Principais destaques
- Acordo de longo prazo: Google e McKinsey comprarão 320 mil toneladas métricas de créditos de remoção de carbono ao longo de dez anos, vinculados a um projeto brasileiro.
- Árvores entre o gado: a iniciativa da Working Trees combina espécies nativas e árvores madeireiras com pastagens em atividade no Cerrado e no sudeste da Amazônia.
- Salto na computação quântica: paralelamente, o Google demonstrou uma técnica que reduziu em cerca de 40 vezes os erros na preparação de estados quânticos especiais no chip Willow.
O Google está apostando em duas frentes que parecem distantes, mas fazem parte de uma mesma estratégia: desenvolver tecnologias avançadas e lidar com os impactos ambientais da infraestrutura digital. De um lado, a empresa avança na computação quântica. De outro, investe na remoção de dióxido de carbono da atmosfera por meio da restauração de paisagens brasileiras.
Na segunda-feira, 19 de outubro, Google e McKinsey fecharam um acordo para adquirir 320 mil toneladas métricas de créditos de remoção de carbono ao longo de dez anos, segundo a Reuters. O projeto será desenvolvido pela Working Trees, empresa de tecnologia climática que integra árvores a áreas de pecuária.
A iniciativa chama atenção não apenas pelo volume contratado, mas também pelo método escolhido. Em vez de transformar pastagens em florestas convencionais, o projeto busca incorporar árvores a sistemas produtivos que continuam abrigando o gado.
🌳 O plano é plantar árvores sem tirar o gado
O projeto adota o sistema silvipastoril, que combina árvores, pastagens e animais na mesma área. A proposta é aumentar a captura de carbono e, ao mesmo tempo, manter a atividade pecuária.
A Working Trees trabalha com fileiras de árvores madeireiras e espécies nativas em propriedades localizadas no sudeste da Amazônia e no Cerrado brasileiro.
📍 A dimensão da iniciativa: o acordo ajudará a restaurar 8.700 hectares, dentro de um projeto mais amplo que pretende alcançar 50 mil hectares.
A diferença entre as duas áreas é importante. Os 8.700 hectares estão associados ao apoio previsto pelo acordo, enquanto os 50 mil hectares representam a dimensão total do projeto.
Segundo as informações divulgadas, o Google atribuiu à sua participação no acordo a remoção de 270 mil toneladas de dióxido de carbono. O volume é inferior às 320 mil toneladas métricas mencionadas para o conjunto da aquisição, uma distinção que merece atenção ao comparar os compromissos das empresas.
🌱 A aposta é fazer a captura de carbono caber dentro da atividade econômica existente, em vez de depender exclusivamente da substituição de áreas produtivas por florestas.
O modelo pode oferecer benefícios ambientais adicionais, dependendo de como for implementado. A presença de árvores pode contribuir para a biodiversidade, o conforto térmico dos animais e a recuperação de áreas degradadas. Os resultados, porém, dependem das espécies utilizadas, do manejo e das condições de cada propriedade.
💰 Quem está financiando a remoção de carbono?
A aquisição ocorre por meio da Symbiosis Coalition, iniciativa que reúne empresas interessadas em ampliar o mercado de remoção de carbono.
Entre seus integrantes estão Google, Microsoft, Meta e Salesforce. Em conjunto, os membros se comprometeram a adquirir mais de 20 milhões de toneladas de compensações de carbono até 2030.
A lógica é criar demanda para projetos que retirem dióxido de carbono da atmosfera, ajudando a financiar iniciativas que ainda precisam ganhar escala.
🔎 Mas existe uma diferença importante: créditos de remoção de carbono não são automaticamente equivalentes à redução direta das emissões de uma empresa. A qualidade do resultado depende de fatores como a permanência do carbono armazenado, a mensuração da captura e a possibilidade de o projeto ter acontecido sem aquele financiamento.
No caso de iniciativas baseadas em árvores, também é necessário considerar riscos como incêndios, mudanças no uso da terra e a liberação futura do carbono armazenado na vegetação.
Por isso, a credibilidade de um projeto desse tipo depende não apenas do número de toneladas anunciado, mas também dos mecanismos de monitoramento e verificação adotados ao longo do tempo.
⚛️ Enquanto isso, o chip Willow avança na computação quântica
O acordo ambiental não foi o único anúncio relevante do Google na semana. Quatro dias antes, pesquisadores do Google Quantum AI divulgaram, na revista Science, resultados experimentais envolvendo o chip quântico Willow.
O estudo demonstrou em hardware real uma técnica chamada magic state cultivation, ou cultivo de estados mágicos. Esses estados quânticos são recursos necessários para executar determinadas operações fundamentais em computadores quânticos tolerantes a falhas.
Produzi-los com alta qualidade é um dos desafios técnicos da área. Algumas estimativas indicam que essa etapa pode consumir até 95% dos recursos de uma máquina quântica, dependendo da arquitetura e da tarefa executada.
🧪 Como funciona a técnica? O sistema prepara estados quânticos, verifica repetidamente sua qualidade e descarta as tentativas que não passam pelos critérios de validação. O objetivo é obter estados mais confiáveis sem exigir uma quantidade proibitiva de recursos.
O Google havia apresentado a proposta de cultivo em 2024. Agora, os pesquisadores demonstraram sua aplicação em hardware quântico real, com uma redução de aproximadamente 40 vezes nos erros em comparação com estados não cultivados.
A equipe também relatou fidelidade lógica de 99,99%, um indicador da qualidade do estado quântico produzido.
🧩 O resultado é expressivo, mas há ressalvas
A melhoria não significa que o Willow inteiro ficou 40 vezes mais rápido ou mais poderoso. O número se refere à redução de erros nos estados quânticos preparados pela técnica, e não ao desempenho geral do processador.
O experimento utilizou no máximo 54 dos 105 qubits do Willow. Além disso, apenas cerca de 8% das tentativas passaram por todas as verificações necessárias.
Outro ponto merece atenção: em um teste de armazenamento, os erros observados foram aproximadamente sete vezes maiores do que o previsto pelas simulações.
Essas limitações mostram a distância que ainda existe entre demonstrar uma técnica promissora em laboratório e construir computadores quânticos capazes de executar aplicações comerciais complexas com confiabilidade.
O Google não divulgou um prazo para a chegada de máquinas quânticas comercialmente úteis.
🔋 Duas apostas em uma corrida por infraestrutura de IA
Os anúncios também se conectam a uma questão econômica maior: o custo de sustentar a expansão da inteligência artificial.
A construção e a operação de data centers exigem grandes investimentos em chips, energia, refrigeração e infraestrutura. Ao mesmo tempo, empresas de tecnologia enfrentam pressão para demonstrar que conseguem reduzir suas emissões e financiar iniciativas climáticas verificáveis.
A computação quântica ainda está em uma etapa experimental, enquanto projetos de remoção de carbono procuram ampliar sua escala e demonstrar resultados ambientais mensuráveis. São frentes diferentes, com prazos e riscos próprios, mas ambas exigem capital e desenvolvimento de longo prazo.
O acordo brasileiro ajuda a colocar o país no centro de uma parte dessa estratégia climática. Já o experimento com o Willow reforça a disputa tecnológica por computadores quânticos mais confiáveis.
A questão é quanto essas iniciativas conseguirão entregar na prática: de um lado, remoção de carbono comprovada ao longo de uma década; de outro, sistemas quânticos capazes de superar as limitações atuais.
No Brasil, parte dessa resposta poderá começar com árvores crescendo entre pastagens. Na computação quântica, ela dependerá de transformar resultados experimentais em máquinas úteis. Nos dois casos, o anúncio é apenas o começo de um teste mais longo.