Pesquisadores descobrem técnica que pode sequestrar passkeys do Google no Windows

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Pesquisadores da Unit 42 revelaram três técnicas capazes de assumir contas protegidas por passkeys do Google em computadores Windows já infectados por malware.
  • Os ataques não quebram a criptografia das passkeys. Eles exploram falhas na implementação do Google Password Manager, no Chrome e na validação feita por alguns sites.
  • Especialistas reforçam que as passkeys continuam sendo mais seguras que senhas tradicionais, mas a pesquisa mostra que a proteção do dispositivo permanece essencial.

As passkeys foram criadas para substituir definitivamente as senhas tradicionais. Baseadas no padrão FIDO2 e WebAuthn, elas utilizam criptografia de chave pública e eliminam diversos problemas que acompanham as senhas há décadas, como reutilização, vazamentos em massa e ataques de phishing.

Grandes empresas, entre elas Google, Microsoft e Apple, vêm investindo fortemente nessa tecnologia e incentivando sua adoção como o futuro da autenticação online.

Entretanto, um novo estudo divulgado pelos pesquisadores da Unit 42, equipe de inteligência em segurança da Palo Alto Networks, mostra que mesmo um sistema considerado extremamente seguro pode apresentar pontos fracos quando o computador do usuário já foi comprometido por um malware.

A pesquisa, publicada no início de agosto, descreve três novas técnicas de ataque capazes de sequestrar contas protegidas por passkeys sincronizadas pelo Google Password Manager em computadores Windows utilizando o navegador Chrome.

É importante destacar que o trabalho não representa uma quebra da tecnologia das passkeys. A criptografia continua intacta. O problema está na infraestrutura ao redor delas, incluindo o processo de registro do dispositivo, o gerenciamento das chaves criptográficas e a forma como determinados serviços validam uma autenticação.

Como funcionam as passkeys

Para entender a gravidade da descoberta, é importante compreender rapidamente como as passkeys funcionam.

Ao contrário das senhas, uma passkey nunca envia um segredo compartilhado para um servidor. Quando ela é criada, o dispositivo gera um par de chaves criptográficas. A chave pública é enviada para o serviço online, enquanto a chave privada permanece protegida no dispositivo ou em um gerenciador de credenciais.

No caso do Google Password Manager, essas credenciais podem ser sincronizadas entre diferentes dispositivos vinculados à mesma conta Google. Durante esse processo, o Chrome realiza um procedimento de registro do computador junto ao autenticador em nuvem do Google. Para isso, utiliza diversos elementos de segurança, incluindo o Trusted Platform Module (TPM), presente na maioria dos computadores modernos, além de chaves de identidade do dispositivo e um segredo criptográfico responsável por proteger todas as passkeys sincronizadas.

Na teoria, essa arquitetura impede que um invasor copie simplesmente as credenciais para outro equipamento. Porém, a pesquisa mostra que existem formas de explorar justamente essa camada intermediária.

Pass-ta-key: autenticação silenciosa sem biometria

A primeira técnica recebeu o nome de Pass-ta-key.

Nesse cenário, um malware já executado na máquina consegue utilizar a chave de identidade do dispositivo armazenada pelo Chrome para solicitar ao autenticador em nuvem uma autenticação válida. O mais preocupante é que isso acontece sem exigir impressão digital, reconhecimento facial, PIN do Windows Hello ou qualquer confirmação do usuário.

Os pesquisadores explicam que a autenticação gerada não informa que houve verificação do usuário. Em teoria, isso deveria fazer com que qualquer serviço rejeitasse imediatamente o login.

Na prática, nem todos os sites realizam essa conferência corretamente.

Durante os testes realizados pela Unit 42, o GitHub identificou o problema e bloqueou a autenticação inválida. Já outro grande serviço aceitou o login até que a falha fosse corrigida após a divulgação responsável da pesquisa. Isso evidencia que a segurança das passkeys também depende da implementação correta do padrão WebAuthn pelos próprios sites.

Silver Pass-ta-key permite registrar um dispositivo do atacante

A segunda técnica é ainda mais sofisticada.

Batizada de Silver Pass-ta-key, ela força o Chrome a realizar novamente o processo de cadastro do computador junto ao autenticador em nuvem do Google.

Durante essa janela de registro, o malware substitui uma das chaves criptográficas por outra controlada pelo próprio invasor.

Segundo os pesquisadores, o sistema atual não valida suficientemente se essa nova chave realmente foi criada em um hardware confiável. Como consequência, o atacante consegue registrar seu próprio computador como se fosse um dispositivo legítimo da vítima.

Depois dessa etapa, ele passa a conseguir realizar autenticações válidas diretamente do seu equipamento, inclusive recebendo a confirmação de verificação do usuário (User Verified), algo que normalmente só seria possível mediante biometria ou PIN.

Golden Pass-ta-key é considerado o cenário mais perigoso

A variante mais preocupante recebeu o nome de Golden Pass-ta-key.

Ela tem como objetivo capturar um componente chamado Security Domain Secret (SDS), um segredo criptográfico de 32 bytes utilizado para proteger todas as passkeys sincronizadas na conta Google.

Inicialmente, os pesquisadores encontraram esse segredo aparecendo em texto simples nos logs internos do Chrome relacionados ao protocolo FIDO. Após receber a notificação, o Google removeu esse comportamento.

Mesmo assim, a Unit 42 afirma que o SDS continua permanecendo temporariamente na memória do processo do navegador durante operações como registro de novos dispositivos e recuperação de credenciais. Caso exista um malware monitorando essa memória, ele poderá capturar esse segredo.

O risco é significativo porque esse único segredo protege todas as passkeys sincronizadas da conta.

Segundo o estudo, uma vez obtido, ele pode permitir a descriptografia das credenciais atuais e também das futuras sincronizações realizadas pelo usuário.

O problema não está nas passkeys

Apesar do impacto da pesquisa, os próprios pesquisadores fazem questão de esclarecer um ponto importante: as passkeys não foram quebradas.

Nenhum dos ataques consegue violar os algoritmos criptográficos utilizados pelo padrão FIDO2.

Em vez disso, eles exploram falhas na implementação do Google Password Manager e do Chrome, além de comportamentos inseguros adotados por alguns serviços online durante a validação da autenticação.

Na prática, isso significa que um computador saudável continua oferecendo um nível de proteção muito superior ao das senhas convencionais.

O ataque somente funciona quando o invasor já conseguiu instalar um malware na máquina da vítima.

Em outras palavras, trata-se de um ataque pós-comprometimento, ou seja, o dispositivo já perdeu sua integridade antes mesmo da exploração das passkeys.

Ainda não existe uma solução definitiva

Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores é a dificuldade de recuperação caso o segredo criptográfico principal seja comprometido.

Segundo a Unit 42, a implementação atual do Google Password Manager não oferece um mecanismo público para revogar ou rotacionar o Security Domain Secret após um incidente.

Até a divulgação da pesquisa, também não havia um identificador CVE atribuído às três técnicas apresentadas, e o Google ainda não havia informado se pretende realizar mudanças estruturais na arquitetura do sistema. Algumas correções pontuais já foram implementadas, como a remoção do segredo dos logs internos do Chrome, mas outras questões continuam sendo analisadas.

Como usuários e empresas podem reduzir os riscos

Embora a maior parte das correções dependa do Google, os pesquisadores também apresentam recomendações para desenvolvedores e administradores de serviços online.

Os sites devem exigir obrigatoriamente a confirmação de verificação do usuário durante a autenticação e validar corretamente o indicador User Verified (UV) retornado pelo protocolo WebAuthn, em vez de confiar apenas na configuração enviada pelo navegador.

Já os provedores de credenciais precisam fortalecer os mecanismos de registro de novos dispositivos, exigir comprovação de origem das novas chaves criptográficas e impedir que informações sensíveis permaneçam acessíveis na memória do navegador durante operações críticas.

Para os usuários finais, a recomendação continua sendo manter o Windows atualizado, utilizar um antivírus ou solução EDR confiável, evitar instalar softwares de origem desconhecida e desconfiar de anexos ou programas obtidos fora de fontes oficiais. Como o ataque exige que o malware já esteja presente na máquina, impedir a infecção continua sendo a defesa mais importante.

As passkeys continuam sendo a melhor alternativa às senhas

Mesmo com a divulgação da pesquisa, especialistas afirmam que não há motivo para abandonar as passkeys.

Elas continuam oferecendo proteção muito superior às senhas tradicionais, principalmente contra phishing, vazamentos de bancos de dados e reutilização de credenciais.

O estudo da Unit 42 serve como um lembrete de que nenhuma tecnologia de autenticação consegue proteger um computador que já foi completamente comprometido. Quando um invasor controla o sistema operacional, o alvo deixa de ser apenas a credencial e passa a ser toda a infraestrutura responsável por gerenciá-la.

Mais do que colocar em dúvida o futuro das passkeys, a pesquisa reforça que a segurança digital depende de múltiplas camadas. Mesmo a melhor forma de autenticação disponível atualmente continua precisando de um dispositivo íntegro e protegido contra malwares para entregar todo o seu potencial.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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