Principais destaques
- O TacticAI foi criado pelo Google DeepMind para ajudar treinadores a tomar decisões táticas com base em inteligência artificial.
- A tecnologia nasceu especializada em cobranças de escanteio, mas já começou a evoluir para analisar jogadas em movimento.
- Apesar dos avanços, ainda não existe uma IA capaz de garantir que um time vencerá uma partida de futebol.
A eliminação do Brasil para a Noruega gerou uma avalanche de críticas, análises e debates entre torcedores.
Escalação, posicionamento, substituições, estratégia e decisões tomadas durante os 90 minutos passaram a ser discutidas em detalhes. Em meio a essa conversa surgiu uma pergunta curiosa: se uma inteligência artificial estivesse auxiliando a comissão técnica, o resultado poderia ter sido diferente?
A questão pode parecer exagerada, mas ela está cada vez menos distante da realidade. O Google DeepMind trabalha há anos no desenvolvimento do TacticAI, um sistema criado justamente para oferecer suporte a treinadores profissionais durante a preparação e análise de partidas.
A proposta não é substituir técnicos ou jogadores, mas utilizar modelos avançados de inteligência artificial para identificar padrões que muitas vezes passam despercebidos aos olhos humanos.
Isso significa que, embora ainda estejamos longe de um “treinador de IA”, o futebol já começou a experimentar uma nova era em que algoritmos ajudam a interpretar o jogo de maneiras antes impossíveis.
O que é o TacticAI e por que ele chamou tanta atenção
O TacticAI foi apresentado oficialmente pelo Google DeepMind em 2024 após um longo período de pesquisa realizado em parceria com o Liverpool Football Club, uma das equipes mais reconhecidas da Europa por utilizar análise de dados em seu departamento de futebol.
O primeiro objetivo do projeto era bastante específico: compreender tudo o que acontece durante uma cobrança de escanteio.
Embora muitos torcedores enxerguem o escanteio apenas como uma bola levantada na área, trata-se de uma das situações mais complexas do futebol moderno. Em poucos segundos, mais de vinte jogadores disputam espaço, executam movimentos ensaiados e alteram constantemente seu posicionamento. Para um ser humano, analisar todas essas variáveis ao mesmo tempo é praticamente impossível.
Foi justamente aí que entrou a inteligência artificial.
Os pesquisadores alimentaram o sistema com milhares de cobranças realizadas na Premier League. A IA aprendeu a reconhecer padrões de movimentação, prever quem teria maior probabilidade de receber a bola, calcular a chance de uma finalização e até sugerir pequenas mudanças no posicionamento dos jogadores para aumentar ou diminuir a possibilidade de um gol acontecer.
Nos testes apresentados pelo DeepMind, treinadores e especialistas preferiram as sugestões produzidas pelo sistema em aproximadamente 90% das comparações com jogadas reais. Isso chamou atenção porque a IA não apenas analisava o que havia acontecido, mas também conseguia propor alternativas consideradas mais eficientes.
Segundo o Google, o objetivo nunca foi retirar o treinador da tomada de decisão, mas oferecer informações adicionais que normalmente não estariam disponíveis durante uma análise convencional.
A tecnologia evoluiu e já começa a enxergar o jogo inteiro
Desde o anúncio inicial, o TacticAI evoluiu bastante.
Em 2026, durante um evento realizado pelo Google no Brasil, o DeepMind revelou uma nova etapa do projeto. Em vez de observar apenas bolas paradas, a inteligência artificial passou a analisar jogadas em andamento.
Segundo a empresa, a nova versão consegue prever como jogadores devem se movimentar pelos próximos segundos, simulando diferentes possibilidades de posicionamento e ajudando equipes técnicas a testar cenários antes mesmo que eles aconteçam dentro de campo.
Um dos primeiros clubes a participar dessa fase foi o Palmeiras, que passou a colaborar com o desenvolvimento da tecnologia. O sistema é capaz de gerar projeções sobre deslocamentos, ocupação de espaços e comportamento coletivo da equipe, oferecendo uma espécie de laboratório virtual para treinadores estudarem diferentes estratégias.
Apesar do enorme avanço, é importante fazer uma distinção. A versão focada em escanteios foi detalhada em estudos científicos publicados pelo DeepMind, enquanto essa evolução para jogadas em movimento ainda está em fase de implementação e não possui o mesmo nível de documentação pública disponível até o momento.
Ou seja, trata-se de uma tecnologia extremamente promissora, mas que ainda está amadurecendo.
Então a IA poderia ter evitado a derrota do Brasil?
Essa é justamente a pergunta que desperta a curiosidade dos torcedores. A resposta mais honesta é que ninguém sabe.
Se parte dos problemas brasileiros estivesse relacionada ao posicionamento defensivo, à organização coletiva ou à ocupação dos espaços, uma ferramenta como o TacticAI poderia, em teoria, fornecer informações úteis para a comissão técnica durante a preparação da partida ou até mesmo no intervalo do jogo.
A inteligência artificial poderia apontar padrões repetitivos do adversário, identificar jogadores que costumam explorar determinados espaços ou sugerir ajustes de marcação baseados em milhares de simulações.
No entanto, futebol continua sendo um esporte extremamente imprevisível.
Nenhum algoritmo consegue controlar fatores como erros individuais, desgaste físico, confiança, pressão psicológica, qualidade técnica de uma finalização ou decisões tomadas em frações de segundo pelos atletas dentro de campo.
Mesmo que a IA sugerisse uma mudança perfeita no papel, nada garante que ela seria executada corretamente pelos jogadores.
Além disso, treinadores precisam administrar aspectos humanos que simplesmente não aparecem em um banco de dados. Motivação, liderança, comunicação e leitura emocional do elenco continuam sendo fatores fundamentais em qualquer competição.
O futuro do futebol provavelmente será uma parceria entre humanos e inteligência artificial
A grande contribuição do TacticAI talvez não seja mudar o resultado de uma única partida, mas transformar a forma como o futebol é estudado.
Nos últimos anos, os clubes passaram a utilizar análise de desempenho, GPS, sensores físicos, câmeras inteligentes e modelos estatísticos para entender melhor seus atletas. A inteligência artificial representa mais um passo nessa evolução.
Em vez de apenas mostrar estatísticas depois do jogo, ela começa a prever cenários antes que eles aconteçam.
Isso permite que treinadores testem diferentes formações, avaliem riscos, simulem movimentações e encontrem soluções que dificilmente seriam percebidas apenas observando vídeos das partidas.
Ainda assim, o próprio Google deixa claro que o objetivo da tecnologia é servir como assistente, não como substituto da comissão técnica.
A decisão final continuará sendo humana.
Por isso, afirmar que o TacticAI teria salvo o Brasil da derrota para a Noruega seria exagero. A tecnologia talvez pudesse oferecer novos insights, sugerir ajustes importantes e até reduzir alguns riscos. Mas o futebol continua sendo decidido por pessoas, dentro de campo, em um ambiente onde talento, emoção e imprevisibilidade ainda fazem toda a diferença.
Se existe uma conclusão possível, ela é esta: a inteligência artificial não garante vitórias, mas tudo indica que ela fará parte da preparação das maiores seleções e clubes do mundo nos próximos anos. Quem aprender a combinar experiência humana com análise avançada de dados provavelmente terá uma vantagem competitiva cada vez maior.