Orkut quer reconstruir a internet com pessoas reais e comunidades

Renê Fraga
19 min de leitura

Principais destaques

  • Carta revela os planos: Orkut Büyükkökten afirma que decidiu voltar a falar porque considera urgente discutir o rumo que as redes sociais tomaram nas últimas duas décadas.
  • Comunidades no centro: criador do Orkut diz que sente falta das comunidades, que reuniam pessoas em torno de interesses e experiências comuns, e as apresenta como referência para o futuro da internet.
  • Convite para 8 de outubro: Büyükkökten pede que usuários entrem no Orkut.com, deixem seus nomes e convidem outras pessoas para participar do movimento que pretende reconstruir a internet a partir de conexão, confiança e pertencimento.

Orkut Büyükkökten voltou a falar. E, desta vez, explicou o que está por trás do misterioso anúncio publicado no Orkut.com, que chamou a atenção dos antigos usuários da rede social e levantou especulações sobre um possível retorno.

Em uma carta enviada ao TechTudo, o criador do Orkut afirma que ficou em silêncio por algum tempo, mas decidiu se manifestar porque considera urgente discutir o futuro da internet.

A mensagem funciona como uma espécie de manifesto. Büyükkökten critica o modelo adotado pelas grandes redes sociais, questiona a transformação da atenção em principal métrica de sucesso e aponta a inteligência artificial como um novo elemento capaz de mudar ainda mais a relação entre pessoas e plataformas.

Ao mesmo tempo, ele recupera uma característica que considera fundamental na experiência do antigo Orkut: as comunidades.

🗣 A mensagem central é direta: para Büyükkökten, as redes sociais perderam parte daquilo que originalmente as tornava especiais ao priorizar engajamento, retenção e tempo de tela em vez de relações humanas.

O que aconteceu com a internet? 🌐

Büyükkökten começa a carta lembrando de quando criou algumas das primeiras redes sociais, há mais de duas décadas. Naquele período, a internet ainda era vista como um espaço de descoberta, no qual uma mensagem recebida de alguém distante podia representar uma experiência completamente nova.

O criador do Orkut afirma que havia algo diferente nessas interações: a percepção de que existia uma pessoa real do outro lado.

Essa característica, segundo ele, foi sendo perdida conforme as plataformas cresceram.

O problema não estaria apenas na tecnologia utilizada pelas redes sociais, mas na maneira como essas empresas passaram a definir o que significa uma plataforma bem-sucedida.

Durante anos, aumentar o número de usuários, o engajamento e o tempo de permanência se tornou prioridade para boa parte da indústria.

📱 O diagnóstico de Büyükkökten: a internet ficou cada vez mais eficiente em capturar atenção, mas isso não significa necessariamente que tenha se tornado melhor em aproximar pessoas.

Feeds personalizados, recomendações algorítmicas e sistemas de distribuição de conteúdo passaram a determinar boa parte do que cada usuário vê. Quanto mais tempo alguém permanece na plataforma, maior tende a ser a quantidade de oportunidades para interação e monetização.

Na avaliação apresentada na carta, essa lógica produziu uma consequência importante: as plataformas passaram a otimizar aquilo que pode ser medido facilmente, enquanto características como amizade, confiança e pertencimento ficaram em segundo plano.

“As coisas estão quebradas” 💥

É nesse contexto que Büyükkökten recupera uma das frases mais conhecidas da cultura do Vale do Silício: “Aja rápido e quebre coisas”.

A expressão ficou associada a uma geração de empresas de tecnologia que defendia velocidade, experimentação e disposição para assumir riscos durante o processo de inovação.

Büyükkökten, porém, apresenta uma leitura diferente do lema.

“Pois bem: as coisas estão quebradas.”

A frase resume a crítica feita ao longo da carta. Para o criador do Orkut, a indústria conseguiu construir plataformas extremamente sofisticadas para distribuir conteúdo e prender a atenção, mas acabou se afastando da ideia original de conectar pessoas.

Ele também relaciona esse modelo aos efeitos provocados pelas redes sociais sobre crianças e adolescentes, citando vício, divisão, exploração comercial, solidão e ansiedade.

A crítica, portanto, não é apenas uma lembrança nostálgica do Orkut. Büyükkökten está questionando o próprio modelo que se consolidou nas redes sociais durante os últimos 20 anos.

E existe outro elemento que, segundo ele, torna essa discussão ainda mais urgente.

Agora a inteligência artificial entrou na equação 🤖

A carta também trata da inteligência artificial.

Büyükkökten reconhece que a tecnologia é extraordinária, mas afirma que ela coloca em risco uma das premissas que tornaram as redes sociais interessantes desde o começo: a ideia de que havia uma pessoa real do outro lado da tela.

A preocupação está relacionada à expansão de bots, conteúdo gerado por IA, deepfakes e agentes autônomos.

Com ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e interações em grande escala, a internet pode ganhar uma quantidade inédita de conteúdo produzido por máquinas.

O problema, para Büyükkökten, é saber o que isso representa para uma rede construída em torno de relações humanas.

🤖 A pergunta levantada na carta é simples, mas difícil: se o usuário não consegue mais saber se está interagindo com uma pessoa ou com uma máquina, o que acontece com a própria ideia de rede social?

Essa questão ganha relevância justamente quando empresas de tecnologia estão incorporando inteligência artificial praticamente a todos os seus produtos e serviços.

Para Büyükkökten, a resposta não passa por rejeitar a tecnologia, mas por estabelecer novamente uma prioridade: manter pessoas reais no centro das interações.

Por que ele voltou a falar das comunidades? 👥

Entre todas as lembranças relacionadas ao antigo Orkut, existe uma que aparece com destaque na carta: as comunidades.

Büyükkökten afirma que, quando pergunta às pessoas do que elas mais sentem falta no Orkut.com, a resposta costuma ser a mesma.

As comunidades.

Ele cita grupos formados por pessoas que consertavam a mesma moto, utilizavam a mesma linha de ônibus ou simplesmente compartilhavam alguma característica aparentemente banal, como não gostar de segunda-feira.

A ideia por trás dos exemplos é importante.

As comunidades não dependiam necessariamente de celebridades ou grandes acontecimentos. Elas surgiam de interesses, experiências e hábitos compartilhados por pessoas comuns.

💡 A diferença, segundo Büyükkökten, está entre ser audiência e ser membro: em um feed, o usuário assiste; em uma comunidade, participa.

Essa distinção ajuda a explicar o que ele pretende recuperar.

Não se trata necessariamente de reproduzir a interface do Orkut dos anos 2000 ou simplesmente ressuscitar recursos antigos. O conceito defendido na carta é mais amplo: criar ambientes digitais nos quais as pessoas tenham uma sensação real de pertencimento.

O que a IA não consegue criar? ❤️

Depois de criticar a transformação das redes sociais e discutir os efeitos da inteligência artificial, Büyükkökten muda o foco para aquilo que considera essencialmente humano.

Ele pergunta o que a inteligência artificial não consegue criar.

A resposta inclui alegria, esperança, gratidão, encanto, diversão, inspiração e amor.

É também uma das partes mais pessoais da carta. Büyükkökten fala sobre a própria trajetória e afirma que chegou ao mundo sozinho e sem nada, mas acabou construindo muito ao longo da vida.

Para ele, cada parte dessa trajetória está relacionada ao amor.

A passagem ajuda a explicar por que o retorno anunciado para o Orkut não é apresentado apenas como uma iniciativa tecnológica.

A proposta está sendo construída também como uma discussão sobre o papel das relações humanas na internet.

Não é exatamente uma volta ao passado 🔄

Apesar de toda a referência ao antigo Orkut, a carta não apresenta a proposta como uma simples tentativa de recriar a rede social que existiu nos anos 2000.

Büyükkökten fala em reconstruir “a internet pela qual nos apaixonamos”, mas descreve um ambiente voltado para pessoas autênticas, conexão real e pertencimento.

Ele também defende comunidades que valorizem comportamentos como:

• gentileza;

• curiosidade;

• amizade;

• confiança;

• conexão.

A proposta é particularmente difícil porque esses valores não são tão fáceis de medir quanto cliques, visualizações, curtidas ou tempo de tela.

É justamente essa mudança de prioridade que parece estar no centro do projeto.

🌱 O desafio é trocar uma métrica conhecida por algo muito mais difícil de medir: em vez de otimizar a plataforma para manter o usuário conectado, Büyükkökten quer criar um ambiente que incentive as pessoas a se conectarem umas às outras.

O usuário também terá um papel nessa história 📨

A carta não termina apenas com uma crítica às redes sociais.

Büyükkökten faz um convite concreto.

Ele pede que os usuários entrem em orkut.com, adicionem seus nomes e pensem em uma pessoa que gostariam de ter ao lado nessa nova fase.

Depois, a orientação é enviar um cartão de apoiador para essa pessoa e explicar por que ela foi escolhida.

A mecânica é simples, mas está alinhada à mensagem apresentada no restante da carta.

Em vez de pedir apenas que alguém compartilhe uma publicação para aumentar o alcance de um projeto, Büyükkökten propõe que o usuário escolha uma pessoa específica e estabeleça uma conexão a partir desse convite.

Nesse caso, a ferramenta digital funciona como meio para uma relação pessoal, e não como objetivo final.

“Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena” ❤️

Próximo do fim da carta, Büyükkökten resume sua visão em uma frase que concentra boa parte do argumento apresentado.

“Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue.”

A diferença entre as duas coisas está justamente no que as plataformas tradicionais conseguem medir.

Um algoritmo pode calcular quais conteúdos provavelmente receberão mais cliques. Pode recomendar vídeos, organizar publicações e prever quais assuntos têm maior chance de prender a atenção.

Mas essas métricas não dizem necessariamente se alguém encontrou um amigo, entrou em uma comunidade importante ou sentiu que finalmente pertence a algum lugar.

Para Büyükkökten, essa diferença deveria voltar a orientar a construção das redes sociais.

O que será apresentado em 8 de outubro? 🚀

A carta muda a leitura do anúncio publicado anteriormente no Orkut.com.

Até então, a principal dúvida era o que Büyükkökten apresentaria em 8 de outubro, às 10h.

Agora, pelo menos parte da resposta já apareceu.

O criador do Orkut pretende apresentar uma nova etapa baseada na ideia de reconstruir a internet a partir de relações humanas, comunidades e autenticidade, em oposição a uma experiência dominada exclusivamente por algoritmos e mecanismos de retenção.

Ainda não estão claros todos os detalhes do produto, nem como essa proposta será implementada.

Também resta descobrir como uma plataforma baseada em conexão humana pretende disputar espaço em um mercado dominado por gigantes como Meta, Google e TikTok, além de enfrentar um cenário em que a inteligência artificial já começa a produzir uma parcela cada vez maior do conteúdo publicado online.

Esse será provavelmente o maior teste da ideia apresentada por Büyükkökten.

A nostalgia pode trazer usuários de volta uma vez. O desafio será criar uma experiência capaz de fazê-los permanecer por razões diferentes das utilizadas pelas redes sociais atuais.

🔎 A partir de agora, a pergunta deixou de ser apenas “o Orkut vai voltar?”

A questão passou a ser outra: o criador do Orkut conseguirá transformar a crítica ao modelo atual das redes sociais em uma plataforma capaz de funcionar de maneira diferente?

A resposta começa a aparecer às 10h de 8 de outubro.

Depois de duas décadas, Orkut Büyükkökten não está apenas anunciando um novo capítulo para sua antiga rede social. Está propondo uma discussão sobre o que a internet deveria priorizar quando a tecnologia já consegue produzir praticamente tudo, menos aquilo que ele considera mais importante: uma relação humana verdadeira.

A carta de Orkut Büyükkökten 💌

Oi de novo.

Sou eu, o Orkut.

Fiquei em silêncio por um tempo, mas preciso falar com você. O trabalho de toda minha vida tornou-se algo urgente como nunca imaginei. Há mais de duas décadas, criei algumas das primeiras redes sociais. E vi, junto com você, as redes sociais tomarem o rumo errado.

Você lembra de quando a internet era humana? De quando receber uma mensagem de alguém em outro continente parecia mágica? Outra pessoa tinha atravessado o mundo para compartilhar um pedacinho de si. Talvez a conexão durasse só um instante, mas era emocionante porque era real.

O que aconteceu? Vinte anos otimizando tudo para capturar a sua atenção. Feeds construídos em torno do engajamento, não da conexão. Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e as venderam para anunciantes. Não é de surpreender que tenham crescido solitárias e ansiosas.

Eu ainda amo esta indústria, mas é desesperador ver o que ela se tornou. “Aja rápido e quebre coisas”, dizia o lema. Pois bem: as coisas estão quebradas. E agora as máquinas chegaram. A inteligência artificial é uma tecnologia extraordinária, mas está dissolvendo a única premissa que tornou as redes sociais especiais e dignas de serem construídas: a de que havia uma pessoa do outro lado.

Quando as pessoas me contam do que mais sentem falta no orkut.com, elas sempre falam das comunidades. Pessoas que consertavam a mesma moto. Pessoas que pegavam a mesma linha de ônibus. Pessoas que odiavam segunda-feira. Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro. Esse era o ponto.

Você já viu o que a IA está fazendo com as redes sociais: bots, lixo de IA, deepfakes, agentes autônomos descontrolados, conteúdo sintético. Sabe o que a IA não consegue criar?

Alegria. Esperança. Gratidão. Encanto. Diversão. Inspiração. Amor. É isso que faz uma vida valer a pena. Cheguei a este mundo sozinho e sem nada, e de alguma forma acabei com tanto. Cada pedacinho disso veio do amor. Então, encontre. Dê de presente. Segure firme. Faça crescer. A vida passa rápido, e as máquinas não vão dar mais dela a você.

Vejo um futuro diferente para a internet, construído em torno de pessoas reais, com um ser humano do outro lado de cada mensagem. Um futuro que não gira em torno de algoritmos, olhos capturados e otimização de tempo na tela. A próxima geração merece um mundo melhor, onde suas comunidades recompensem a gentileza, a curiosidade, a amizade, a confiança e a conexão.

Eu quero viver nesse mundo. Sei que você também quer.

Eu sei como chegar lá: vamos reconstruir a internet pela qual nos apaixonamos. Aquela com pessoas autênticas, conexão real e pertencimento genuíno. Mas não consigo construí-la sem você.

Peço que você se junte ao movimento. Entre em orkut.com e adicione seu nome. Depois, pense em uma pessoa que você gostaria de ter lá com você e envie seu cartão de apoiador para ela. Diga por que pensou nela. Lembre a ela por que você se importa.

Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue. Então, vamos parar de otimizar para capturar a atenção e começar a otimizar uns para os outros. E vamos fazer isso do jeito que tudo de bom na minha vida aconteceu: com amor, e juntos.

Vamos tornar a internet humana de novo, juntos!

Love, Orkut

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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