo podem deixar de receber visitas e usuários podem ficar presos em respostas automáticas geradas por inteligência artificial.

Esse cenário fez crescer o interesse por buscadores alternativos.

Kagi aposta em busca premium sem anúncios

Entre as alternativas que mais chamam atenção está o Kagi.

A proposta é simples: pagar para pesquisar na internet sem anúncios, sem rastreamento e sem excesso de inteligência artificial.

O serviço custa a partir de US$ 5 por mês e entrega uma experiência extremamente limpa. Diferente do Google, o Kagi permite personalizar profundamente os resultados, bloquear sites específicos e usar filtros inteligentes chamados “lenses”.

Esses filtros ajudam a encontrar conteúdos mais relevantes dependendo do objetivo da pesquisa. Um estudante, por exemplo, pode ativar um modo focado apenas em artigos acadêmicos.

O mais curioso é que o Kagi não rejeita totalmente a IA. Ele oferece um recurso opcional de resumo automático chamado “Quick Answer”. A diferença é que o usuário escolhe se quer usar ou não.

Essa liberdade virou um dos principais argumentos contra o novo Google.

DuckDuckGo e Startpage focam em privacidade

O DuckDuckGo já era conhecido entre usuários preocupados com privacidade, mas agora voltou ao centro das discussões.

O buscador promete não armazenar histórico de pesquisa, navegação ou compras. Em vez de criar perfis detalhados dos usuários, os anúncios são exibidos apenas com base no tema pesquisado naquele momento.

Visualmente, o DuckDuckGo lembra bastante o Google clássico, o que facilita a adaptação.

Mesmo adicionando recursos de IA recentemente, a plataforma permite desativar completamente qualquer funcionalidade automática nas configurações.

Isso pode parecer um detalhe pequeno, mas virou algo importante em 2026. Muitos usuários querem escolher quando interagir com IA, e não serem obrigados a isso o tempo todo.

Já o Startpage funciona como uma espécie de ponte entre o usuário e o Google. O serviço remove informações pessoais da pesquisa antes de enviar a consulta para o buscador da gigante americana.

Na prática, a pessoa continua usando os resultados do Google, mas sem entregar seus dados diretamente à empresa.

Para muitos usuários, isso representa um equilíbrio interessante entre privacidade e qualidade de resultados.

&udm=14 virou símbolo da revolta contra AI Overviews

Entre todas as alternativas ao Google, talvez nenhuma seja tão curiosa quanto o &udm=14.

O nome parece estranho, mas faz sentido para quem acompanha as mudanças recentes do Search. Trata-se do parâmetro que pode ser adicionado ao final das pesquisas no Google para remover automaticamente as AI Overviews.

Na prática, quando alguém adiciona “&udm=14” ao endereço da pesquisa, o Google passa a exibir uma versão mais limpa dos resultados, sem os resumos gerados por inteligência artificial.

O problema é que fazer isso manualmente o tempo inteiro seria extremamente cansativo.

Por isso, surgiu um site inteiro dedicado a automatizar esse processo.

A ideia viralizou rapidamente entre usuários frustrados com a nova direção do Google. O &udm=14 acabou se tornando uma espécie de protesto silencioso contra a transformação do Search em uma experiência centrada em IA.

O mais interessante é que o projeto também mostra algo importante: muita gente não quer necessariamente abandonar o Google. O que essas pessoas querem é recuperar a experiência clássica da busca.

O código do projeto ainda foi disponibilizado no GitHub, permitindo que qualquer pessoa crie sua própria versão personalizada.

Brave e Ecosia tentam reinventar a navegação

O Brave cresceu inicialmente como navegador focado em privacidade, mas sua ferramenta de pesquisa vem ganhando espaço rapidamente.

Um dos recursos mais interessantes é o sistema chamado “Goggles”, que permite alterar completamente o tipo de resultado exibido.

O usuário pode priorizar blogs de tecnologia, remover determinados sites, reduzir conteúdo mainstream ou até filtrar resultados por inclinação política.

É uma proposta diferente da visão tradicional do Google, que sempre tentou entregar uma experiência única para todos.

No Brave, a ideia é justamente o contrário: cada pessoa pode moldar a busca da forma que preferir.

E sim, os recursos de IA também podem ser desligados.

Já o Ecosia aposta em sustentabilidade. A plataforma utiliza parte da receita gerada por anúncios para financiar projetos de reflorestamento ao redor do mundo.

Segundo a empresa, cerca de 80% do lucro é destinado a iniciativas ambientais. Nos últimos anos, o Ecosia passou a divulgar relatórios financeiros mensais e mais detalhes sobre os impactos de seus projetos.

Além disso, tanto Brave quanto Ecosia utilizam Chromium como base, permitindo compatibilidade com extensões do Google Chrome.

O futuro das buscas pode ser muito diferente

O mais interessante dessa mudança não é apenas o crescimento de buscadores alternativos.

O que realmente chama atenção é o fato de que o próprio conceito de “pesquisa na internet” está sendo redefinido.

Durante décadas, buscar significava navegar por links. Agora, as grandes empresas de tecnologia querem transformar a busca em uma conversa contínua mediada por inteligência artificial.

Para algumas pessoas, isso representa praticidade e rapidez.

Para outras, é o começo de uma internet menos aberta, menos humana e mais dependente de respostas automáticas.

O Google acredita que está construindo o futuro das buscas. Mas a reação do público mostra que muita gente ainda prefere uma internet onde humanos escolhem para onde ir, em vez de receber tudo mastigado por um chatbot.

E talvez seja justamente por isso que buscadores alternativos estejam vivendo o seu melhor momento em anos.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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