Gemini 3.5 Pro atrasa após ficar abaixo das expectativas internas do Google

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • O Google adiou novamente o lançamento do Gemini 3.5 Pro após o modelo não atingir as metas de desempenho estabelecidas internamente.
  • A principal dificuldade está nas capacidades de programação, setor que se tornou um dos principais diferenciais entre os grandes modelos de IA.
  • O atraso reforça a intensa disputa entre Google, OpenAI, Anthropic e Meta pelo domínio da próxima geração de inteligência artificial.

A corrida pela inteligência artificial nunca esteve tão competitiva. Enquanto empresas como OpenAI, Anthropic e Meta anunciam novos modelos em intervalos cada vez menores, o Google vive um momento de pressão ao adiar mais uma vez o lançamento do Gemini 3.5 Pro, considerado seu modelo mais avançado até o momento.

Segundo informações publicadas pela Bloomberg e repercutidas pela Reuters, o principal motivo do atraso é simples: o modelo ainda não alcançou o nível de qualidade esperado pela própria empresa.

Em vez de acelerar o lançamento para acompanhar a concorrência, o Google optou por continuar refinando o sistema, mesmo que isso signifique perder tempo em um mercado que evolui praticamente todos os dias.

A decisão mostra uma estratégia diferente da adotada por parte da indústria. Embora lançar rapidamente novos modelos possa gerar vantagens competitivas, disponibilizar uma inteligência artificial abaixo das expectativas também representa riscos para a imagem da empresa, especialmente quando o produto é visto como um dos pilares da estratégia de IA do Google para os próximos anos.

Nos bastidores, o atraso teria gerado frustração entre engenheiros, pesquisadores e gestores envolvidos no projeto. O receio é que a empresa esteja perdendo espaço justamente no momento em que seus principais concorrentes apresentam avanços significativos em desempenho, velocidade e precisão.

A percepção interna é que o Gemini precisa chegar ao mercado em condições de competir diretamente com os modelos mais avançados disponíveis atualmente.

A programação se tornou o maior desafio do Gemini

De acordo com as informações divulgadas, o principal obstáculo enfrentado pela equipe do Gemini 3.5 Pro está relacionado às tarefas de programação. Nos últimos meses, escrever, interpretar e corrigir códigos passou a ser um dos testes mais importantes para medir a capacidade dos modelos de inteligência artificial.

Esse segmento ganhou enorme relevância porque milhões de desenvolvedores passaram a utilizar IA como ferramenta de trabalho. Modelos capazes de gerar código mais preciso economizam tempo, reduzem erros e aumentam a produtividade, tornando esse mercado extremamente estratégico para as grandes empresas de tecnologia.

Nos últimos meses, OpenAI e Meta apresentaram novos modelos que elevaram o nível de desempenho nessa categoria. Isso aumentou a pressão sobre o Google, que precisou revisar parte do treinamento do Gemini para tentar reduzir a diferença em relação aos concorrentes.

Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, no fim de junho a empresa atualizou os dados utilizados no treinamento do Gemini com o objetivo de melhorar sua capacidade de programação. A expectativa era que a nova base de conhecimento elevasse significativamente os resultados obtidos durante os testes internos.

O resultado, porém, ficou abaixo do esperado. Diversos testes continuaram apresentando desempenho inferior às metas estabelecidas pela empresa, obrigando as equipes a prolongar o ciclo de desenvolvimento antes de liberar o modelo para um público mais amplo.

A notícia também repercutiu entre investidores. Após a divulgação do relatório, as ações da Alphabet registraram queda, refletindo a preocupação do mercado com a velocidade de evolução do Google em um dos setores mais importantes da tecnologia atual.

Promessas de lançamento ficaram para trás

O Gemini 3.5 Pro foi apresentado oficialmente durante o Google I/O 2026, conferência anual realizada em maio e voltada para desenvolvedores. Na ocasião, o Google lançou o Gemini 3.5 Flash e informou que a versão Pro chegaria pouco tempo depois.

Durante o evento, o CEO Sundar Pichai afirmou que o modelo seria disponibilizado no mês seguinte. A declaração gerou expectativa entre desenvolvedores e empresas que aguardavam uma versão mais poderosa da plataforma.

Entretanto, junho passou sem qualquer lançamento oficial. Pouco depois, veículos especializados relataram que o cronograma havia sido alterado para permitir que o Google coletasse mais feedback de parceiros que participavam dos testes iniciais.

Mesmo após essa mudança de planejamento, o lançamento continuou sem uma data definitiva. Atualmente, o Gemini 3.5 Pro permanece disponível apenas em uma versão limitada para clientes empresariais dentro do Vertex AI, plataforma de inteligência artificial em nuvem do Google.

Enquanto isso, milhares de desenvolvedores seguem aguardando uma versão pública. Segundo os relatos mais recentes, diferentes versões internas do modelo ainda não conseguiram atingir o nível de desempenho considerado ideal pela companhia, principalmente quando comparadas aos sistemas mais avançados da concorrência.

Estrutura do Google também influencia os atrasos

Os desafios enfrentados pelo Gemini não estão relacionados apenas ao desenvolvimento técnico do modelo. O próprio tamanho da estrutura do Google pode contribuir para que os lançamentos levem mais tempo.

Antes que uma nova inteligência artificial seja disponibilizada globalmente, ela precisa passar por diversas equipes responsáveis por segurança, privacidade, infraestrutura, integração com produtos e avaliação de riscos. Como o Gemini será utilizado em serviços como Search, Workspace, Maps, YouTube, Android e diversas outras plataformas, cada etapa exige análises detalhadas.

Além disso, os modelos mais avançados de inteligência artificial passaram a receber atenção crescente das autoridades norte-americanas. Empresas como Google, OpenAI, Anthropic e Meta mantêm diálogo constante com órgãos do governo dos Estados Unidos sobre padrões de segurança, transparência e desenvolvimento responsável da tecnologia.

Essas avaliações adicionam novas etapas ao processo de lançamento e ajudam a explicar por que modelos extremamente complexos levam mais tempo para chegar ao mercado.

A disputa pela liderança em IA está cada vez mais intensa

O atraso do Gemini 3.5 Pro evidencia o momento decisivo vivido pelo Google. Durante décadas, a empresa foi referência em pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial, mas a popularização dos grandes modelos generativos acelerou a concorrência em um ritmo sem precedentes.

Hoje, OpenAI, Anthropic, Meta, xAI e outras empresas lançam atualizações frequentes, criando uma disputa constante por melhor desempenho, menor custo operacional e novas funcionalidades.

Nesse cenário, cada lançamento influencia diretamente a percepção do mercado, dos investidores e dos próprios desenvolvedores. Um modelo considerado inferior pode afetar contratos empresariais, adoção da tecnologia e até mesmo a imagem da empresa como líder em inovação.

Em nota enviada à imprensa, um porta-voz do Google afirmou que a companhia continua lançando rapidamente uma ampla variedade de modelos de inteligência artificial, sempre buscando manter uma boa relação entre desempenho e custo para seus clientes. A empresa acrescentou que o Gemini 3.5 Pro e uma versão aprimorada do Gemini 3.5 Flash continuam sendo testados com parceiros antes da disponibilização em larga escala.

Embora ainda não exista uma nova data oficial para o lançamento, o caso mostra que, na atual corrida pela inteligência artificial, não basta apenas ser o primeiro. Para empresas que disputam a liderança tecnológica global, entregar um modelo realmente competitivo pode ser ainda mais importante do que acelerar sua chegada ao mercado.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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