Gemini chega a 1 bilhão de usuários, mas nem isso salva os resultados da Alphabet

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Marca histórica para o Gemini: o aplicativo ultrapassou 1 bilhão de usuários, tornando-se o produto de crescimento mais rápido da história do Google.
  • Google Cloud dispara: a receita da divisão cresceu 103%, para US$ 30,7 bilhões, enquanto a publicidade ficou abaixo das expectativas.
  • Mercado perde o entusiasmo: mesmo com receita trimestral de US$ 127,58 bilhões, a Alphabet decepcionou analistas e viu suas ações caírem mais de 10% após o fechamento.

O Google tem um bilhão de pessoas usando seu assistente de inteligência artificial. Suas APIs processam dezenas de bilhões de tokens por minuto, e a divisão de nuvem cresce em ritmo acelerado. Ainda assim, os resultados financeiros da Alphabet não convenceram Wall Street.

Os números divulgados na quarta-feira, 28 de outubro, mostram o contraste entre o avanço da inteligência artificial e a pressão para transformar esse crescimento em resultados financeiros que superem as expectativas do mercado.

🚀 Um bilhão de usuários, mas a corrida está longe de terminar

O aplicativo Gemini ultrapassou a marca de 1 bilhão de usuários, segundo a Alphabet. Durante a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, a companhia classificou o serviço como o produto de crescimento mais rápido de sua história.

A escala é significativa para a estratégia do Google. O Gemini deixou de ser apenas uma resposta aos assistentes concorrentes e passou a ocupar uma posição central na expansão dos serviços de IA da empresa.

Outro indicador reforça essa evolução. Durante a teleconferência com analistas, o CEO Sundar Pichai afirmou que as APIs dos modelos próprios do Google processam aproximadamente 32 bilhões de tokens por minuto.

📈 A aceleração também aparece nos bastidores: o volume representa um crescimento de 40% em relação ao trimestre anterior e supera em mais de quatro vezes o patamar registrado um ano antes, de acordo com os destaques da teleconferência.

Esse uso inclui a infraestrutura de modelos disponibilizada pela empresa, um negócio importante para desenvolvedores e organizações que integram inteligência artificial aos próprios produtos.

🤖 O próximo passo é transformar o Gemini em agente

O Google também prepara uma expansão das experiências agênticas, nas quais a IA não apenas responde a perguntas, mas pode executar tarefas em várias etapas.

Pichai afirmou que a empresa pretende levar aos consumidores, ainda em 2026, a experiência de agente lançada para empresas no início de outubro. O plano começa pela base de usuários do aplicativo Gemini.

A estratégia é levar os agentes para além da busca, conectando o Gemini ao Chrome, ao Android e aos produtos do Workspace.

A mudança pode ampliar o papel da IA no cotidiano dos usuários. Em vez de abrir aplicativos diferentes para realizar tarefas, as pessoas poderão contar com assistentes capazes de coordenar atividades entre serviços.

💰 E a publicidade também entrará nessa equação: Philipp Schindler, diretor comercial da Alphabet, confirmou que o Google pretende explorar anúncios em experiências agênticas.

Um exemplo apresentado por ele envolve um agente que recomenda produtos de seguro e oferece alternativas ao consumidor. A proposta é criar formatos publicitários adequados a esse tipo de interação.

Isso abre uma nova frente de monetização, mas também levanta uma questão estratégica: como inserir publicidade em recomendações feitas por uma IA sem comprometer a confiança do usuário?

☁️ Google Cloud cresce 103% e vira o destaque financeiro

Se existe uma divisão que ajuda a explicar o entusiasmo em torno da infraestrutura de inteligência artificial do Google, é a nuvem.

IndicadorResultado do trimestre
Receita total da AlphabetUS$ 127,58 bilhões
Crescimento da receita total25%
Receita do Google CloudUS$ 30,7 bilhões
Crescimento do Google Cloud103%
Receita de Pesquisa e outrosCrescimento de 12%
Receita de publicidadeUS$ 82,01 bilhões

A receita do Google Cloud mais que dobrou em relação ao período comparável, chegando a US$ 30,7 bilhões. O resultado destaca a demanda por infraestrutura, computação e serviços de IA oferecidos pela empresa.

A Pesquisa e outros negócios relacionados também cresceram 12%. Segundo a Alphabet, o volume de buscas apresentou seu ritmo de crescimento mais acelerado em cinco anos.

🔎 Mas há um detalhe importante: crescer não significa necessariamente superar as projeções. Apesar do avanço, a receita de publicidade ficou aproximadamente US$ 1,41 bilhão abaixo das expectativas dos analistas.

A publicidade continua sendo uma parte fundamental do negócio da Alphabet. Por isso, uma frustração nessa área pode pesar sobre a avaliação dos investidores, mesmo quando outras divisões apresentam resultados expressivos.

📉 Como a Alphabet decepcionou mesmo faturando mais

A receita trimestral avançou 25%, mas ficou abaixo das projeções do mercado. O lucro também não alcançou as expectativas, segundo a CNBC.

A reação foi imediata: as ações da Alphabet caíram mais de 10% nas negociações após o fechamento do mercado.

Segundo a CNBC, foi a primeira vez em quase quatro anos que a companhia ficou abaixo das estimativas tanto para receita quanto para lucro.

O lucro líquido caiu para US$ 26,17 bilhões, ante US$ 34,98 bilhões no mesmo período do ano anterior. Uma perda de US$ 8,7 bilhões em investimentos em participações societárias contribuiu para a redução, segundo a Associated Press.

O fluxo de caixa livre também chamou atenção. De acordo com a Reuters, o indicador ficou negativo em US$ 9,07 bilhões.

Esses números ajudam a entender por que o mercado não comemorou a marca de um bilhão de usuários do Gemini. Para investidores, o crescimento do público e o uso dos modelos são importantes, mas precisam caminhar junto com a geração de caixa e a rentabilidade.

💸 A conta da inteligência artificial vai ficar ainda maior

A Alphabet manteve sua projeção de investimentos de capital para 2026 entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões.

E a perspectiva para o ano seguinte é ainda mais ambiciosa.

Segundo a CNBC, a empresa espera que os investimentos ultrapassem US$ 300 bilhões em 2027. A diretora financeira, Anat Ashkenazi, afirmou que a companhia continua prevendo um aumento significativo dos gastos e que fornecerá mais detalhes na teleconferência de resultados do quarto trimestre.

Esses investimentos sustentam a expansão da infraestrutura necessária para desenvolver e operar modelos de IA, além de atender à demanda do Google Cloud.

O problema é o equilíbrio entre oportunidade e risco. Construir capacidade agora pode permitir que a Alphabet capture uma parcela maior do mercado no futuro. Ao mesmo tempo, exige desembolsos enormes antes que todo esse investimento necessariamente se traduza em retorno financeiro.

🧭 Wall Street quer ver mais do que crescimento

A reação dos analistas foi menos entusiasmada do que os números de expansão poderiam sugerir.

Brent Thill, analista do Jefferies, avaliou que o Google Cloud foi o único negócio a superar as expectativas, segundo a CNBC. Na avaliação dele, as demais áreas ficaram abaixo do esperado.

A leitura ajuda a explicar o contraste do trimestre. O Google avança na infraestrutura de IA e amplia a distribuição do Gemini, mas ainda enfrenta cobranças sobre o desempenho das operações que sustentam sua receita.

O próximo teste será mostrar que os agentes de IA podem gerar novas fontes de receita sem enfraquecer a publicidade tradicional, enquanto a empresa continua investindo centenas de bilhões de dólares em infraestrutura.

O Gemini já alcançou uma escala impressionante. A pergunta que fica para 2027 é outra: o Google conseguirá transformar esse bilhão de usuários e a explosão da demanda por IA em resultados financeiros à altura de seus investimentos?

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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