Google é questionado na Justiça por uso de IA em ligações de atendimento

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Processamento de conversas em tempo real: ferramentas do Google Cloud podem transcrever ligações e analisar diálogos entre clientes e atendentes humanos.
  • Consentimento está no centro da disputa: consumidores alegam que não foram informados adequadamente sobre a participação do Google no processamento das conversas.
  • Processo não prova treinamento de IA com ligações: a Justiça ainda precisa avaliar as acusações, que envolvem a legislação de privacidade da Califórnia.

O Google está no centro de uma disputa judicial que levanta uma questão cada vez mais relevante na era da inteligência artificial: quando um consumidor liga para uma empresa, quem tem autorização para ouvir e analisar essa conversa?

A ação, apresentada em 2023, questiona o uso de ferramentas de inteligência artificial do Google Cloud em ligações de atendimento ao cliente. Os autores alegam que a empresa atuou como uma terceira parte nas comunicações sem que os consumidores tivessem recebido informações suficientes sobre esse processamento.

O caso voltou a ganhar força em uma audiência realizada em 13 de outubro de 2026, quando a juíza federal Rita Lin analisou os argumentos do Google para tentar encerrar a versão mais recente das acusações.

🤖 A IA não precisa falar para participar da conversa

O processo envolve o Google Cloud Contact Center AI (CCAI), conjunto de ferramentas desenvolvido para empresas que desejam automatizar ou aprimorar operações de atendimento.

A tecnologia permite conectar consumidores a agentes virtuais e encaminhá-los a atendentes humanos. O ponto mais delicado está nos recursos do Agent Assist, que podem acompanhar as conversas em tempo real.

Entre as funcionalidades estão:

  • Transcrição automática: conversão da fala em texto durante a ligação.
  • Análise da conversa: processamento do diálogo para identificar informações relevantes.
  • Assistência ao atendente: sugestões e orientações para auxiliar o profissional durante o atendimento.

Essas ferramentas são oferecidas a empresas, e não diretamente aos consumidores como um produto convencional de IA.

O problema jurídico é justamente o que acontece quando alguém liga para uma empresa e conversa com uma pessoa, mas o diálogo também é processado por sistemas de um fornecedor externo.

⚖️ Avisar que a ligação será gravada é suficiente?

A ação foi apresentada com base na Lei de Invasão de Privacidade da Califórnia, conhecida como California Invasion of Privacy Act, que estabelece restrições à interceptação não autorizada de comunicações.

As acusações envolvem ligações feitas a empresas como Home Depot, Discover, Uber e Verizon.

Na audiência de outubro, o advogado do Google, Benjamin Berkowitz, argumentou que as empresas clientes tinham acordos com a companhia que exigiam a obtenção do consentimento necessário antes da utilização da tecnologia.

A juíza, porém, questionou se esse consentimento seria suficientemente abrangente.

💡 O ponto central não é apenas saber se o consumidor concordou com a gravação, mas se também foi informado sobre a participação de outra empresa no processamento da conversa.

A distinção é importante. Uma pessoa pode aceitar que uma empresa grave uma ligação para fins de atendimento ou controle de qualidade sem necessariamente compreender que um fornecedor de tecnologia poderá transcrever e analisar o diálogo em tempo real.

🗣 A defesa do Google: a companhia sustenta que as divulgações sobre gravação e monitoramento das ligações seriam suficientes para estabelecer o consentimento. Também argumenta que a responsabilidade pela obtenção dessa autorização caberia às empresas que contratam seus serviços.

Os autores da ação contestam essa interpretação. Para eles, informar que uma chamada está sendo gravada não equivale necessariamente a explicar que uma terceira empresa está processando a conversa.

A juíza não tomou uma decisão durante a audiência. Portanto, as acusações continuam em discussão, sem uma conclusão judicial sobre eventual violação da legislação.

🔎 Uma decisão de 2025 já havia complicado a defesa

A disputa atual tem um antecedente importante. Em fevereiro de 2025, Rita Lin rejeitou uma tentativa anterior do Google de encerrar o processo.

Na ocasião, a análise considerou o chamado capability test, ou teste de capacidade, para avaliar se a companhia poderia ser enquadrada como terceira parte sob a legislação californiana.

A questão era se o Google teria a capacidade de utilizar, para finalidades próprias, informações obtidas por meio das ligações.

O tribunal considerou plausível a alegação dos autores, levando em conta os termos que regem os serviços de nuvem da empresa.

Isso não significa que a Justiça tenha concluído que o Google utilizou as conversas para treinar seus modelos de inteligência artificial. A decisão permitiu que o processo avançasse, sem estabelecer que a conduta alegada efetivamente ocorreu.

🧩 O que os termos do Google dizem sobre o treinamento de IA?

A distinção entre processar uma conversa e utilizar seus dados para treinar um modelo é fundamental.

Segundo os termos atuais do Google Cloud mencionados no material do caso, a companhia não utilizará dados de clientes para treinar ou ajustar modelos de IA sem autorização ou instrução prévia do cliente.

AtividadeO que significa
Transcrever uma ligaçãoConverter a conversa em texto durante o atendimento.
Analisar o diálogoProcessar informações para auxiliar o atendimento.
Treinar um modelo de IAUtilizar dados para desenvolver ou ajustar o comportamento de um modelo.

Essas atividades não são equivalentes. Uma ferramenta pode processar dados para executar uma tarefa sem que isso signifique, automaticamente, que os dados serão incorporados ao treinamento de um modelo.

Por isso, o processo trata de uma questão mais específica do que a afirmação de que o Google estaria treinando suas IAs com todas as ligações de atendimento que passam por seus sistemas.

📂 A investigação também alcançou outras funcionalidades

Em fevereiro de 2026, a juíza magistrada Kandis A. Westmore determinou que o Google apresentasse documentos relacionados a todas as funcionalidades do CCAI utilizadas pela Home Depot durante o período relevante para o processo.

A decisão ocorreu após o tribunal considerar inadequada a proposta do Google de limitar o alcance dessa produção de documentos.

O objetivo é ampliar a análise sobre o funcionamento das ferramentas envolvidas e esclarecer quais recursos foram utilizados nas operações questionadas.

O caso também prevê uma audiência sobre certificação de classe, etapa que pode determinar se a ação poderá prosseguir em nome de um grupo de consumidores que compartilham alegações semelhantes.

🔐 O que está em jogo para as empresas que usam IA?

O processo coloca em evidência uma questão que vai além do Google: a responsabilidade sobre os dados quando empresas terceirizam parte do atendimento ao cliente para fornecedores de inteligência artificial.

Avisos de gravação, políticas de privacidade e contratos com prestadores de serviços podem precisar ser avaliados à luz das funcionalidades efetivamente utilizadas.

Para as empresas, isso significa que adotar IA no atendimento não envolve apenas eficiência operacional. Também exige atenção à transparência com o consumidor e às regras aplicáveis ao tratamento de informações.

Para o Google, o desafio jurídico é demonstrar que o uso de suas ferramentas está amparado pelas autorizações necessárias.

A próxima etapa será esclarecer o que os consumidores foram informados, quais recursos processaram as ligações e se houve alguma conduta incompatível com a legislação. Até lá, uma coisa precisa ficar clara: o processo questiona o consentimento e a participação do Google nas conversas, mas não comprova que a empresa tenha utilizado essas ligações para treinar seus modelos de IA.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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