Gemini pode violar direitos autorais de jornais, alerta consultor da União Europeia

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Respostas sob suspeita: o Gemini pode violar direitos de editores quando reproduz conteúdos jornalísticos de forma reconhecível, segundo um parecer jurídico europeu.
  • Treinamento de IA é outra questão: o advogado-geral recomendou rejeitar perguntas sobre o treinamento do Gemini por falta de provas específicas, mas apontou que a mineração de textos e dados pode permitir esse uso.
  • O tráfego dos jornais está em jogo: o caso reacende o debate sobre chatbots que respondem diretamente aos usuários e reduzem a necessidade de visitar os sites das publicações.

O Google pode enfrentar um problema jurídico que vai além do treinamento de inteligência artificial. O Gemini, seu chatbot de IA, pode violar os direitos de editores de notícias ao utilizar matérias jornalísticas para formular respostas, segundo um parecer divulgado nesta terça-feira, 3 de novembro, pelo advogado-geral do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).

A avaliação foi apresentada por Maciej Szpunar e integra uma disputa envolvendo a Google Irlanda e uma editora húngara. Embora não seja uma decisão definitiva, o parecer oferece critérios para avaliar quando uma resposta gerada por IA deixa de apenas informar e passa a reutilizar conteúdo jornalístico protegido.

A discussão chega em um momento delicado para os veículos de comunicação. Ferramentas de busca e chatbots estão transformando a maneira como as pessoas consomem notícias, com resumos gerados por IA que podem dispensar o clique na reportagem original.

⚖️ Quando uma resposta de IA ultrapassa o limite?

O parecer propõe analisar duas questões fundamentais para determinar se o uso de uma reportagem pelo chatbot pode violar os direitos da publicação.

🔎 O primeiro ponto é a origem do conteúdo: é necessário verificar se o chatbot obteve a matéria de maneira ilícita, por exemplo, contornando um sistema de pagamento ou mecanismos de proteção contra a extração automatizada de dados.

O segundo aspecto diz respeito ao que o Gemini efetivamente entrega ao usuário.

Se a resposta reproduzir trechos ou elementos da reportagem de maneira suficientemente reconhecível para que o leitor não precise mais consultar o artigo original, poderá haver violação de direitos autorais.

Isso não significa que toda resposta baseada em uma notícia seja ilegal. A proteção das editoras não abrange os fatos jornalísticos em si, mas a forma específica pela qual esses fatos são expressos no artigo.

💡 O ponto central é a diferença entre informar sobre um acontecimento e substituir a reportagem que alguém produziu para explicá-lo.

O problema não termina em uma resposta isolada

O parecer também considera a reutilização sistemática de publicações, especialmente quando ela compromete o direito das editoras de disponibilizar seus conteúdos ao público.

Segundo a análise apresentada, a responsabilidade do provedor de IA pode depender de fatores como a incorporação dessa reutilização ao modelo de negócios e a adoção de medidas críveis e eficazes para impedir usos indevidos.

Na prática, a discussão pode influenciar a forma como empresas de IA coletam, processam e apresentam informações de sites jornalísticos.

📰 O que isso tem a ver com o tráfego dos jornais?

O conflito vai além da interpretação de leis de direitos autorais.

Tradicionalmente, um mecanismo de busca apresenta links para diferentes páginas. O leitor escolhe uma reportagem, acessa o site e tem contato com o conteúdo, a publicidade e outros materiais publicados pelo veículo.

Com respostas geradas por IA, parte dessa jornada pode desaparecer.

📉 O efeito sobre os editores: se um chatbot apresentar informações detalhadas e reconhecíveis de uma reportagem sem exigir que o usuário visite a página original, a publicação poderá perder acessos que antes ajudavam a sustentar seu negócio.

Esse é um dos principais pontos de tensão entre empresas de tecnologia e organizações jornalísticas. Os veículos investem em apuração, profissionais, infraestrutura e distribuição, enquanto os sistemas de IA podem condensar essas informações em respostas diretas.

A questão jurídica, portanto, é também econômica: como proteger o investimento jornalístico sem conceder às editoras controle exclusivo sobre os fatos que elas noticiam?

🧠 Treinar o Gemini pode ser permitido, segundo o parecer

Uma das partes mais importantes do caso é a distinção entre utilizar uma reportagem para gerar uma resposta e utilizar material protegido durante o treinamento de um modelo de IA.

Szpunar recomendou que o tribunal rejeitasse as duas questões relacionadas ao treinamento por considerá-las inadmissíveis no processo. Segundo ele, não havia provas de que os artigos da editora Like Company tivessem sido utilizados para treinar o Gemini.

O advogado-geral também considerou que o treinamento não constitui um uso on-line de publicações de imprensa para os fins discutidos no caso.

⚖️ A ressalva jurídica: o parecer acrescenta que o treinamento com obras protegidas pode, em regra, ser permitido pela exceção de mineração de textos e dados prevista na legislação europeia.

Isso não equivale a uma autorização irrestrita para qualquer utilização de conteúdo protegido. A aplicação das exceções depende do enquadramento jurídico pertinente, e o parecer não estabeleceu que o Google tenha treinado o Gemini com as reportagens questionadas.

A distinção é essencial: mesmo que determinada utilização seja permitida na etapa de treinamento, isso não resolve automaticamente a legalidade de reproduzir conteúdo protegido nas respostas oferecidas aos usuários.

🇭🇺 Como a disputa entre o Google e uma editora húngara começou

O processo foi iniciado pela Like Company, empresa húngara que administra diversos portais de notícias.

A editora processou a Google Irlanda perante o Tribunal Distrital de Budapeste, alegando que o Gemini reproduziu suas matérias em respostas a usuários entre junho de 2023 e maio de 2024.

O Google contestou a alegação de que as respostas do chatbot alcançariam um novo público e invocou exceções relacionadas a direitos autorais, incluindo a mineração de textos e dados.

O caso envolve o artigo 15 da Diretiva de Direitos Autorais da União Europeia, de 2019, que estabelece proteções específicas para publicações de imprensa em determinados usos on-line.

A interpretação dessas regras pode ser relevante para outros serviços de IA que utilizam conteúdo jornalístico para responder a perguntas, resumir acontecimentos ou apresentar informações extraídas de publicações.

🔍 O parecer já obriga o Google a mudar o Gemini?

Não. O documento divulgado é uma opinião jurídica do advogado-geral, e não a decisão final do Tribunal de Justiça da União Europeia.

Embora os juízes frequentemente acompanhem esse tipo de recomendação, eles não são obrigados a fazê-lo.

O tribunal ainda deverá emitir sua decisão. Depois disso, caberá à Justiça húngara resolver o mérito da disputa entre a editora e o Google.

O caso também não determina, por si só, que todas as respostas do Gemini ou de outros chatbots violem direitos autorais. A análise dependerá das circunstâncias concretas e dos critérios jurídicos que forem estabelecidos.

O próximo passo será decisivo: se os juízes seguirem a linha proposta por Szpunar, o setor poderá ganhar parâmetros mais claros para distinguir respostas legítimas de IA da reutilização que substitui o conteúdo original.

Para os jornais, o desafio é fazer com que a inteligência artificial continue sendo uma porta de entrada para a informação, e não uma alternativa que torne desnecessário visitar quem produziu a notícia.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir:
Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
Nenhum comentário