Lula e Flávio transformam o Google em arma no debate eleitoral

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • “Pesquise no Google” virou parte do debate: Lula e Flávio Bolsonaro recorreram às buscas como argumento para sustentar suas falas e desafiar o adversário diante do público.
  • O caso Ana Clara disparou: a expressão “Flávio Bolsonaro caso Ana Clara” ultrapassou 1 milhão de pesquisas após o confronto na Band, segundo reportagens publicadas em 19 e 20 de outubro.
  • A disputa chegou ao Google Trends: apoiadores também organizaram mobilizações para pesquisar termos específicos, numa tentativa de colocá-los entre as tendências mais populares.

O debate presidencial da Band, realizado no domingo, 18 de outubro, mostrou uma mudança interessante na comunicação política brasileira: o buscador deixou de ser apenas o lugar onde o eleitor confere uma informação depois do programa. Ele passou a fazer parte do próprio confronto.

Durante a discussão, Lula e Flávio Bolsonaro incentivaram o público a consultar o Google para verificar informações e contextualizar acusações. A orientação é simples, mas tem uma consequência estratégica: quando milhares de pessoas pesquisam simultaneamente o mesmo assunto, a busca se transforma em um termômetro público e pode colocar aquela expressão entre as tendências do momento.

E foi justamente isso que aconteceu com um dos temas mais delicados do debate: o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021.

🔎 Ana Clara: de assunto do debate a uma das maiores buscas

Imagem ilustrativa do tema: o debate político e a busca por informações.

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O assunto ganhou força quando Lula questionou Flávio sobre sua atuação como advogado na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público de envolvimento na morte de Ana Clara.

Flávio argumentou que não se deve tratar o policial como condenado antes do julgamento e acusou Lula de criminalizar o exercício da advocacia. O caso segue na Justiça, e o policial responde ao processo.

📈 Os números impressionam:

  • Mais de 1 milhão de pesquisas: a expressão “Flávio Bolsonaro caso Ana Clara” ultrapassou essa marca após o debate, segundo o UOL e o Correio Braziliense.
  • Alta superior a 1.000%: durante o confronto, termos como “Flávio miliciano” e “Flávio Comando Vermelho” também dispararam no Google Trends.
  • Interesse nacional: o caso Ana Clara foi pesquisado em diferentes estados brasileiros, com destaque relativo para o Distrito Federal e estados do Nordeste, segundo levantamento da consultoria Bites.

O episódio mostra como uma questão levantada em um debate pode gerar uma cadeia de ações: o candidato cita um caso, o público procura informações, a expressão ganha visibilidade e outros usuários passam a encontrá-la entre as tendências.

📲 Não foi só espontaneidade: houve mobilização organizada

Um detalhe importante é que o aumento das buscas não pode ser atribuído exclusivamente à curiosidade espontânea do público.

Segundo o Poder360, o deputado André Janones mobilizou os integrantes de seu canal de WhatsApp, Exército do Lula, para pesquisar expressões negativas associadas a Flávio Bolsonaro durante o debate. Entre elas estavam “Flávio miliciano”, “Flávio Ana Clara” e “Flávio Comando Vermelho”.

Às 22h48 de domingo, as três expressões apareciam entre as principais tendências de pesquisa no Brasil. “Flávio miliciano” ultrapassava 500 mil buscas, enquanto as outras duas superavam 100 mil cada, conforme os dados do Google Trends citados pelo veículo.

A busca virou parte da mobilização política: não basta falar sobre um tema na televisão. A estratégia também pode envolver levar o público a pesquisar aquele assunto, ampliando sua visibilidade digital.

Isso não significa que todas as pesquisas tenham sido coordenadas ou que a mobilização explique sozinha o volume alcançado. Significa que houve uma ação organizada para influenciar o que aparecia entre as tendências.

⚔️ Lula também enfrentou o adversário com buscas

A estratégia não se limitou ao caso Ana Clara. Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico dos dois candidatos, tema que também provocou forte repercussão digital.

O presidente ainda orientou o público a consultar o Google ao comparar a inflação dos alimentos durante o governo de Jair Bolsonaro com a de sua própria gestão.

Aqui, há duas formas distintas de usar o buscador:

  • Como verificação: convidar o eleitor a conferir dados ou informações citadas no debate.
  • Como mobilização: incentivar grupos de pessoas a pesquisar termos específicos para aumentar sua presença entre as tendências.

A primeira pode estimular a checagem de informações. A segunda transforma o volume de buscas em mais uma frente da disputa por atenção.

O Google Trends mostra o interesse relativo por termos de pesquisa e permite identificar aumentos incomuns de procura. Não é, porém, uma pesquisa eleitoral convencional.

Uma expressão pode disparar por causa de uma notícia, de uma campanha coordenada, de críticas ou da vontade de verificar uma acusação. O volume de buscas não comprova a veracidade do que está sendo pesquisado nem revela se o usuário apoia ou rejeita um candidato.

O levantamento da Bites sobre o debate também identificou outro movimento: o nome de Lulinha, filho do presidente, apareceu em 20 das 25 consultas relacionadas a Lula analisadas pela consultoria. No caso de Flávio, Ana Clara apareceu em nove consultas. Em uma comparação de três termos monitorados, o caso da menina despertou seis vezes mais interesse no Google.

💡 A implicação para a comunicação digital: as equipes políticas podem tentar influenciar não apenas a conversa nas redes sociais, mas também as perguntas que o público faz ao buscador. E os veículos de imprensa podem usar essas tendências para identificar assuntos que precisam de explicação e apuração.

Isso não elimina a necessidade de checagem. Pelo contrário: quanto mais uma expressão se espalha, maior a importância de distinguir fatos documentados, alegações dos candidatos e interpretações políticas.

A próxima disputa pode começar com três palavras

“Pesquise no Google” parece um convite banal. No contexto eleitoral, pode funcionar como uma instrução para verificar um dado, investigar uma acusação ou participar de uma mobilização coletiva.

O caso Ana Clara demonstra a velocidade com que um assunto pode sair do debate televisivo e dominar as buscas. A mobilização organizada mostra que essa visibilidade também pode ser perseguida deliberadamente.

A disputa eleitoral, portanto, não acontece apenas diante das câmeras ou nas redes sociais. Ela também alcança a caixa de pesquisa, onde candidatos, militantes e acontecimentos competem para definir o que milhões de pessoas vão procurar.

A questão para os próximos confrontos é se os eleitores usarão o Google principalmente para verificar as afirmações dos candidatos ou se as próprias campanhas conseguirão direcionar, cada vez mais, as perguntas que eles fazem.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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