- A busca está mudando de negócio 🔎
- Quanto vale aparecer na resposta? 💰
- Mas alguns conteúdos parecem valer mais
- O paradoxo: mais IA, menos cliques
- O Google sempre disse que o Search já pagava
- Nem todo mundo quer participar
- A Europa está olhando para a mesma questão ⚖️
- Um publisher de cada vez
- O modelo de mídia está entrando numa nova fase
Principais destaques
- Programa ainda é discreto: cerca de 100 publishers participam de um piloto que remunera conteúdos usados em AI Overviews, AI Mode e Gemini.
- Os valores variam muito: alguns sites receberam menos de US$ 1.000, enquanto um participante já supera US$ 1 milhão por ano.
- O clique virou o problema: com as respostas de IA reduzindo o tráfego para sites, o Google começa a testar uma nova forma de compensar quem fornece a matéria-prima.
A busca está mudando de negócio 🔎
Durante anos, a lógica do Google Search foi relativamente simples: o buscador enviava pessoas para os sites, e o tráfego ajudava publishers a monetizar com publicidade, assinaturas e outros formatos.
Agora, parte dessa equação está sendo invertida.
Segundo reportagem do The Information, publicada em 30 de setembro, o Google vem pagando aproximadamente 100 publishers em um programa experimental que remunera a utilização de seus conteúdos em respostas produzidas por inteligência artificial.
O material pode aparecer em três frentes importantes do ecossistema da empresa: AI Overviews, AI Mode e o chatbot Gemini.
E aqui está a mudança de lógica: em vez de simplesmente mandar o usuário embora para uma página, o Google está cada vez mais tentando responder à pergunta dentro de seus próprios produtos.
Quanto vale aparecer na resposta? 💰
Os pagamentos não seguem uma tabela simples.
Publishers participantes conseguem acompanhar pelo Google Search Console quantas vezes seus conteúdos foram utilizados e quanto receberam. O valor estaria relacionado à contribuição de cada fonte para uma determinada resposta de IA.
Só que há um detalhe importante: os próprios participantes dizem não entender completamente como a conta é feita.
Os valores também oscilam de um mês para outro.
| Perfil do publisher | Valor relatado |
|---|---|
| Sites menores | Menos de US$ 1.000 em alguns meses |
| Um participante recente | US$ 50 mil a US$ 60 mil |
| Primeiro participante | Mais de US$ 1 milhão por ano |
Para vários blogs e sites pequenos e médios, entretanto, o dinheiro recebido representa menos de 0,1% da receita publicitária.
Ou seja, para muita gente, o cheque ainda está mais para complemento do que para novo modelo de negócio.
Mas alguns conteúdos parecem valer mais
🎯 O nicho faz diferença: conteúdos voltados a comunidades muito específicas, como anime e games, aparentemente conseguem gerar remunerações maiores.
Faz sentido dentro da própria lógica dos sistemas de IA.
Um conteúdo altamente especializado pode ser particularmente útil quando o modelo precisa responder a uma pergunta específica para a qual existem poucas fontes relevantes.
O problema é que o publisher não necessariamente sabe antecipadamente quanto aquela página valerá.
E isso torna o programa difícil de transformar em uma estratégia editorial previsível.
O paradoxo: mais IA, menos cliques
É aqui que a história fica mais interessante.
Dados da Advanced Web Ranking citados pelo TheDesk mostram uma diferença significativa no comportamento dos usuários.
Quando não havia AI Overview, o primeiro resultado orgânico apresentava uma taxa de cliques de 20,02%. Quando o resumo de IA aparecia, essa taxa caía para 9,69%, uma redução de aproximadamente 52%.
E o fenômeno não para aí.
Cerca de 74,3% das buscas que apresentavam AI Overview terminavam sem qualquer clique externo, contra 53,6% das buscas sem esse recurso.
💡 A equação mudou: o conteúdo do publisher pode continuar sendo usado pelo Google mesmo quando o usuário já não precisa visitar o site para obter a resposta.
Isso coloca uma pressão enorme sobre o modelo tradicional de publicação na internet.
O Google sempre disse que o Search já pagava
A posição histórica do Google é conhecida: o Search direciona tráfego suficiente para os publishers, e esse tráfego representa uma forma de compensação indireta pelo conteúdo indexado.
O piloto mostra uma possível mudança de abordagem.
Agora, a empresa está experimentando uma remuneração direta quando o conteúdo de terceiros participa da construção de uma resposta de inteligência artificial.
Ainda não significa que o Google tenha abandonado a lógica anterior.
Mas revela que a companhia reconhece um problema que ficou cada vez mais difícil de ignorar: se a IA responde antes do clique, o valor econômico do clique diminui.
Nem todo mundo quer participar
📉 E aí aparece outro conflito: alguns publishers maiores decidiram ficar de fora do programa, buscando pressionar o Google por pagamentos mais altos.
A disputa não é apenas sobre quanto cada site recebe.
Também envolve transparência.
Participantes disseram ao The Information que não sabem exatamente como o Google calcula os valores e por que os pagamentos podem variar tanto entre meses.
Para um publisher, isso dificulta responder a uma pergunta básica: vale a pena produzir determinado conteúdo se não existe clareza sobre quanto ele poderá gerar quando for utilizado pela IA?
A Europa está olhando para a mesma questão ⚖️
O problema também ganhou dimensão regulatória.
Na União Europeia, publishers independentes apresentaram uma reclamação à Comissão Europeia em julho de 2025 relacionada ao uso de conteúdo por AI Overviews.
Em dezembro daquele ano, a Comissão abriu uma investigação antitruste para examinar, entre outros pontos, se o Google estaria impondo condições injustas ao utilizar conteúdo de publishers sem remuneração adequada ou sem um mecanismo efetivo de exclusão.
Uma decisão de um tribunal alemão também entrou nessa discussão ao considerar que AI Overviews constituem conteúdo próprio do Google, e não simplesmente resumos de materiais existentes.
Se interpretações jurídicas desse tipo ganharem força, o debate sobre licenciamento de conteúdo para IA pode ficar ainda mais importante.
Um publisher de cada vez
Há ainda uma característica estratégica no programa do Google.
Os acordos são negociados individualmente.
Isso mantém os publishers separados e permite que a empresa estabeleça condições diferentes de acordo com cada participante.
Para os sites menores, isso pode significar acesso a uma fonte adicional de receita que antes simplesmente não existia.
Para os maiores, a questão é outra: quanto deveria valer o conteúdo quando ele deixa de gerar apenas um clique e passa a ajudar diretamente uma resposta produzida pelo próprio Google?
💡 O verdadeiro teste não é quanto o Google está pagando hoje. É descobrir quanto vale uma audiência que recebe a resposta sem nunca chegar ao site.
O modelo de mídia está entrando numa nova fase
A internet passou décadas construindo uma economia baseada no clique.
O usuário pesquisava, encontrava um resultado, entrava no site e via publicidade ou assinava alguma coisa.
A IA introduz uma camada intermediária.
O Google pode utilizar dezenas de fontes, sintetizar informações e entregar uma resposta pronta. O usuário ganha conveniência. O buscador ganha uma experiência mais completa. O publisher, porém, pode perder justamente aquilo que sustentava sua monetização: a visita.
Por isso, o programa de aproximadamente 100 publishers é pequeno em escala, mas relevante como experimento.
Se funcionar, pode estabelecer uma nova lógica: não apenas pagar pelo tráfego enviado, mas também pelo conhecimento consumido dentro da própria interface de IA.
E isso muda a pergunta que publishers terão de fazer daqui para frente.
Não será apenas “quantas pessoas chegaram ao meu site pelo Google?”.
Talvez seja também: quanto meu conteúdo vale quando ninguém precisa mais clicar para consumi-lo?