OpenAI mira chips do Google para reduzir dependência da Nvidia

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Compra direta em discussão: a OpenAI pretende adquirir TPUs do Google, mas os termos finais do possível acordo ainda não são conhecidos.
  • Menos dependência da Nvidia: a iniciativa pode diversificar os fornecedores de hardware usados para treinar e executar modelos de inteligência artificial.
  • Acordos se multiplicam: Google, Oracle, Broadcom e empresas de IA estão ampliando parcerias para garantir capacidade computacional em larga escala.

A OpenAI está avaliando comprar diretamente os chips de inteligência artificial do Google, em um movimento que pode mudar a forma como a criadora do ChatGPT abastece seus sistemas de IA. Segundo reportagens do The Information e da Bloomberg, a empresa pretende adquirir unidades de processamento tensorial, conhecidas como TPUs, desenvolvidas pelo Google.

A possível compra ocorre enquanto a OpenAI amplia sua infraestrutura computacional, investe no desenvolvimento de chips próprios e busca alternativas às GPUs da Nvidia, que desempenham um papel central no treinamento e na execução de seus modelos.

Da locação à compra de chips ⚙️

A OpenAI já utiliza a infraestrutura de TPUs do Google por meio de contratos de locação. Uma eventual aquisição representaria uma mudança importante: em vez de apenas alugar a capacidade de processamento, a empresa passaria a ser proprietária dos chips.

A Reuters informou, em junho de 2025, que a criadora do ChatGPT havia começado a alugar chips de IA do Google. Na época, a empresa ainda não indicava planos específicos para utilizar TPUs em seus sistemas.

Agora, segundo as reportagens publicadas em 27 de outubro de 2026, a possibilidade de compra sugere uma aproximação maior entre a OpenAI e a arquitetura de hardware desenvolvida por sua concorrente.

💡 O ponto central: a OpenAI não precisa abandonar a Nvidia para reduzir sua dependência da empresa. Basta ampliar o número de fornecedores e distribuir diferentes cargas de trabalho entre arquiteturas de processamento distintas.

Os termos financeiros, o volume de chips envolvidos e o cronograma de uma eventual aquisição ainda não foram divulgados.

Por que as TPUs interessam à OpenAI?

TPUv5e: The New Benchmark in Cost-Efficient Inference and Training for <200B Parameter Models

newsletter.semianalysis.com

As TPUs, sigla para Tensor Processing Units, são aceleradores desenvolvidos pelo Google para executar operações matemáticas usadas em inteligência artificial. O hardware foi projetado especialmente para cargas de trabalho de aprendizado de máquina.

As GPUs da Nvidia também são amplamente utilizadas nesse mercado, mas as TPUs oferecem uma arquitetura alternativa, integrada ao ecossistema de software e à infraestrutura do Google.

CaracterísticaTPUs do GoogleGPUs da Nvidia
DesenvolvedorGoogleNvidia
FocoAceleração de operações de IAComputação paralela e aceleração de IA
EcossistemaGoogle Cloud e ferramentas compatíveisCUDA e ampla variedade de plataformas
Papel para a OpenAIDiversificação de hardwareInfraestrutura central já utilizada

A comparação não significa que uma arquitetura seja universalmente superior à outra. O desempenho depende do modelo, da tarefa, do software, da memória disponível e do custo total de operação.

🔎 O desafio técnico: migrar cargas de trabalho para outra arquitetura exige otimizar modelos, adaptar ferramentas e verificar se o ganho de desempenho compensa os custos de implementação.

É por isso que a OpenAI também está procurando profissionais especializados nessa tecnologia.

OpenAI procura engenheiros para otimizar modelos

Segundo a agência Yonhap News, a OpenAI publicou uma vaga para um engenheiro responsável por otimizar seus modelos de ponta para TPUs. A descrição aceita experiência tanto em treinamento quanto em inferência, etapa em que os modelos executam tarefas e geram respostas.

A reportagem do The Information interpretou a contratação como um sinal de que o trabalho de otimização para essa arquitetura ainda está em estágio inicial.

O detalhe importa porque comprar aceleradores é apenas uma parte do problema. Para obter resultados competitivos, a empresa também precisa adaptar o software, distribuir o processamento e garantir que seus modelos aproveitem os recursos disponíveis.

A experiência anterior de Richard Ho, responsável pela equipe de chips da OpenAI e ex-integrante da equipe de TPUs do Google, também conecta a iniciativa ao conhecimento técnico já existente dentro da empresa.

Os chips próprios continuam no radar

A possível compra de TPUs não significa que a OpenAI esteja abandonando o desenvolvimento de hardware próprio.

Segundo a Bloomberg, a empresa também trabalha com a Broadcom no desenvolvimento de chips personalizados, chamados Jalapeno. A previsão reportada é que a OpenAI comece a utilizá-los ainda em 2026.

A estratégia combina três frentes:

  • Nvidia: acesso a GPUs amplamente utilizadas na infraestrutura de IA.
  • Google: possibilidade de adquirir TPUs e ampliar o uso de uma arquitetura alternativa.
  • Broadcom: desenvolvimento de aceleradores personalizados para as necessidades da OpenAI.

Essa diversificação pode ajudar a empresa a administrar custos, disponibilidade de hardware e necessidades específicas de processamento. Também reduz o risco de depender de um único fornecedor em um mercado no qual a capacidade computacional se tornou um recurso estratégico.

Google transforma suas TPUs em um negócio maior ☁️

O possível acordo com a OpenAI acontece enquanto o Google amplia o alcance comercial de seus próprios chips.

Segundo o The Information, o Google pretende disponibilizar TPUs por meio da infraestrutura de nuvem da Oracle, em uma iniciativa que poderá começar até 2027. Se concretizada nos termos reportados, será uma nova forma de levar essa tecnologia a clientes fora da infraestrutura diretamente operada pelo Google.

A parceria também reforça uma tendência: empresas que desenvolvem aceleradores de IA estão buscando novas maneiras de monetizar o hardware, seja pela venda, pela locação ou pelo fornecimento de capacidade computacional por meio de serviços de nuvem.

Em comunicado sobre o acordo com a Oracle, Amin Vahdat, executivo do Google, destacou a necessidade de diversificar a capacidade de computação para atender à próxima geração de inteligência artificial.

A expansão do mercado de TPUs mostra que os aceleradores de IA estão deixando de ser apenas uma vantagem interna dos grandes provedores de nuvem e se tornando parte de uma disputa mais ampla por infraestrutura.

Anthropic também aposta na infraestrutura do Google

A OpenAI não é a única desenvolvedora de modelos de IA interessada nas TPUs.

Segundo o The Herald Business, a Anthropic revelou, em documentação relacionada a uma oferta pública inicial de ações (IPO), um acordo de cinco anos avaliado em US$ 161 bilhões com a Broadcom para alugar equipamentos baseados nas TPUs do Google.

O valor reportado chama atenção pela escala, mas é importante distinguir o montante de um compromisso contratual de uma compra direta de chips. O acordo mencionado envolve equipamentos e capacidade de computação, não necessariamente a aquisição dos aceleradores pela Anthropic.

A movimentação evidencia como a infraestrutura se tornou um dos principais campos de disputa entre empresas de IA. Desenvolver modelos competitivos exige não apenas pesquisadores e dados, mas também acesso contínuo a grandes volumes de processamento.

Uma parceria entre concorrentes?

Outro sinal de aproximação surgiu na semana anterior, quando a OpenAI anunciou que disponibilizaria seus modelos de ponta pelo Google Cloud, segundo o Yahoo Finance.

A relação é peculiar: OpenAI e Google disputam usuários tanto em produtos de inteligência artificial quanto em serviços de busca. Ainda assim, empresas concorrentes podem fazer negócios quando a infraestrutura de uma delas atende às necessidades da outra.

Para o Google, fornecer serviços de nuvem e aceleradores pode gerar receita e ampliar a utilização de sua tecnologia. Para a OpenAI, acessar diferentes plataformas pode aumentar a flexibilidade operacional.

Isso não elimina a competição entre as duas empresas. Mostra apenas que, na corrida da IA, a rivalidade comercial não impede necessariamente acordos envolvendo hardware e infraestrutura.

Resultados do Google entram no radar dos investidores 📊

As notícias sobre as TPUs também influenciaram a atenção dos investidores em relação à Alphabet, controladora do Google. Segundo o Yahoo Finance, as ações da empresa subiram no pregão após o fechamento, depois da divulgação das reportagens.

A Alphabet divulga seus resultados trimestrais nesta quarta-feira, 28 de outubro. De acordo com a Reuters, investidores estarão atentos aos sinais de que os investimentos em inteligência artificial continuam impulsionando o crescimento do negócio de nuvem.

O desempenho financeiro ajudará a contextualizar o tamanho da oportunidade: além de desenvolver modelos e chips, o Google precisa transformar sua infraestrutura de IA em uma fonte sustentável de crescimento e receita.

O que observar daqui para frente

A eventual compra de TPUs pela OpenAI ainda depende de detalhes que não foram divulgados publicamente. Por enquanto, as reportagens indicam uma intenção, não um acordo concluído com condições conhecidas.

Os próximos sinais relevantes serão a confirmação de uma aquisição, o volume de aceleradores envolvidos e o avanço das contratações para otimização de modelos.

Se a operação avançar, a OpenAI poderá combinar GPUs da Nvidia, TPUs do Google e chips personalizados desenvolvidos com a Broadcom. Em vez de apostar todas as fichas em uma única arquitetura, a empresa estaria construindo uma infraestrutura mais diversificada.

A disputa pela inteligência artificial não acontece apenas na tela em que o usuário conversa com um chatbot. Ela também acontece nos centros de dados, nos contratos bilionários e na escolha dos chips que tornam cada resposta possível.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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