YouTube libera feeds personalizados e devolve parte do controle aos usuários

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Feeds sob medida: o YouTube permite criar páginas iniciais personalizadas por interesses, rotinas e preferências.
  • Redes sociais mudam de estratégia: Instagram, Facebook e TikTok ampliam ferramentas para ajustar os assuntos recomendados.
  • Uma disputa pelo controle: as plataformas tentam responder à insatisfação com algoritmos que decidem o que aparece na tela.

Durante anos, as redes sociais fizeram praticamente a mesma aposta: deixar os algoritmos escolherem o que cada pessoa deveria assistir, ler ou descobrir. Agora, algumas das maiores plataformas digitais começam a devolver parte dessa decisão aos próprios usuários.

A mudança não significa o fim das recomendações automáticas. A ideia é permitir que as pessoas orientem melhor os sistemas, indicando os assuntos que desejam acompanhar e aqueles que preferem evitar.

Segundo reportagem da CNN publicada em 22 de outubro, Instagram, Facebook, YouTube e TikTok estão entre as plataformas que avançam nessa direção. Aplicativos mais recentes, como o Divine, também fazem parte desse movimento.

📺 YouTube quer transformar a página inicial

O YouTube anunciou os Feeds Personalizados, ou Custom Feeds, durante o evento Made on YouTube, em 23 de setembro de 2026.

A proposta é permitir que os usuários criem abas dedicadas a interesses específicos, humores, rotinas ou assuntos que desejam acompanhar naquele momento. Em vez de depender exclusivamente da seleção algorítmica tradicional, será possível organizar diferentes experiências de descoberta de vídeos.

🔎 Há limites diferentes por assinatura: de acordo com o 9to5Google, usuários do plano gratuito podem salvar até três feeds personalizados, enquanto assinantes do YouTube Premium podem criar até oito.

A novidade começou a ser disponibilizada para usuários conectados nos Estados Unidos que utilizam a plataforma em inglês. Portanto, a liberação inicial não significa que o recurso já esteja disponível para todas as contas ou regiões.

Os Feeds Personalizados também substituem os antigos chips de tópicos para os usuários elegíveis, segundo o Digital Trends.

A mudança é relevante porque mexe em um dos espaços mais disputados da plataforma: a página inicial, onde o YouTube decide quais vídeos têm mais chances de capturar a atenção de cada pessoa.

📱 Instagram quer que você ensine o algoritmo

A Meta também está tornando seus controles de recomendação mais explícitos.

O Instagram lançou o recurso Seu Algoritmo inicialmente na aba Reels, em dezembro de 2025. Depois, expandiu a ferramenta para o Explorar e, posteriormente, para o Feed, os Reels e o Explorar em outros mercados.

A funcionalidade apresenta os temas que a plataforma considera relevantes para cada usuário e permite adicionar ou bloquear assuntos.

Tessa Lyons, vice-presidente de produto do Instagram, explicou à CNN que os avanços na compreensão da linguagem pela inteligência artificial permitem que as pessoas expressem suas preferências em linguagem natural.

Em outras palavras, em vez de depender apenas do histórico de visualização, o usuário pode indicar diretamente que deseja ver mais ou menos de determinado assunto.

👆 O próximo passo é simplificar o acesso: Adam Mosseri, chefe do Instagram, mostrou testes de controles mais acessíveis, incluindo um gesto de arrastar para baixo no feed principal e opções para receber mais ou menos vídeos semelhantes aos exibidos nos Reels.

A Meta também estendeu o recurso ao Facebook, ampliando a tentativa de dar aos usuários mais influência sobre as recomendações.

🎛️ TikTok já permite ajustar os assuntos

O TikTok começou a oferecer controles de gerenciamento de tópicos em junho de 2025.

A ferramenta permite ajustar categorias como moda e fitness por meio de um controle deslizante, indicando o nível de interesse em cada tema. A plataforma também adicionou filtros de palavras-chave capazes de bloquear termos e expressões relacionados.

Esses mecanismos atacam um problema recorrente das recomendações: basta interagir com alguns vídeos sobre determinado assunto para que ele passe a ocupar uma parcela desproporcional do feed.

O usuário pode até ter assistido àquele conteúdo por curiosidade, sem desejar que ele se transforme em tema recorrente.

Com os novos controles, as plataformas tentam tornar essa relação menos automática e mais ajustável.

🧠 Por que as redes estão mudando agora?

A expansão desses recursos ocorre após anos de críticas aos feeds dominados por recomendações algorítmicas.

Quando as plataformas trocaram as listas cronológicas por sistemas automatizados, a promessa era simples: mostrar primeiro o conteúdo mais relevante para cada pessoa, aumentando a probabilidade de interesse e permanência.

O problema é que relevância, preferência e satisfação não são necessariamente a mesma coisa.

Um vídeo pode despertar indignação e gerar muitas interações sem representar algo que o usuário realmente queira consumir. Da mesma forma, assistir a um conteúdo isolado não significa querer receber dezenas de recomendações semelhantes.

💡 O paradoxo das recomendações: aquilo que mantém alguém olhando para a tela nem sempre é aquilo que essa pessoa gostaria de ver.

Tim Weninger, professor de ciência da computação da Universidade de Notre Dame, disse à CNN que a frustração aumentou à medida que a inteligência artificial passou a influenciar cada vez mais o conteúdo consumido na internet.

Ele também apontou uma dificuldade importante: o que as pessoas dizem querer assistir pode ser diferente daquilo com que efetivamente interagem.

Se alguém afirma gostar de futebol, mas nunca assiste aos vídeos do assunto, por exemplo, como o sistema deve interpretar essa preferência?

A questão revela um limite dos controles personalizados. As declarações dos usuários ajudam a orientar o algoritmo, mas não eliminam a necessidade de interpretar comportamentos contraditórios.

⚖️ Mais autonomia significa menos algoritmo?

Não necessariamente. As plataformas continuam dependendo de sistemas de recomendação para selecionar e ordenar conteúdos. A diferença é que passam a oferecer mecanismos adicionais para orientar essas escolhas.

PlataformaRecursoControle oferecido
YouTubeFeeds PersonalizadosCriar feeds para interesses específicos
InstagramSeu AlgoritmoAdicionar ou bloquear tópicos recomendados
FacebookControles de recomendaçãoAjustar os assuntos exibidos
TikTokGerenciar tópicosRegular categorias e filtrar palavras-chave

O modelo combina, portanto, duas abordagens: a capacidade dos algoritmos de encontrar conteúdos relevantes e a possibilidade de o usuário expressar preferências diretamente.

Isso pode melhorar a experiência, mas não garante que os feeds se tornem cronológicos, livres de conteúdos indesejados ou inteiramente controlados por quem os utiliza.

Também existe uma questão comercial. As plataformas precisam equilibrar a satisfação do público com seus objetivos de engajamento e distribuição de conteúdo. Os controles personalizados podem ajudar nessa tarefa, mas seu impacto real depende de como serão implementados e utilizados.

🔮 O usuário está retomando o comando?

A tendência aponta para uma mudança na relação entre pessoas e algoritmos. Em vez de simplesmente aceitar as recomendações, os usuários passam a ter mais ferramentas para negociar com os sistemas que organizam sua experiência digital.

Ainda assim, há uma diferença entre permitir que alguém ajuste um feed e dar a essa pessoa controle efetivo sobre o que aparece nele.

Se os novos recursos funcionarem bem, poderão reduzir recomendações repetitivas e tornar a descoberta de conteúdo mais alinhada aos interesses individuais. Se forem difíceis de encontrar ou tiverem pouco efeito sobre as sugestões, poderão acabar sendo apenas mais uma opção escondida nas configurações.

A disputa não é mais apenas sobre qual vídeo será recomendado. É também sobre quem define os critérios dessa recomendação: a plataforma, o comportamento observado ou a preferência declarada pelo próprio usuário.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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