Google evita divisão de negócio de publicidade, mas Justiça dos EUA impõe novas regras

Renê Fraga
16 min de leitura

Principais destaques

  • Google não precisará vender ou separar sua estrutura de publicidade digital, apesar de ter sido considerado monopolista no mercado de ad tech.
  • A Justiça dos EUA determinou que a companhia altere práticas comerciais que, segundo o processo, ajudaram a preservar sua posição dominante.
  • A decisão pode abrir espaço para concorrentes e mudar a relação entre Google, anunciantes e sites, mas os detalhes das novas regras ainda serão divulgados.

O Google conseguiu evitar uma das medidas mais severas que poderiam atingir seu império de publicidade digital nos Estados Unidos. A empresa continuará dona de suas principais ferramentas de tecnologia para anúncios, mas terá de modificar a maneira como conduz parte de seus negócios.

A determinação veio da juíza federal Leonie M. Brinkema, do Distrito Leste da Virgínia, responsável pelo processo antitruste contra o negócio de ad tech do Google. A decisão desta semana trata especificamente das medidas que devem ser aplicadas depois de a empresa ter sido considerada responsável por práticas ilegais de monopólio.

O resultado é importante porque o Departamento de Justiça dos Estados Unidos havia defendido medidas muito mais agressivas, incluindo a possibilidade de separar ativos do Google para reduzir sua influência sobre o mercado.

Em vez disso, a Justiça optou por manter a estrutura empresarial da companhia e impor mudanças em seu comportamento competitivo. O modelo lembra, em alguns aspectos, o que ocorreu no processo envolvendo a busca do Google, no qual a empresa também conseguiu evitar uma divisão de seus principais produtos, mas recebeu ordens para mudar determinadas práticas.

A batalha contra o monopólio de publicidade

A disputa atual começou em 2023, quando o Departamento de Justiça dos EUA, acompanhado por procuradores-gerais de vários estados, processou o Google por sua atuação no mercado de publicidade digital.

O governo argumentou que a companhia havia usado sua posição em diferentes partes da cadeia de publicidade para consolidar um poder difícil de desafiar por concorrentes.

O problema não estava apenas no fato de o Google ter uma ferramenta popular de anúncios. A acusação envolvia o controle de diferentes etapas necessárias para que um anúncio apareça em um site.

Esse mercado é conhecido como ad tech, abreviação de advertising technology. Ele reúne sistemas que conectam quem quer comprar publicidade a empresas e criadores que possuem espaço para exibir anúncios.

Quando uma pessoa abre uma página com publicidade, uma série de processos automatizados pode ocorrer em uma fração de segundo. Ferramentas de tecnologia identificam o espaço disponível, apresentam a oportunidade a potenciais compradores e realizam uma espécie de leilão para decidir qual anúncio será exibido.

O Google está presente em vários desses pontos.

Segundo o Departamento de Justiça, a empresa controlava ferramentas usadas pelos sites para vender anúncios, tecnologias utilizadas pelos anunciantes para comprar espaço e uma importante plataforma de negociação responsável por conectar os dois lados.

Como funciona a cadeia de anúncios

EtapaFunção
PublisherSite ou plataforma que possui espaço publicitário
Ad serverTecnologia usada para administrar e vender esse espaço
Ad exchangeAmbiente que conecta oferta e demanda e realiza leilões
AnuncianteEmpresa que deseja comprar publicidade
DSPFerramenta usada para ajudar anunciantes a comprar espaço

Essa integração pode trazer eficiência. O problema, segundo os órgãos americanos, surge quando uma empresa que controla várias etapas passa a usar essa posição para favorecer seus próprios produtos e dificultar a atuação de concorrentes.

Foi justamente essa fronteira que o processo tentou definir.

Justiça já havia considerado o Google monopolista

Em abril de 2025, a juíza Brinkema concluiu que o Google havia monopolizado ilegalmente determinados mercados de publicidade digital aberta.

A decisão veio depois de um julgamento que durou 15 dias e analisou a atuação da companhia em diferentes partes da infraestrutura usada para publicidade na internet.

Entre os pontos analisados estava a relação entre o DoubleClick for Publishers, ferramenta usada por sites para administrar seu inventário de publicidade, e o AdX, a plataforma de negociação de anúncios do Google.

A Justiça concluiu que a ligação entre essas ferramentas teve efeitos anticompetitivos. De acordo com a decisão, a combinação ajudou a dificultar a competição de outros servidores de anúncios usados por publishers.

O Departamento de Justiça havia argumentado que o Google utilizou sua posição durante anos para neutralizar ou enfraquecer concorrentes.

A acusação também apontou que a companhia realizou aquisições e adotou mecanismos que ajudaram a consolidar sua presença em diferentes pontos da cadeia. O governo afirmou que esse processo ocorreu durante mais de 15 anos.

Por que isso importa para sites e anunciantes?

A disputa não envolve apenas grandes empresas de tecnologia. Ela afeta diretamente o modelo econômico de uma enorme parcela da internet.

Sites dependem da publicidade para financiar produção de conteúdo, manter equipes e oferecer serviços gratuitos aos usuários.

Quando uma empresa controla uma parte significativa da infraestrutura que conecta esses sites aos anunciantes, qualquer mudança nas regras pode afetar quanto dinheiro chega ao publisher e quanto é pago pelo anunciante.

É por isso que o governo americano apresentou o caso como uma questão de concorrência e não apenas como uma disputa entre gigantes da tecnologia.

Google poderá manter sua estrutura de publicidade

A decisão de setembro de 2026 não determina que o Google venda seu negócio de publicidade. Essa possibilidade era uma das maiores preocupações da companhia durante a disputa.

Em vez de desmontar a operação, Brinkema determinou que o Google altere suas práticas para dar mais espaço aos concorrentes. O problema é que a decisão divulgada inicialmente ainda não apresentou todos os detalhes de como essas mudanças deverão funcionar.

A versão completa da decisão ficará sob sigilo por 14 dias para permitir a realização de cortes e ajustes necessários antes da publicação.

Isso significa que ainda existe uma parte importante da história a ser revelada.

Será necessário entender quais produtos serão afetados, quais práticas terão de ser abandonadas e como a Justiça pretende verificar se o Google está cumprindo as determinações.

Para empresas que competem com o Google, esses detalhes podem ser mais importantes do que a decisão de não dividir a companhia.

O precedente do processo envolvendo a busca

O resultado também chama atenção porque segue um caminho semelhante ao processo antitruste envolvendo o mecanismo de busca do Google.

Em 2024, outro tribunal americano concluiu que a empresa havia mantido ilegalmente um monopólio no mercado de buscas e de publicidade associada à pesquisa.

Durante a etapa de definição das medidas corretivas, o governo chegou a defender alternativas extremamente amplas, incluindo a possibilidade de separar o Chrome e o Android da companhia.

Em setembro de 2025, porém, o juiz Amit Mehta rejeitou os pedidos de separação desses produtos. Em seu lugar, determinou restrições a determinados acordos de distribuição e exigiu que o Google disponibilizasse alguns dados de busca e interação a concorrentes.

O caso de publicidade segue uma lógica parecida: o tribunal reconhece problemas de concorrência, mas não considera necessário desmontar a empresa para tentar corrigi-los.

Essa abordagem representa uma diferença importante em relação à ideia de simplesmente quebrar uma Big Tech em várias companhias menores.

O papel dos acordos que colocaram o Google como padrão

Embora o processo de ad tech tenha características próprias, a posição dominante do Google em publicidade também está ligada ao enorme alcance de seu mecanismo de busca.

Durante anos, a companhia firmou acordos com fabricantes de celulares e outros parceiros para garantir que o Google Search aparecesse como opção padrão nos dispositivos.

Também houve acordos de compartilhamento de receita com operadoras. Nesses contratos, parceiros recebiam uma parcela da receita gerada pelos anúncios em troca de manter o Google como mecanismo de busca padrão.

A acusação do governo é que esse tipo de acordo ajudou a criar um ciclo difícil de romper: quanto mais usuários utilizavam o Google, mais dados e receita a companhia acumulava, fortalecendo sua capacidade de manter sua posição.

No processo de busca, a Justiça já determinou medidas para limitar contratos exclusivos relacionados à distribuição de produtos como Google Search, Chrome, Google Assistant e Gemini.

Isso mostra como os dois processos, embora separados, estão conectados por uma questão maior: o tamanho do ecossistema Google.

O que pode mudar para quem anuncia na internet

A principal consequência da decisão ainda dependerá das regras finais, mas a intenção das medidas é aumentar a possibilidade de concorrentes disputarem negócios que hoje passam pelas ferramentas do Google.

Se outras empresas conseguirem competir em condições mais equilibradas, anunciantes poderão ter mais opções para comprar publicidade.

Para publishers, a mudança também pode significar maior liberdade para escolher quais ferramentas administram seus espaços publicitários e quais plataformas participam dos leilões.

O Departamento de Justiça sustenta há anos que práticas anticompetitivas nesse setor podem reduzir a receita dos criadores de conteúdo e aumentar os custos para anunciantes.

O próprio funcionamento dos leilões é uma das áreas mais sensíveis.

Quando diferentes plataformas participam da disputa por um espaço publicitário, a expectativa é que elas concorram para oferecer o melhor preço ao publisher. Se uma plataforma tiver vantagens estruturais sobre as rivais, o resultado pode ser diferente.

Foi justamente esse tipo de dinâmica que esteve no centro das acusações contra o Google.

Google considera decisão uma vitória

Apesar das restrições, o Google recebeu a decisão como um resultado positivo.

Lee-Anne Mulholland, vice-presidente de assuntos regulatórios da empresa, afirmou ao TechCrunch que a companhia ficou satisfeita porque a Justiça rejeitou a proposta do Departamento de Justiça de separar ferramentas utilizadas por pequenas empresas para alcançar novos clientes.

A reação reflete uma das principais estratégias de defesa da empresa: argumentar que sua integração tecnológica oferece eficiência para anunciantes e publishers.

O Google também sustenta que seus produtos ajudam empresas de diferentes tamanhos a encontrar clientes e administrar campanhas de publicidade.

O tribunal, entretanto, concluiu que determinados mecanismos usados pela companhia ultrapassaram os limites aceitáveis da competição.

Essa distinção será fundamental daqui para frente. O Google não foi obrigado a abandonar sua atuação no setor, mas terá de operar dentro de novas regras.

Uma mudança que pode afetar toda a internet

A decisão chega em um momento em que a publicidade digital se tornou uma infraestrutura essencial para o funcionamento da internet aberta.

Sites gratuitos, veículos de comunicação, blogs e outras plataformas dependem de anúncios para gerar receita sem cobrar diretamente de todos os visitantes.

Por isso, mudanças na forma como os anúncios são comprados e vendidos podem ter efeitos muito além do mercado publicitário.

Um ecossistema com mais concorrência pode oferecer novas alternativas para publishers e anunciantes. Ao mesmo tempo, mudanças profundas também podem aumentar a complexidade de um mercado que já depende de dezenas de tecnologias diferentes.

O tamanho desse mercado ajuda a explicar por que o processo contra o Google foi tão longo e complexo.

O Departamento de Justiça afirmou, quando apresentou a ação, que o Google controlava tecnologias importantes dos dois lados da negociação e também a plataforma que fazia a intermediação entre eles. A acusação sustentava que essa combinação permitia à companhia influenciar o funcionamento do mercado de maneira difícil de ser contestada.

Agora, a Justiça tenta corrigir parte desse desequilíbrio sem desmontar a empresa.

O que acontece a partir de agora

1. A decisão completa será divulgada após as revisões e redacções.

Os detalhes serão importantes para determinar exatamente quais práticas terão de ser alteradas pelo Google.

2. A empresa continuará operando sua estrutura de publicidade.

Não haverá, neste momento, uma separação forçada do negócio de ad tech.

3. Concorrentes poderão ganhar novas oportunidades.

A expectativa das autoridades é que as mudanças reduzam algumas das vantagens que, segundo o processo, ajudaram o Google a manter sua posição dominante.

O resultado representa mais uma derrota jurídica para práticas específicas do Google, mas também uma vitória empresarial importante para a companhia, que preservou a estrutura de seu negócio de publicidade.

A disputa, portanto, está longe de significar o fim do domínio do Google sobre a publicidade digital. O próximo capítulo será definido pelos detalhes das medidas impostas pela juíza e pela capacidade dos concorrentes de transformar essas novas regras em competição real.

Mais do que decidir se o Google continuaria ou não dono de suas ferramentas de publicidade, o processo passou a discutir uma questão maior: até onde uma empresa pode integrar diferentes partes de um mercado antes que essa integração deixe de ser uma vantagem para os clientes e passe a funcionar como uma barreira para os concorrentes?

É essa resposta que poderá determinar o impacto mais duradouro do caso sobre a internet nos próximos anos.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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