Google pode não precisar que Gemini seja o melhor modelo de IA

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Google investe na Anthropic: a Alphabet possui uma participação relevante na empresa, mas não controla a companhia nem tem assento em seu conselho.
  • Claude depende do Google: a Anthropic usa TPUs do Google para treinar e operar seus modelos e assumiu compromissos bilionários de infraestrutura.
  • Gemini e Claude vivem uma relação curiosa: são concorrentes no mercado, mas o Google também distribui Claude pelo Vertex AI e permite que seus próprios engenheiros usem o modelo.

A primeira reação pode ser de estranhamento.

Por que o Google colocaria bilhões de dólares em uma empresa que desenvolve um dos principais concorrentes do Gemini?

A resposta passa por uma mudança importante na estratégia das grandes empresas de tecnologia.

O Google não precisa necessariamente vencer todas as batalhas de IA para ganhar dinheiro com a inteligência artificial.

E é aí que a Anthropic entra nessa história.

O Google não comprou a Anthropic 🤝

Vamos começar pelo ponto que costuma gerar confusão.

O Google investiu bilhões de dólares na Anthropic e chegou a uma participação de aproximadamente 14%, limitada a 15%.

Isso não significa que a Alphabet controle a empresa.

A estrutura não dá ao Google direito de voto, assento no conselho ou controle sobre as decisões da Anthropic.

Na prática:

Google → investidor da Anthropic

Anthropic → empresa independente responsável pelo Claude

É uma relação bastante diferente de uma aquisição.

E talvez seja justamente essa distância que torne o acordo tão interessante.

💰 O Google também vende a infraestrutura que Claude precisa

Existe uma segunda camada nessa relação que pode ser ainda mais importante.

A Anthropic não depende exclusivamente de GPUs da NVIDIA para desenvolver seus modelos.

A empresa também utiliza TPUs do Google para treinamento e execução do Claude.

Em outubro de 2025, Google e Anthropic anunciaram uma expansão que previa até 1 milhão de TPUs, envolvendo dezenas de bilhões de dólares em capacidade computacional.

Em abril de 2026, veio outra expansão, desta vez com Google e Broadcom, envolvendo múltiplos gigawatts de capacidade de TPUs a partir de 2027.

E os números ficaram ainda mais impressionantes.

Segundo o prospecto do IPO da Anthropic divulgado em setembro de 2026, a empresa assumiu compromissos de infraestrutura de pelo menos US$ 111,1 bilhões com o Google ao longo de vários anos.

É difícil encontrar uma ilustração melhor da peculiaridade dessa relação:

O Google está ajudando a fornecer a infraestrutura necessária para um dos maiores concorrentes do Gemini.

Não parece contraditório?

É. Mas também faz bastante sentido.

🧠 O Google pode ganhar mesmo se Claude vencer

Imagine dois cenários.

Cenário 1: Gemini domina

O Google ganha com Gemini, Search, Android, Workspace, Cloud, publicidade e sua infraestrutura de IA.

Cenário 2: Claude conquista uma enorme fatia do mercado

O Google ainda pode ganhar dinheiro fornecendo TPUs, serviços de nuvem, Vertex AI e infraestrutura para a própria Anthropic.

É uma espécie de seguro estratégico.

💡 A grande sacada: o Google não precisa necessariamente apostar todo o futuro da IA em um único cavalo.

Se Gemini vencer, ótimo.

Se Claude crescer muito, o Google ainda pode capturar parte do valor dessa expansão.

☁️ E o Google Cloud coloca Claude na prateleira

A estratégia fica ainda mais clara quando olhamos para o Google Cloud.

O Google disponibiliza modelos da Anthropic, incluindo versões do Claude, por meio do Vertex AI.

Isso significa que uma empresa que utiliza a infraestrutura de IA do Google pode escolher um modelo que não foi desenvolvido pelo próprio Google.

Parece estranho para quem enxerga a competição apenas como uma corrida entre chatbots.

Para uma empresa de nuvem, porém, a lógica é diferente.

A pergunta deixa de ser:

“Gemini ou Claude?”

E passa a ser:

“Como faço para ganhar dinheiro independentemente do modelo que o cliente escolher?”

Esse é um negócio muito maior.

😮 E agora os próprios engenheiros do Google usam Claude

A relação ficou ainda mais curiosa em setembro de 2026.

O Google ampliou o acesso interno ao Claude para seus engenheiros.

Anteriormente, o uso de ferramentas externas como Claude era mais restrito, enquanto a empresa promovia fortemente o Gemini internamente.

Agora, engenheiros passaram a ter acesso muito mais amplo ao modelo da Anthropic, inclusive por meio do Antigravity.

Isso não significa que o Google esteja abandonando Gemini.

Mas revela algo importante.

O Google aceita que um modelo concorrente pode ser melhor para determinadas tarefas.

Especialmente em programação e alguns fluxos envolvendo agentes.

E uma empresa como o Google não costuma distribuir uma ferramenta para milhares de engenheiros simplesmente por gentileza.

Então o Google pode trocar Gemini por Claude? 🔥

Tecnicamente, poderia.

Estratégicamente, hoje parece muito improvável.

O Gemini não é apenas um chatbot.

Ele está sendo integrado a praticamente todos os grandes produtos do Google:

• Search
• Android
• Chrome
• Workspace
• YouTube
• Google Cloud
• Pixel
• publicidade
• agentes
• infraestrutura de IA
• pesquisa do DeepMind

Substituir Gemini por Claude significaria entregar uma parte importante do controle tecnológico a uma empresa externa.

E existe uma ironia adicional.

O Google está investindo bilhões justamente para desenvolver seus próprios modelos e sua própria infraestrutura.

Seria bastante estranho gastar tudo isso para, no fim, simplesmente colocar Claude no lugar.

Mas existe um cenário muito mais provável 👀

A grande mudança talvez não seja:

Gemini → Claude

Mas:

Gemini + Claude + outros modelos

O Google pode caminhar para uma arquitetura em que o usuário nem precise saber qual modelo está executando determinada tarefa.

UsoPossível estratégia
SearchGemini
AndroidGemini
WorkspaceGemini + modelos externos
Google CloudGemini + Claude + outros
ProgramaçãoGemini + Claude
Tarefas específicasMelhor modelo disponível
AgentesRoteamento entre modelos

Isso muda completamente a natureza da competição.

O vencedor deixa de ser necessariamente quem possui o único melhor modelo.

Pode ser quem possui a melhor plataforma para escolher modelos.

O verdadeiro risco para Gemini

Esse talvez seja o ponto mais interessante de toda a história.

A maior ameaça ao Gemini não é necessariamente o Google decidir:

“Vamos abandonar nosso modelo e usar Claude.”

É o Google concluir:

“Não precisamos que Gemini seja sempre o melhor.”

Imagine um sistema capaz de analisar uma solicitação e decidir automaticamente:

Para esta tarefa, Gemini é melhor.

Para programação, Claude é melhor.

Para determinada tarefa multimodal, outro modelo é melhor.

O usuário simplesmente recebe o resultado.

Ele não precisa saber qual modelo trabalhou nos bastidores.

Para o Google Cloud, isso poderia ser extremamente poderoso.

E existe uma consequência estratégica importante: o Google poderia continuar ganhando dinheiro mesmo quando Claude fosse escolhido.

E há uma ironia enorme nessa história

Hoje, o Google está simultaneamente:

• competindo com a Anthropic;

• investindo na Anthropic;

• fornecendo computação para a Anthropic;

• vendendo Claude para clientes corporativos;

• permitindo que seus próprios engenheiros usem Claude;

• desenvolvendo Gemini para competir com Claude.

Parece uma contradição.

Mas, do ponto de vista empresarial, é quase uma relação simbiótica.

💸 O dinheiro pode circular dos dois lados: a Anthropic precisa da capacidade computacional do Google, enquanto o Google pode monetizar a infraestrutura, a nuvem e sua participação na empresa.

Enquanto isso, cada uma continua tentando desenvolver o modelo mais competitivo.

E o Gemini? Não parece estar saindo de cena

O movimento mais recente apontado no material é justamente o contrário.

O Google apresentou o Gemini 4/Argon como sua tentativa de recuperar terreno diante da Anthropic e da OpenAI, posicionando o modelo como concorrente direto dos sistemas de fronteira dessas empresas.

Ou seja, não há sinal de abandono.

Há investimento.

Há competição.

E, ao mesmo tempo, há cooperação.

Essa combinação pode parecer estranha, mas talvez seja exatamente o modelo de negócios que o Google pretende construir para a próxima fase da IA.

O futuro pode não ser Google contra Anthropic. Pode ser Google ganhando dinheiro com Gemini, Claude e com a infraestrutura que permite aos dois existirem.

A pergunta pode mudar completamente 🚀

Durante muito tempo, a corrida da IA foi apresentada como uma disputa simples:

Quem tem o melhor modelo?

Google, OpenAI, Anthropic e outras empresas tentam responder a essa pergunta todos os dias.

Mas existe uma questão maior.

Quem controla a plataforma onde esses modelos são escolhidos, executados e distribuídos?

Se o Google conseguir chegar a esse ponto, Gemini não precisará vencer todas as batalhas.

Ele precisará apenas ser bom o suficiente para continuar sendo uma das opções.

E o Google poderá deixar que o mercado escolha Claude quando ele for melhor.

Porque, nesse cenário, até quando o concorrente vence, o Google pode continuar ganhando.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da relação entre Google e Anthropic: não uma preparação para substituir Gemini, mas uma aposta em um futuro no qual não exista mais um único modelo obrigatório para tudo.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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