Cloudflare endurece regras e quer obrigar empresas de IA a pagar pelo conteúdo de sites

Renê Fraga
5 min de leitura

Principais destaques

  • A Cloudflare vai bloquear, por padrão, rastreadores de IA que misturam busca, treinamento de modelos e agentes inteligentes.
  • A nova política entra em vigor em 15 de setembro de 2026 e busca ampliar o controle dos editores sobre seus conteúdos.
  • A empresa também expande seu sistema de monetização, permitindo que publishers recebam quando seu conteúdo gerar valor para plataformas de inteligência artificial.

A Cloudflare anunciou uma mudança que pode alterar a forma como empresas de inteligência artificial acessam conteúdos publicados na internet.

A partir de 15 de setembro de 2026, a companhia passará a bloquear automaticamente rastreadores classificados como de “uso misto” em páginas que exibem anúncios. Esses bots são aqueles utilizados ao mesmo tempo para mecanismos de busca, treinamento de modelos de IA e funcionamento de agentes inteligentes.

A iniciativa representa mais um passo da empresa na tentativa de criar um modelo considerado mais sustentável para a relação entre plataformas de inteligência artificial e produtores de conteúdo.

Segundo a Cloudflare, muitos proprietários de sites desejam continuar aparecendo em mecanismos de busca e até em serviços de IA, mas não querem que seu trabalho seja utilizado gratuitamente para treinar modelos comerciais.

Cloudflare quer separar busca tradicional do uso para IA

De acordo com a empresa, diversos rastreadores atualmente desempenham múltiplas funções, tornando difícil para os editores decidirem exatamente como seu conteúdo poderá ser utilizado. Com a nova política, bots que misturam pesquisa na web, treinamento de IA e agentes autônomos serão bloqueados automaticamente, salvo se o proprietário do site optar por permitir esse acesso.

A mudança será aplicada aos novos clientes da Cloudflare, aos novos sites criados por clientes atuais e também a todos os usuários do plano gratuito. Na prática, a empresa pretende incentivar desenvolvedores de IA a utilizarem rastreadores separados para cada finalidade, oferecendo mais transparência aos donos de sites.

Google entra no debate sobre o uso de conteúdo

Sem citar diretamente o Google pelo nome, a Cloudflare afirmou que “o maior mecanismo de busca do mundo” possui acesso a uma quantidade muito maior de informações do que outras empresas de IA.

Segundo a companhia, isso acontece porque muitos administradores de sites encontram dificuldades para permanecer visíveis nos resultados de busca sem, ao mesmo tempo, permitir o uso de seus conteúdos em aplicações de inteligência artificial.

O Google já respondeu a críticas semelhantes anteriormente. A empresa destaca que oferece o Google Extended, ferramenta que permite aos sites impedir que seus conteúdos sejam utilizados no treinamento de modelos e produtos de IA, como Gemini Apps e Vertex AI, sem afetar sua presença na Pesquisa Google.

No entanto, o Googlebot continua sendo utilizado tanto para a indexação tradicional quanto para recursos baseados em IA, como AI Overviews e AI Mode.

Para Matthew Prince, cofundador e CEO da Cloudflare, o momento exige novas regras para preservar o ecossistema da internet. Segundo ele, o tráfego gerado por bots já ultrapassou o de usuários humanos, um marco que a empresa esperava observar apenas no próximo ano.

Novo modelo permite que publishers sejam remunerados

Além do bloqueio de rastreadores, a Cloudflare também está ampliando sua estratégia de monetização para criadores de conteúdo. O sistema conhecido como Pay Per Crawl, que cobrava empresas de IA pelo rastreamento das páginas, evoluirá para o modelo Pay Per Use.

Nesse novo formato, os publishers poderão receber sempre que seus conteúdos efetivamente gerarem valor dentro de plataformas de inteligência artificial, e não apenas quando forem acessados pelos rastreadores.

Segundo a Cloudflare, a medida também pode reduzir o consumo desnecessário de recursos dos sites. Dados internos da empresa indicam que mais da metade do tráfego gerado por rastreadores de IA corresponde à atualização repetida de páginas que sequer sofreram alterações.

Inicialmente, a empresa implementará o novo modelo em parceria com a Ceramic.ai e o You.com. Quando um publisher aderir ao programa, ele será remunerado sempre que seu conteúdo aparecer nos resultados da Ceramic ou quando informações premium forem utilizadas pelo You.com. A expectativa é que outras empresas de inteligência artificial adotem modelos semelhantes nos próximos meses.

A iniciativa reforça um debate cada vez mais presente no setor: como equilibrar o avanço acelerado da inteligência artificial com a remuneração justa de quem produz o conteúdo que alimenta esses sistemas.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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