Pixel 10 dá um passo rumo ao Linux de verdade

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Tensor G5 ganha espaço: o chip do Pixel 10 está chegando ao kernel Linux principal com uma nova categoria própria para os SoCs do Google.
  • Pixel 10 entra no mainline: arquivos iniciais de hardware dos modelos Pixel 10, 10 Pro e 10 Pro XL foram preparados para o Linux 7.4.
  • Ainda falta quase tudo: o avanço permite inicialização básica, mas tela, conectividade e recursos de IA ainda não estão contemplados.

O Pixel 10 está começando a deixar de ser apenas um aparelho Android aos olhos do kernel Linux. Um pull request enviado em 5 de outubro prepara o suporte ao Tensor G5 e aos novos smartphones do Google para o ciclo de desenvolvimento do Linux 7.4.

Isso não significa que alguém possa instalar Linux no Pixel 10 e sair usando o celular normalmente. Longe disso. O que chegou agora é uma das primeiras fundações necessárias para que isso eventualmente aconteça.

O Tensor G5 ganhou sua própria identidade 🧩

O principal detalhe técnico da mudança é a criação do símbolo de kernel ARCH_GOOGLE, destinado à família Tensor G5, conhecida internamente como Laguna.

A decisão tem uma explicação interessante.

Os primeiros chips Tensor, como o GS101, tinham forte relação com projetos da Samsung e acabaram agrupados entre os SoCs da fabricante sul-coreana. O G5 mudou de direção.

🔎 A diferença está na origem: segundo o mantenedor de SoCs Krzysztof Kozlowski, o Tensor G5 não compartilha elementos com os chips da Samsung e, por isso, passa a ter uma categoria própria dentro do kernel.

Isso não quer dizer que o Google tenha criado uma arquitetura de processador completamente nova. O G5 continua baseado em núcleos Arm conhecidos:

ComponenteTensor G5
CPU1× Cortex-X4 + 5× Cortex-A725 + 2× Cortex-A520
GPUImagination PowerVR DXT-48-1536
MemóriaLPDDR5X
TPU4ª geração

O que muda é a maneira como o Google integrou esses componentes no SoC.

E o Pixel 10 também entrou na história 📱

O pull request adiciona os primeiros arquivos de device tree, que descrevem para o Linux como o hardware do aparelho está organizado.

Os três modelos contemplados são:

  • Pixel 10: codinome Frankel
  • Pixel 10 Pro: codinome Blazer
  • Pixel 10 Pro XL: codinome Mustang

Esses arquivos ainda são considerados uma base inicial. Eles permitem que o kernel reconheça e inicialize componentes fundamentais do aparelho, mas estão muito longe de oferecer uma experiência semelhante à do Android.

💡 Entrar no kernel mainline é uma fundação, não uma versão Linux do Pixel 10.

Já dá para dar boot. E só isso? 🚀

A situação atual é quase uma demonstração técnica.

As device trees já contemplam elementos como:

  • inicialização da CPU;
  • estados de ociosidade;
  • controlador de interrupções;
  • timers;
  • console serial UART;
  • memória reservada para registros de falhas.

Com isso, os desenvolvedores conseguiram chegar a um shell BusyBox executado a partir de um initramfs.

Para quem está acostumado a usar um smartphone, isso parece pouco. E, na prática, é mesmo.

Mas para desenvolvimento de suporte de hardware, conseguir chegar ao prompt de comando já representa uma etapa importante.

A tela ainda não está nessa festa 🖥️

O problema é que um smartphone moderno é muito mais do que CPU, memória e boot.

Os trabalhos atuais ainda não incluem suporte completo para componentes fundamentais como a tela, conectividade e processamento de IA.

Isso significa que o Pixel 10 pode chegar a um terminal, mas ainda não está perto de funcionar como um celular Linux convencional.

🧱 O caminho que falta é grande: cada componente precisa de definições de hardware, drivers e integração adequada com o kernel.

E o Tensor G5 ainda tem algumas particularidades próprias.

Até o USB mudou de lugar 🔌

Um exemplo está no controlador USB.

Em uma proposta anterior, Roy Luo, do Google, explicou que o bloco USB da Synopsys usado no Tensor G5 está conectado ao SoC de maneira diferente das gerações anteriores.

Resultado: não basta reaproveitar os drivers existentes.

Será necessário adicionar novos drivers e novas definições de hardware para acomodar a implementação do G5.

É um detalhe que ajuda a explicar por que levar um smartphone para o Linux mainline é um trabalho tão demorado.

O bootloader também coloca obstáculos

Há outra peça nessa equação: o bootloader.

Uma publicação de Peter Griffin, da Linaro, em 18 de setembro apontava que o bootloader disponível naquele momento tratava a ausência de um alias para o armazenamento UFS como um erro fatal.

Enquanto uma versão mais nova não chega, as entradas ausentes estão sendo adicionadas durante a compilação usando a ferramenta pixelscripts, da Linaro.

Ou seja, até a sequência de inicialização ainda está sendo ajustada.

Essa história começou em 2025 ⏳

O suporte não apareceu do nada.

A primeira versão da série foi proposta em novembro de 2025. Naquele momento, a ideia era usar overlays de device tree para aplicar as diferenças entre os aparelhos sobre uma base compartilhada.

A abordagem acabou gerando discussões.

Em julho de 2026, Griffin mudou para o modelo mais tradicional, com um arquivo de device tree separado para cada aparelho. Depois, Kozlowski aplicou quatro patches em 29 de setembro.

Poucos dias depois, veio o pull request.

📌 Mas atenção ao detalhe: entrar na árvore de um mantenedor não significa automaticamente entrar no Linux oficial.

A próxima etapa será a janela de merge. Só depois desse processo será possível saber se o trabalho realmente fará parte do Linux 7.4.

E o Android? Continua exatamente onde está

É importante separar duas coisas.

O suporte ao Pixel 10 no kernel Linux não significa que o Android instalado nesses aparelhos será atualizado para o Linux 7.4.

Também não representa uma mudança no período oficial de suporte oferecido pelo Google.

O objetivo é outro: construir suporte de hardware diretamente no kernel principal, reduzindo a dependência de versões específicas e mantidas separadamente.

Isso pode parecer uma diferença de bastidores, mas é justamente o tipo de trabalho que, ao longo do tempo, pode tornar determinados aparelhos mais interessantes para sistemas operacionais alternativos.

Ainda é cedo para chamar de “celular Linux” 📲

Por enquanto, o Pixel 10 está mais para uma máquina de desenvolvimento do que para um smartphone Linux.

A situação pode ser resumida assim:

Agora: o kernel consegue reconhecer e inicializar uma parte fundamental do hardware.

Próximos passos: drivers, conectividade, tela, armazenamento, periféricos e outros componentes precisam avançar.

Objetivo de longo prazo: aumentar progressivamente o suporte no kernel principal e tornar o hardware utilizável fora do ambiente Android.

O curioso é que o caminho começou justamente pelo lugar menos visível para quem compra um celular: o kernel.

E, se o Pixel 10 está começando a ganhar uma identidade própria dentro do Linux, a pergunta agora não é se ele já roda Linux como um smartphone convencional. É quanto tempo ainda será necessário para transformar esse primeiro prompt do BusyBox em uma experiência completa de celular.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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