Google mira arrozais brasileiros para combater o aquecimento global

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • 200 mil hectares entram no projeto: Terradot pretende testar no Rio Grande do Sul uma combinação de redução de metano e remoção de CO₂.
  • Rochas viram ferramenta climática: a técnica de meteorização aprimorada acelera uma reação natural capaz de retirar carbono da atmosfera.
  • A aposta é escalar: o modelo pode chegar a até 1,5 milhão de hectares de arroz no Brasil e, depois, a grandes produtores como Índia e Vietnã.

O arroz brasileiro ganhou um papel inesperado em uma das apostas do Google para enfrentar as mudanças climáticas.

A iniciativa, conduzida pela Terradot, empresa na qual o Google investe, pretende atuar em duas frentes ao mesmo tempo: reduzir o metano liberado pelas plantações de arroz e retirar dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.

O projeto começa com uma área de 200 mil hectares no Rio Grande do Sul. A ambição, porém, vai muito além desse primeiro teste.

Por que justamente o arroz? 🌾

A resposta está debaixo d’água.

O arroz é frequentemente cultivado em áreas alagadas. Esse ambiente favorece a ação de microrganismos que produzem metano, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa.

Segundo uma avaliação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os arrozais respondem por cerca de 10% a 12% das emissões globais de metano.

🔎 A primeira frente do projeto: a ideia é modificar o manejo das plantações para diminuir a quantidade de metano produzida. A redução poderá depois ser transformada em créditos de carbono.

A previsão é que o projeto gere créditos equivalentes à redução de 1 milhão de toneladas métricas de metano até 2030.

Mas crédito de carbono não é simplesmente “apagar” uma emissão

O mecanismo serve para contabilizar uma redução ou remoção de gases de efeito estufa.

Em geral, um crédito corresponde a uma tonelada de CO₂ equivalente que deixou de ser emitida ou foi retirada da atmosfera. Empresas podem comprar esses créditos para compensar parte de suas próprias emissões, desde que a redução ou remoção seja medida e verificada segundo regras específicas.

É aí que entra a segunda metade da história.

E as rochas nisso tudo? 🪨

A Terradot pretende aplicar uma técnica chamada meteorização aprimorada de rochas.

Algumas rochas conseguem reagir naturalmente com o CO₂ presente na atmosfera. O problema é a velocidade: esse processo ocorre de forma lenta.

A proposta da tecnologia é acelerar essa reação para aumentar a quantidade de carbono retirada do ar.

💡 Em outras palavras: não se trata de inventar uma reação completamente nova, mas de acelerar um mecanismo que já existe na natureza.

No projeto do Rio Grande do Sul, a Terradot pretende gerar créditos correspondentes à remoção de mais 1 milhão de toneladas de carbono até 2040.

As duas operações serão contabilizadas e verificadas separadamente: uma para a redução do metano e outra para a retirada de CO₂.

🪨 A escala chama atenção: a empresa afirma que esse será o maior projeto já anunciado de meteorização aprimorada de rochas, com uma iniciativa de remoção de carbono dez vezes maior que projetos anteriores desse tipo.

A ideia é começar grande para depois ficar maior 📈

Os 200 mil hectares são apenas o ponto de partida.

Google e Terradot afirmam que o modelo poderia ser ampliado para os cerca de 1,5 milhão de hectares de áreas de cultivo de arroz existentes no Brasil.

E não necessariamente pararia por aqui.

A tecnologia também poderia ser aplicada em outros grandes produtores de arroz, como Índia e Vietnã.

🌎 O próximo passo já está no calendário: a Terradot planeja iniciar projetos-piloto em outros países em 2026 e prevê uma expansão comercial a partir de 2028.

Isso transforma o projeto brasileiro em algo maior do que uma iniciativa localizada. O país funciona como um campo de teste para verificar se a combinação entre agricultura e remoção de carbono consegue funcionar em escala.

Por que o Google quer entrar nessa conta? 💻

Há também uma questão bastante ligada ao próprio negócio da gigante de tecnologia.

O consumo de energia das grandes empresas de tecnologia vem aumentando, especialmente com a expansão dos data centers utilizados por serviços de inteligência artificial.

O Google já é investidor da Terradot. A empresa comprou participação na companhia em 2024.

A lógica climática apresentada pelas empresas combina dois problemas diferentes.

🟢 Metano age rapidamente: reduzir esse gás pode ajudar a diminuir seu impacto sobre o aquecimento no curto prazo.

🔵 CO₂ permanece por muito mais tempo: o dióxido de carbono pode permanecer na atmosfera por séculos, tornando a remoção uma frente complementar à redução de emissões.

Assim, a aposta é atuar dos dois lados: evitar que parte dos gases chegue à atmosfera e retirar carbono que já está no ar.

Só existe um detalhe nada pequeno: o preço 💰

Remover carbono da atmosfera custa dinheiro. E, para que tecnologias desse tipo sejam utilizadas em larga escala, o custo é um dos principais obstáculos.

Google e Terradot não divulgaram quanto vale o novo acordo.

Um parâmetro, porém, aparece em um contrato público anterior da Terradot. Em 2024, um acordo para remover 90 mil toneladas de carbono indicava um preço de aproximadamente US$ 300 por tonelada.

É uma cifra considerável.

Muitos desenvolvedores de tecnologias de remoção de carbono consideram que seria necessário chegar a algo próximo de US$ 100 por tonelada para estimular uma demanda muito maior.

A Terradot diz que o novo projeto terá custo inferior ao de seus acordos anteriores.

🧮 Mas ainda não chegou lá: segundo James Kanoff, CEO da empresa, o projeto representa um avanço em direção aos US$ 100 por tonelada, embora o patamar ainda não tenha sido alcançado.

E verificar tudo isso também custa caro 🔍

Existe ainda uma conta menos visível.

Não basta dizer que determinada quantidade de carbono foi retirada ou que uma plantação passou a emitir menos metano. É preciso medir e verificar os resultados para que os créditos tenham validade.

A Terradot afirma que esse processo de verificação pode acrescentar mais de US$ 100 por tonelada aos custos.

A expectativa da empresa é que esse valor diminua à medida que a tecnologia avance e seja aplicada em projetos maiores.

Isso coloca uma espécie de corrida paralela em andamento: não basta aumentar a quantidade de carbono removido. É preciso fazer isso com medições confiáveis e a um custo que permita multiplicar os projetos.

O arroz pode virar laboratório climático? 🌱

É justamente essa a grande aposta por trás dos 200 mil hectares.

O projeto junta uma atividade agrícola que já ocupa grandes áreas no país com uma tecnologia de remoção de carbono que ainda busca ganhar escala. Se a experiência avançar, o próximo desafio será descobrir até onde esse modelo consegue viajar, tanto dentro do Brasil quanto para outros grandes produtores de arroz.

Por enquanto, a conta começa no campo: menos metano saindo das áreas alagadas e mais CO₂ sendo puxado de volta por uma reação acelerada nas rochas.

O teste, agora, é transformar essa ideia em algo que funcione não apenas em hectares, mas em milhões deles.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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