Principais destaques
- Linux virou quase só terminal: os Googlebooks permitem usar um ambiente Debian, mas aplicativos gráficos ainda têm uma experiência bastante limitada.
- GIMP expõe o problema: apps Linux podem rodar, porém dentro de uma única janela do Terminal, sem integração normal com a interface do sistema.
- A proposta ainda é mais para desenvolvedores: Googlebooks apostam em ferramentas de linha de comando, agentes de IA e programação, enquanto apps desktop ficam em segundo plano.
Os novos Googlebooks começaram a chegar às lojas em 4 de outubro com uma proposta ambiciosa: representar a próxima geração de laptops do Google depois dos Chromebooks.
O problema é que, justamente em uma área na qual os Chromebooks já tinham construído uma solução bastante madura, os novos computadores parecem ter dado um passo para trás.
Os aparelhos, que começam em US$ 899, rodam um sistema operacional baseado em Android. E, embora tenham suporte a Linux, instalar e utilizar programas tradicionais de desktop está longe de ser tão simples quanto no ChromeOS.
O Linux está lá. Só não espere uma gaveta de aplicativos 🐧
Nos Chromebooks, o usuário pode ativar o chamado ambiente de desenvolvimento Linux nas configurações. O sistema cria um contêiner no qual é possível instalar pacotes Debian e, depois, acessar os aplicativos pela própria interface do ChromeOS.
No Googlebook, a história é diferente.
O Linux aparece principalmente como um ambiente de linha de comando dentro do aplicativo Terminal do Android. Isso significa que instalar um programa não necessariamente resulta em um novo ícone na gaveta de aplicativos.
Para abrir o software, em muitos casos, o caminho continua sendo o velho conhecido:
abrir o Terminal → digitar o comando → executar o aplicativo.
🔎 É uma diferença pequena no papel, mas enorme no uso: quem espera um laptop tradicional encontra uma experiência muito mais próxima de um ambiente de desenvolvimento.
A própria página de suporte do Google descreve o Terminal como uma maneira de acessar um ambiente de linha de comando Debian Linux no Googlebook, especialmente voltado para desenvolvimento e programação.
Mas o Google diz que apps gráficos funcionam
Aqui está a parte curiosa.
O Google afirma que é possível executar aplicativos Linux com interface gráfica nesse ambiente. A empresa, porém, deixa claro que esse não é o foco principal da primeira versão.
Em comunicado citado pelo 9to5Google, a companhia afirmou que os aplicativos gráficos podem ser executados, mas que a prioridade inicial do Googlebook está em outras experiências. O Google também indicou que haverá novidades futuras para o aplicativo Terminal.
Na prática, isso já parece acontecer de uma maneira pouco convencional.
Um usuário experiente de Linux descobriu que aplicativos gráficos podem ser abertos dentro de uma única janela do Terminal. Eles não recebem necessariamente janelas independentes ou integração completa com a barra de tarefas.
💡 O Linux funciona, mas a experiência ainda não parece a de um laptop com aplicativos Linux.
É justamente essa diferença que torna a situação estranha para quem já utilizava ChromeOS.
GIMP virou um bom teste de realidade 🖼️
O problema deixa de ser apenas conceitual quando entram em cena aplicativos de desktop mais pesados.
O Android Authority citou o relato de um usuário do Reddit que tentou utilizar o GIMP, tradicional editor de imagens Linux, em um Googlebook equipado com Intel.
O aplicativo, segundo o relato, apresentava situações em que deixava de responder corretamente ao mouse.
Isso não significa que todos os aplicativos Linux tenham o mesmo problema. Mas é um sinal de que a camada ainda está longe de oferecer a experiência integrada que usuários de desktop poderiam esperar.
E existe uma diferença importante entre “consegue executar” e “é confortável usar”.
O ChromeOS fazia isso melhor
Essa comparação é inevitável porque o Googlebook não está surgindo no vácuo.
O ChromeOS já permite que usuários ativem um ambiente Linux e instalem softwares Debian. O sistema também consegue apresentar esses aplicativos de maneira muito mais próxima de programas nativos.
No Googlebook, o ambiente ainda parece estar sendo construído com outra prioridade.
| Recurso | Chromebook | Googlebook |
|---|---|---|
| Ambiente Linux | Sim | Sim |
| Pacotes Debian | Sim | Sim |
| Apps Linux gráficos | Mais integrados | Suportados, mas limitados |
| Ícones na gaveta de apps | Sim | Não como experiência padrão |
| Execução pelo Terminal | Sim | Principal caminho |
| Foco inicial | Desktop + desenvolvimento | Linha de comando e desenvolvimento |
🧩 A ironia: o Google está apresentando o Googlebook como uma evolução, mas uma das experiências que já funcionavam relativamente bem no ChromeOS ainda não acompanha essa transição.
E os aplicativos web? Também há uma pegadinha 🌐
As limitações não terminam no Linux.
No ChromeOS, praticamente qualquer site pode ser instalado como um aplicativo, criando uma experiência semelhante à de um programa tradicional.
Nos Googlebooks, a instalação de aplicativos web depende de o site cumprir os requisitos de compatibilidade definidos pelo Google.
O caso do Slack é particularmente ilustrativo.
Segundo a explicação fornecida pelo Google ao 9to5Google, a instalação de PWAs é compatível com Googlebooks, mas o aplicativo web do Slack não seria uma PWA compatível.
Isso cria outra camada de fricção para quem esperava simplesmente transformar seus sites favoritos em aplicativos.
E existe mais uma complicação
Alguns PWAs também podem deixar de ser instaláveis quando existe uma versão Android do mesmo serviço instalada no aparelho.
Ou seja, mesmo quando o usuário prefere a versão web por oferecer mais recursos, o sistema pode colocar essa escolha em conflito com o aplicativo Android existente.
O Googlebook foi pensado para outra pessoa? 👨💻
O posicionamento inicial do Google ajuda a explicar essas escolhas.
A empresa está apostando bastante nos desenvolvedores. O Googlebook oferece um ambiente Linux isolado por hipervisor, projetado para permitir a execução segura de ferramentas de desenvolvimento Linux.
Isso abre espaço para ferramentas que não dependem de uma interface gráfica tradicional.
Entre elas estão ferramentas de programação e agentes autônomos. O Google também lançou uma versão Android do Antigravity, seu aplicativo de programação, que trabalha em conjunto com o ambiente Linux.
E ferramentas como Claude Code e Codex, da OpenAI, podem ser instaladas pelo Terminal.
⚙️ Para quem vive no terminal, a história muda bastante: comandos, agentes de IA, compiladores e ferramentas de desenvolvimento são justamente o tipo de experiência que o Google parece querer priorizar.
Para esse público, a ausência de ícones bonitinhos na gaveta de aplicativos talvez seja irrelevante.
Para quem pretende usar o Googlebook como um PC convencional, não é.
US$ 899 também muda a conversa 💰
O preço inicial de US$ 899 coloca outra perspectiva sobre essas limitações.
Um laptop nessa faixa não precisa necessariamente oferecer a mesma experiência de um computador Windows ou Mac, mas o comprador pode razoavelmente esperar que funções já maduras em uma geração anterior do produto não desapareçam no caminho.
E é justamente isso que torna a situação dos aplicativos Linux particularmente curiosa.
O Google não está dizendo que o Linux desapareceu.
Está dizendo, na prática, que o Linux existe, mas a experiência gráfica ainda não é prioridade.
Então o Googlebook está incompleto?
Talvez a resposta mais justa seja: ele parece estar no começo de uma transição.
O próprio Google sinaliza que pretende adicionar novidades ao Terminal. Portanto, a experiência atual pode não representar aquilo que a empresa pretende entregar daqui a alguns meses.
O problema é que os Googlebooks já estão sendo vendidos.
Enquanto isso, quem comprar um aparelho agora precisa conviver com uma realidade curiosa: há Linux, Debian, aplicativos gráficos e ferramentas avançadas de desenvolvimento, mas muitas vezes o caminho para chegar até elas começa com uma janela preta e um comando digitado à mão.
No Chromebook, o Linux conseguiu se aproximar do desktop tradicional. No Googlebook, o Google parece estar tentando aproximá-lo primeiro do terminal e dos agentes de IA.
A pergunta agora é se essa será apenas uma etapa de lançamento ou se o Google realmente pretende redefinir o que significa ter um aplicativo Linux em um laptop Android.