Google coloca seu primeiro satélite com chips de IA em órbita

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • TPUs no espaço: o Google colocou quatro chips usados em seus sistemas de IA no primeiro protótipo orbital do Projeto Suncatcher.
  • Teste de um ano: construído pela Planet Labs, o satélite terá apenas 1 kW de energia e funcionará em ciclos para controlar o aquecimento.
  • Data centers orbitais: o Google estuda constelações de satélites capazes de processar IA no espaço, mas custo, energia, comunicação e impactos astronômicos continuam em aberto.

Um Falcon 9 da SpaceX decolou da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia, nesta quinta-feira, 1º de outubro, levando uma ideia que parece saída de ficção científica: um satélite equipado com chips de inteligência artificial do Google para testar computação em órbita.

O lançamento fazia parte da missão compartilhada Transporter-18, que levou 130 cargas ao espaço. Entre elas estava o primeiro protótipo do Projeto Suncatcher, iniciativa de longo prazo do Google para investigar se data centers de IA poderiam, algum dia, funcionar fora da Terra.

O foguete decolou às 11h32, no horário do Pacífico.

A geladeira que virou laboratório orbital 🛰️

O satélite foi construído pela Planet Labs em parceria com o Google e tem aproximadamente o tamanho de uma geladeira.

Dentro dele estão quatro TPUs, as Unidades de Processamento de Tensor usadas pelo Google para treinar e executar modelos de inteligência artificial.

A missão é deliberadamente modesta. O próprio Google trata o equipamento como um MVP, ou produto mínimo viável, para descobrir o que funciona e, principalmente, o que dá errado.

Na noite de quinta-feira, a Planet informou que havia estabelecido o primeiro contato com o protótipo e iniciado seu processo de comissionamento.

🔬 O objetivo real: não é criar um data center espacial agora, mas descobrir se componentes fundamentais de computação de IA conseguem sobreviver e operar nas condições do espaço.

💡 O primeiro Suncatcher é menos um data center e mais um laboratório voador para descobrir se a ideia é tecnicamente possível.

Quatro TPUs, 1 quilowatt e muita paciência ⚡

Há um problema bastante terrestre esperando por qualquer computador no espaço: energia.

O protótipo dispõe de aproximadamente 1 quilowatt de potência. Isso é insuficiente para manter os quatro chips funcionando continuamente em cargas pesadas.

Por isso, as TPUs devem operar em ciclos de aproximadamente 15 minutos antes de serem desligadas.

A razão é outro velho conhecido da engenharia espacial: calor.

No espaço não existe ar circulando para levar o calor embora como acontece em um computador convencional. O satélite precisa, portanto, utilizar um sistema específico de gerenciamento térmico baseado em tubos de calor e radiadores.

🧊 A dificuldade escondida: colocar um chip no espaço é apenas uma parte do problema. Mantê-lo alimentado e impedir que ele superaqueça é outra história.

E a radiação?

Computadores espaciais também enfrentam níveis de radiação muito maiores do que os equipamentos normalmente encontram na superfície terrestre.

Antes do lançamento, o Google submeteu suas TPUs a testes em um acelerador de partículas da Universidade da Califórnia em Davis.

Segundo a empresa, os resultados indicaram que os chips suportariam uma quantidade de radiação superior àquela que encontrariam durante cinco anos em órbita.

Agora vem a parte que nenhum laboratório consegue reproduzir perfeitamente: colocar o hardware lá em cima e observar seu comportamento durante uma missão real.

Travis Beals, que lidera o Projeto Suncatcher no Google, resumiu a lógica do experimento ao afirmar que o primeiro lançamento servirá para descobrir o que funciona, identificar pontos de falha e aplicar o aprendizado em missões futuras.

O próximo passo é conectar os satélites 🔗

O protótipo atual não representa a visão completa do Google.

A empresa pretende lançar mais dois satélites em 2027 para testar links ópticos a laser entre as espaçonaves.

Isso é importante porque a proposta envolve muito mais do que colocar computadores individuais em órbita.

A ideia é criar grupos de satélites capazes de trabalhar juntos e trocar dados diretamente entre si.

O Google já apresentou um conceito envolvendo constelações de 81 satélites.

Em outras palavras, a geladeira lançada nesta quinta-feira é apenas a primeira peça de um quebra-cabeça potencialmente muito maior.

Quanto custaria um data center no espaço? 💰

É aqui que a ficção científica encontra a planilha financeira.

Uma análise publicada pelo Google na revista Joule estima que um único satélite destinado a funcionar como data center poderia precisar de 50 a 100 quilowatts de energia.

Isso representa uma diferença enorme em relação ao primeiro protótipo de 1 kW.

E ainda existe o custo para colocar toda essa infraestrutura em órbita.

Em entrevista ao TechCrunch, Beals afirmou que os preços de lançamento talvez precisem cair para aproximadamente US$ 200 por quilograma até 2035 para que a proposta faça sentido econômico.

Em outra entrevista, à NPR, ele afirmou que não espera que a computação orbital seja mais barata que a computação terrestre nos próximos cinco anos.

“De pouco adianta se for tecnicamente possível, mas sempre caro demais para ser prático.”

Essa talvez seja a pergunta mais importante do Projeto Suncatcher.

Google não está sozinho nessa corrida 🚀

A ideia de levar hardware de IA para o espaço já deixou de ser exclusividade do Google.

A startup Starcloud lançou um chip H100 da Nvidia em novembro de 2025.

A SpaceX, por sua vez, solicitou autorização à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, a FCC, para colocar em órbita até 1 milhão de satélites destinados à computação de IA.

Isso transforma a proposta em algo maior do que um experimento isolado.

Empresas diferentes estão começando a explorar a possibilidade de transformar a órbita terrestre em uma nova camada de infraestrutura computacional.

QuestãoO que o Suncatcher está testando
ProcessamentoTPUs do Google em órbita
EnergiaCerca de 1 kW no protótipo
ResfriamentoTubos de calor e radiadores
ComunicaçãoLinks a laser em futuras missões
Escala projetadaConstelações de até 81 satélites
EconomiaCusto de lançamento e operação

E os astrônomos já estão fazendo perguntas 🔭

Uma constelação gigantesca de satélites de computação não afetaria apenas empresas e engenheiros.

Astrônomos já alertam que grandes grupos de satélites podem aumentar a poluição luminosa e também elevar os riscos de colisões em órbita.

Isso adiciona outra variável ao projeto.

A infraestrutura de IA poderia ganhar acesso contínuo à energia solar e operar longe das limitações físicas de data centers terrestres. Mas, para isso, seria necessário colocar uma quantidade potencialmente enorme de equipamentos no ambiente orbital.

🌍 A conta não é apenas financeira: existe também uma conta ambiental, operacional e astronômica.

Por que colocar IA no espaço?

A lógica do Google parte de uma hipótese simples: o espaço oferece acesso abundante à luz solar, enquanto a computação de IA exige quantidades cada vez maiores de energia.

Se painéis solares alimentarem diretamente processadores instalados em órbita, parte da infraestrutura necessária para alimentar os futuros sistemas de IA poderia ser deslocada para fora da Terra.

Mas entre essa hipótese e uma infraestrutura comercial existe uma distância considerável.

Os satélites precisam sobreviver à radiação, gerar e administrar energia, dissipar calor, transmitir dados e funcionar de maneira confiável. Tudo isso enquanto o custo de colocar cada quilograma em órbita continua sendo um fator determinante.

Por enquanto, o Suncatcher não resolve nenhum desses problemas em escala.

Ele começa por uma pergunta bem mais básica: uma TPU do Google consegue fazer trabalho útil de IA no espaço e continuar funcionando?

A resposta deve começar a aparecer ao longo do próximo ano. E, se os resultados forem positivos, os próximos satélites deixarão de ser apenas uma geladeira cheia de chips e começarão a testar algo muito maior: computadores orbitais trabalhando como uma rede.

O Google acabou de colocar a primeira peça dessa ideia em órbita. Agora começa o teste para descobrir se o resto do quebra-cabeça cabe no espaço.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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