Chrome e Edge reservam 20 GB do armazenamento para a nova onda de IA local

Renê Fraga
21 min de leitura

Principais destaques

  • 20 GB livres agora aparecem como requisito para que o Chrome baixe modelos de IA no próprio computador. O número é uma margem de armazenamento, não o tamanho do modelo.
  • O modelo local do Chrome pode ocupar cerca de 4 GB, enquanto o Edge exige pelo menos 20 GB disponíveis para recursos experimentais baseados em modelos como o Phi-4-mini.
  • A mudança reacende uma discussão incômoda: até onde um navegador pode preparar o computador para recursos de IA que o usuário talvez nunca tenha pedido para usar?

A inteligência artificial está ganhando espaço dentro dos navegadores. Literalmente.

Documentações atualizadas do Google e da Microsoft mostram que Chrome e Edge estão adotando modelos de linguagem executados localmente, o que significa que parte do processamento acontece no próprio computador, sem depender o tempo todo de um servidor na nuvem.

O detalhe que chama atenção é o espaço necessário para isso.

No caso do Chrome, o Google informa oficialmente que o navegador pode baixar modelos de IA generativa quando o computador tem aproximadamente 20 GB de espaço livre, além de uma conexão sem limite de dados e desempenho de hardware considerado suficiente. O modelo em si é bem menor do que isso.

É uma diferença importante porque transforma uma informação aparentemente assustadora em algo mais fácil de entender:

20 GB não é o tamanho do modelo de IA. É o espaço livre mínimo que o navegador quer encontrar antes de fazer o download.

O modelo local associado ao Chrome, baseado no Gemini Nano, pode ocupar cerca de 4 GB no armazenamento depois de instalado. Pesquisadores já haviam chamado atenção, em maio, para o download automático de um arquivo de aproximadamente 4 GB relacionado a esse sistema.

E é justamente aí que começa a parte mais interessante da história.

20 GB livres não significam um download de 20 GB

Imagine um notebook com SSD de 128 GB.

O sistema operacional já ocupa uma parte do disco. Aplicativos, atualizações, documentos, fotos, vídeos e arquivos temporários consomem mais espaço. Se o usuário chegar ao ponto de ter apenas 18 GB disponíveis, o Chrome pode considerar que o computador não atende ao requisito para baixar determinados modelos locais de IA.

Isso não quer dizer que o navegador precise ocupar 20 GB com o modelo.

O Google descreve os 20 GB como requisito mínimo aproximado de espaço livre para o download de modelos de IA no dispositivo. A empresa também deixa claro que os requisitos podem mudar conforme os recursos e modelos disponíveis.

A conta que importa

ItemEspaço aproximado
Requisito de espaço livre do Chrome20 GB
Modelo local citado no caso Gemini Nanocerca de 4 GB
SSD de um notebook de entrada128 GB
SSD comum em máquinas intermediárias256 GB

Ou seja, o modelo pode representar uma parcela relevante do armazenamento, mas o navegador quer uma folga muito maior antes de iniciar o processo.

Essa diferença também explica por que a notícia não deve ser interpretada como “Chrome está baixando 20 GB de IA”.

O problema é outro: o navegador está começando a tratar espaço livre como parte dos requisitos para habilitar inteligência artificial local.

E isso pode ter consequências práticas para máquinas com armazenamento mais limitado.


O que existe dentro desses 4 GB?

Modelos de linguagem não são simplesmente programas tradicionais instalados como um aplicativo.

Eles carregam grandes conjuntos de parâmetros, chamados de pesos, que representam o conhecimento e os padrões aprendidos durante o treinamento da rede neural.

No caso que provocou a discussão em torno do Chrome, pesquisadores identificaram um arquivo chamado weights.bin, associado ao modelo local usado por recursos de IA do navegador. O arquivo ficava dentro da estrutura de dados do Chrome e tinha aproximadamente 4 GB.

Esse tipo de modelo permite que determinadas funções sejam executadas diretamente na máquina.

A ideia tem vantagens.

Quando uma tarefa é realizada localmente, os dados necessários para aquela operação podem permanecer no computador. Também há potencial para reduzir latência e depender menos de uma conexão permanente com servidores externos.

O Edge explica exatamente esse argumento ao apresentar suas APIs de IA incorporadas. Segundo a Microsoft, depois do download inicial, o processamento local pode reduzir a latência de rede e permitir que o modelo seja utilizado mesmo quando o dispositivo está offline. A empresa também destaca o potencial de privacidade porque os dados usados pelo modelo podem permanecer no dispositivo.

É a mesma lógica que está transformando smartphones, PCs e agora navegadores em pequenas plataformas de IA.

O preço dessa autonomia, porém, aparece no SSD.

O navegador virou uma espécie de plataforma de IA

Durante anos, instalar um navegador significava basicamente instalar um programa relativamente leve que servia de porta de entrada para a internet.

Esse conceito está mudando.

Hoje, Chrome e Edge não querem apenas interpretar páginas. Eles também querem resumir textos, ajudar a escrever, corrigir conteúdo, interpretar informações e permitir que sites chamem modelos de inteligência artificial diretamente pelo navegador.

Isso cria uma camada intermediária entre o site e o modelo.

Em vez de cada página precisar baixar seu próprio modelo de IA, o navegador pode manter um modelo local compartilhado. No caso do Edge, a Microsoft explica que o modelo incorporado é baixado uma vez e pode ser compartilhado entre diferentes sites que utilizem a API.

Para desenvolvedores, isso é interessante.

Para o usuário, significa que um navegador pode começar a ocupar centenas de megabytes ou vários gigabytes para oferecer recursos que antes simplesmente não existiam.


Edge confirma a mesma tendência, mas com uma diferença importante

A Microsoft deixa a situação ainda mais clara em sua documentação.

O Edge possui APIs experimentais que permitem que sites e extensões utilizem pequenos modelos de linguagem incorporados ao navegador. Entre eles está o Phi-4-mini, da Microsoft. Em versões de desenvolvimento, a API Prompt permite solicitar esse modelo diretamente pelo navegador.

E os requisitos são bastante específicos.

20 GB de armazenamento disponível.

5,5 GB ou mais de VRAM.

Windows 10 ou 11 ou macOS 13.3 ou posterior.

E uma conexão que não seja tarifada por consumo.

Se o armazenamento disponível cair abaixo de 10 GB, a própria documentação diz que o modelo poderá ser removido para garantir que outras funções do navegador tenham espaço suficiente para continuar funcionando.

Isso é especialmente interessante porque mostra que os 20 GB não são uma peculiaridade isolada do Chrome.

No Edge, a regra é ainda mais explícita

O requisito de 20 GB aparece nas APIs experimentais de IA local do navegador.

A Microsoft também estabelece que o modelo não será baixado quando o usuário estiver conectado a uma rede com tráfego limitado. O primeiro download acontece quando um site utiliza uma API que realmente precisa do modelo.

Isso ajuda a colocar a situação em perspectiva.

Não se trata de dizer que todo usuário do Edge está necessariamente baixando um modelo de 4 GB neste momento.

No caso das APIs experimentais, existem condições específicas de hardware, armazenamento e rede, e o download inicial está ligado ao uso de uma API que exige o modelo.

Mesmo assim, a direção da indústria é evidente.

Os navegadores estão sendo preparados para carregar modelos de IA localmente.


E o que acontece se o usuário simplesmente apagar o arquivo?

Essa é uma das partes que mais incomodaram usuários.

Apagar manualmente um modelo não necessariamente resolve o problema quando o navegador entende que aquele componente continua sendo necessário.

A documentação oficial do Chrome oferece uma maneira administrativa de controlar o download do modelo de IA generativa local. A política GenAILocalFoundationalModelSettings, quando configurada para não permitir o download, impede a instalação do modelo e pode excluir um modelo que já esteja presente.

No Edge, existe uma política com o mesmo nome.

Quando definida como Não permitido (1), a Microsoft informa que o modelo não será baixado e que um modelo existente será removido. A política pode ser configurada no Windows por meio de Política de Grupo ou Registro.

Isso é importante principalmente para empresas e administradores de computadores.

Mas também revela uma mudança conceitual:

modelos de IA estão começando a ser tratados pelo navegador como componentes permanentes de software, e não simplesmente como arquivos opcionais.


Por que isso pode ser um problema em notebooks baratos?

A indústria de computadores passou anos aumentando a capacidade dos SSDs, mas máquinas de entrada ainda podem trazer armazenamento relativamente limitado.

Um notebook com 128 GB parece ter bastante espaço no papel.

Na prática, depois da instalação do sistema operacional, atualizações, aplicativos e arquivos temporários, o espaço realmente disponível é muito menor.

Agora imagine reservar uma parte considerável desse espaço para modelos de IA.

Não é apenas o tamanho do modelo que importa.

Há também:

  • atualizações do próprio navegador;
  • arquivos temporários;
  • cache;
  • outros modelos;
  • arquivos do sistema;
  • aplicativos;
  • documentos pessoais;
  • dados de outros programas.

E o problema pode ficar maior à medida que os navegadores adicionam novas funções de IA.

O paradoxo do computador “compatível”

Existe uma situação curiosa aqui.

Um computador pode ter hardware suficiente para executar uma função de inteligência artificial, mas não ter armazenamento suficiente para receber o modelo.

Ou seja:

ter uma GPU capaz não significa necessariamente ter espaço para a IA.

No Edge, por exemplo, a documentação da API Prompt estabelece simultaneamente requisitos de armazenamento e de GPU. O navegador procura uma combinação de recursos que permita executar o modelo com qualidade e latência previsíveis.

Isso mostra que a IA local não é apenas uma questão de software.

Ela depende de uma espécie de “pacote mínimo” de hardware.


O lado positivo: IA local não é apenas uma forma de economizar internet

É fácil olhar para esses downloads e enxergar somente o lado negativo.

Mas existe uma razão técnica bastante forte para Google e Microsoft quererem modelos locais.

Quando uma tarefa simples pode ser realizada diretamente no computador, não é necessário enviar cada solicitação para um servidor remoto.

Isso pode significar:

mais privacidade em determinadas funções.

menor latência depois do download inicial.

possibilidade de funcionamento sem internet.

menor dependência de chamadas constantes à nuvem.

A Microsoft apresenta justamente esses pontos como vantagens de seu modelo incorporado ao Edge. A empresa afirma que os dados utilizados pelo modelo podem permanecer no dispositivo e que, depois do download inicial, o processamento não depende da latência de uma conexão com a internet.

É uma troca.

O usuário entrega alguns gigabytes do SSD para ganhar uma IA que pode funcionar localmente.


A questão mais delicada é o consentimento

O debate que surgiu em torno do Chrome não se resume aos 4 GB.

O que chamou atenção foi a percepção de que um navegador poderia baixar um componente de inteligência artificial sem uma comunicação suficientemente clara para o usuário.

Uma investigação publicada em maio relatou que o Chrome estava baixando um modelo de aproximadamente 4 GB automaticamente em determinadas máquinas. O arquivo identificado estava associado ao OptGuideOnDeviceModel.

A discussão ganhou força porque o usuário comum dificilmente abriria a pasta de dados do Chrome para descobrir que um modelo de linguagem estava armazenado ali.

Isso cria uma pergunta legítima:

Se o navegador instala um modelo de vários gigabytes para uma função que eu ainda não usei, eu deveria ser avisado?

Tecnicamente, existe uma justificativa para o download antecipado. O modelo precisa estar presente para que determinados recursos funcionem rapidamente quando forem chamados.

Do ponto de vista da experiência do usuário, entretanto, a história é diferente.

Espaço em disco é um recurso do proprietário do computador.

E, especialmente em notebooks com SSD pequeno, alguns gigabytes podem fazer diferença.


Google e Microsoft já oferecem mecanismos de controle

A situação também não significa que o usuário esteja completamente sem opções.

No Chrome, a própria documentação empresarial do Google permite desativar o download do modelo básico de IA generativa por meio da política correspondente. Quando configurada como desativada, o modelo não é baixado e um modelo existente pode ser excluído.

No Edge, a Microsoft oferece mecanismo semelhante.

Isso é particularmente útil para empresas que administram centenas ou milhares de máquinas e não querem que modelos de IA sejam baixados automaticamente.

Para usuários domésticos, o caminho pode depender da versão do navegador e dos recursos de IA disponíveis naquele momento. Por isso, apagar manualmente uma pasta do navegador não é a melhor estratégia para quem quer impedir permanentemente novos downloads.

A lógica é simples:

se o navegador considera o modelo necessário, ele pode tentar obtê-lo novamente.

O controle precisa acontecer na configuração ou política que determina o comportamento do recurso.


A nova corrida da IA chegou ao armazenamento

Durante a primeira fase da corrida da inteligência artificial, a discussão estava concentrada em processadores, placas de vídeo e servidores.

Depois vieram as NPU, a memória RAM e a VRAM.

Agora, o SSD também entrou na conversa.

O motivo é simples: modelos locais precisam morar em algum lugar.

E quanto mais os navegadores incorporarem inteligência artificial, mais natural será encontrar modelos armazenados junto aos arquivos do próprio navegador.

O Edge já trabalha com diferentes APIs de IA incorporada. Além da Prompt API, a Microsoft documenta APIs para escrever, reescrever, resumir e corrigir textos usando modelos locais. Todas elas fazem parte da estratégia de levar pequenos modelos de linguagem para dentro do navegador.

No caso do Edge, a empresa também passou a testar o Aion-1.0-Instruct, um modelo menor e mais eficiente que o Phi-4-mini, inclusive capaz de funcionar em máquinas com GPUs menos potentes ou sem GPU dedicada por meio de inferência na CPU.

Isso pode ajudar a reduzir a barreira de hardware.

Mas também aponta para uma realidade inevitável:

a quantidade de IA instalada localmente tende a crescer.


O que muda para quem usa Chrome hoje?

Para a maioria das pessoas, a existência do requisito de 20 GB não significa que o computador ficará imediatamente 20 GB mais cheio.

O Chrome só baixa os modelos quando os requisitos de compatibilidade são atendidos. O Google também informa que os recursos de IA local não estão disponíveis em todos os dispositivos.

Ainda assim, vale prestar atenção se o computador possui pouco espaço.

Uma boa regra prática é manter uma margem confortável de armazenamento livre, principalmente em máquinas com SSD de 128 GB ou 256 GB.

Também é importante diferenciar duas coisas:

20 GB livres: condição para permitir o download.

4 GB aproximadamente: ordem de grandeza do modelo citado no caso do Gemini Nano.

Essa distinção evita uma interpretação exagerada da novidade.


Em números

20 GB
Espaço livre mínimo aproximado indicado pelo Chrome para downloads de modelos de IA no dispositivo.

4 GB
Tamanho aproximado relatado para o modelo local associado ao Gemini Nano no episódio que gerou a controvérsia.

10 GB
No Edge, abaixo desse nível de armazenamento disponível, o modelo pode ser removido para preservar espaço para outras funções do navegador.

5,5 GB
Quantidade de VRAM indicada pela Microsoft como requisito para a prévia de desenvolvedor da Prompt API com o Phi-4-mini.


O navegador que antes só abria sites agora também carrega modelos

Talvez essa seja a mudança mais importante por trás dos 20 GB.

Chrome e Edge estão deixando de ser apenas programas usados para acessar serviços de internet. Eles estão se transformando em plataformas capazes de hospedar modelos de inteligência artificial e oferecer ferramentas de IA diretamente às páginas e extensões.

Isso pode tornar algumas funções mais rápidas, privadas e independentes da nuvem.

Também significa que o navegador passa a disputar espaço com os próprios arquivos do usuário.

Para quem tem um SSD de 1 TB, alguns gigabytes podem parecer irrelevantes.

Para quem tem 128 GB e está lutando para manter o Windows atualizado, a história é outra.

E existe ainda uma questão maior.

A indústria está apostando que a inteligência artificial deve estar disponível o tempo todo, pronta para ser acionada assim que uma página, aplicativo ou recurso precisar dela.

O modelo fica esperando.

O navegador fica preparado.

E o SSD paga a conta.

Fontes consultadas: Google Chrome Help sobre modelos de IA no dispositivo; Chrome Enterprise sobre políticas de modelos locais; Microsoft Learn sobre Prompt API, APIs de assistência de escrita e política de modelos GenAI; Malwarebytes sobre o episódio envolvendo o modelo local de aproximadamente 4 GB.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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