Principais destaques
- 200 mil hectares entram no projeto: Terradot pretende testar no Rio Grande do Sul uma combinação de redução de metano e remoção de CO₂.
- Rochas viram ferramenta climática: a técnica de meteorização aprimorada acelera uma reação natural capaz de retirar carbono da atmosfera.
- A aposta é escalar: o modelo pode chegar a até 1,5 milhão de hectares de arroz no Brasil e, depois, a grandes produtores como Índia e Vietnã.
O arroz brasileiro ganhou um papel inesperado em uma das apostas do Google para enfrentar as mudanças climáticas.
A iniciativa, conduzida pela Terradot, empresa na qual o Google investe, pretende atuar em duas frentes ao mesmo tempo: reduzir o metano liberado pelas plantações de arroz e retirar dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.
O projeto começa com uma área de 200 mil hectares no Rio Grande do Sul. A ambição, porém, vai muito além desse primeiro teste.
Por que justamente o arroz? 🌾
A resposta está debaixo d’água.
O arroz é frequentemente cultivado em áreas alagadas. Esse ambiente favorece a ação de microrganismos que produzem metano, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa.
Segundo uma avaliação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os arrozais respondem por cerca de 10% a 12% das emissões globais de metano.
🔎 A primeira frente do projeto: a ideia é modificar o manejo das plantações para diminuir a quantidade de metano produzida. A redução poderá depois ser transformada em créditos de carbono.
A previsão é que o projeto gere créditos equivalentes à redução de 1 milhão de toneladas métricas de metano até 2030.
Mas crédito de carbono não é simplesmente “apagar” uma emissão
O mecanismo serve para contabilizar uma redução ou remoção de gases de efeito estufa.
Em geral, um crédito corresponde a uma tonelada de CO₂ equivalente que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera. Empresas podem comprar esses créditos para compensar parte de suas próprias emissões, desde que a redução ou remoção seja medida e verificada segundo regras específicas.
É aí que entra a segunda metade da história.
E as rochas nisso tudo? 🪨
A Terradot pretende aplicar uma técnica chamada meteorização aprimorada de rochas.
Algumas rochas conseguem reagir naturalmente com o CO₂ presente na atmosfera. O problema é a velocidade: esse processo ocorre de forma lenta.
A proposta da tecnologia é acelerar essa reação para aumentar a quantidade de carbono retirada do ar.
💡 Em outras palavras: não se trata de inventar uma reação completamente nova, mas de acelerar um mecanismo que já existe na natureza.
No projeto do Rio Grande do Sul, a Terradot pretende gerar créditos correspondentes à remoção de mais 1 milhão de toneladas de carbono até 2040.
As duas operações serão contabilizadas e verificadas separadamente: uma para a redução do metano e outra para a retirada de CO₂.
🪨 A escala chama atenção: a empresa afirma que esse será o maior projeto já anunciado de meteorização aprimorada de rochas, com uma iniciativa de remoção de carbono dez vezes maior que projetos anteriores desse tipo.
A ideia é começar grande para depois ficar maior 📈
Os 200 mil hectares são apenas o ponto de partida.
Google e Terradot afirmam que o modelo poderia ser ampliado para os cerca de 1,5 milhão de hectares de áreas de cultivo de arroz existentes no Brasil.
E não necessariamente pararia por aqui.
A tecnologia também poderia ser aplicada em outros grandes produtores de arroz, como Índia e Vietnã.
🌎 O próximo passo já está no calendário: a Terradot planeja iniciar projetos-piloto em outros países em 2026 e prevê uma expansão comercial a partir de 2028.
Isso transforma o projeto brasileiro em algo maior do que uma iniciativa localizada. O país funciona como um campo de teste para verificar se a combinação entre agricultura e remoção de carbono consegue funcionar em escala.
Por que o Google quer entrar nessa conta? 💻
Há também uma questão bastante ligada ao próprio negócio da gigante de tecnologia.
O consumo de energia das grandes empresas de tecnologia vem aumentando, especialmente com a expansão dos data centers utilizados por serviços de inteligência artificial.
O Google já é investidor da Terradot. A empresa comprou participação na companhia em 2024.
A lógica climática apresentada pelas empresas combina dois problemas diferentes.
🟢 Metano age rapidamente: reduzir esse gás pode ajudar a diminuir seu impacto sobre o aquecimento no curto prazo.
🔵 CO₂ permanece por muito mais tempo: o dióxido de carbono pode permanecer na atmosfera por séculos, tornando a remoção uma frente complementar à redução de emissões.
Assim, a aposta é atuar dos dois lados: evitar que parte dos gases chegue à atmosfera e retirar carbono que já está no ar.
Só existe um detalhe nada pequeno: o preço 💰
Remover carbono da atmosfera custa dinheiro. E, para que tecnologias desse tipo sejam utilizadas em larga escala, o custo é um dos principais obstáculos.
Google e Terradot não divulgaram quanto vale o novo acordo.
Um parâmetro, porém, aparece em um contrato público anterior da Terradot. Em 2024, um acordo para remover 90 mil toneladas de carbono indicava um preço de aproximadamente US$ 300 por tonelada.
É uma cifra considerável.
Muitos desenvolvedores de tecnologias de remoção de carbono consideram que seria necessário chegar a algo próximo de US$ 100 por tonelada para estimular uma demanda muito maior.
A Terradot diz que o novo projeto terá custo inferior ao de seus acordos anteriores.
🧮 Mas ainda não chegou lá: segundo James Kanoff, CEO da empresa, o projeto representa um avanço em direção aos US$ 100 por tonelada, embora o patamar ainda não tenha sido alcançado.
E verificar tudo isso também custa caro 🔍
Existe ainda uma conta menos visível.
Não basta dizer que determinada quantidade de carbono foi retirada ou que uma plantação passou a emitir menos metano. É preciso medir e verificar os resultados para que os créditos tenham validade.
A Terradot afirma que esse processo de verificação pode acrescentar mais de US$ 100 por tonelada aos custos.
A expectativa da empresa é que esse valor diminua à medida que a tecnologia avance e seja aplicada em projetos maiores.
Isso coloca uma espécie de corrida paralela em andamento: não basta aumentar a quantidade de carbono removido. É preciso fazer isso com medições confiáveis e a um custo que permita multiplicar os projetos.
O arroz pode virar laboratório climático? 🌱
É justamente essa a grande aposta por trás dos 200 mil hectares.
O projeto junta uma atividade agrícola que já ocupa grandes áreas no país com uma tecnologia de remoção de carbono que ainda busca ganhar escala. Se a experiência avançar, o próximo desafio será descobrir até onde esse modelo consegue viajar, tanto dentro do Brasil quanto para outros grandes produtores de arroz.
Por enquanto, a conta começa no campo: menos metano saindo das áreas alagadas e mais CO₂ sendo puxado de volta por uma reação acelerada nas rochas.
O teste, agora, é transformar essa ideia em algo que funcione não apenas em hectares, mas em milhões deles.