Android alertou mais de 11 milhões de pessoas antes de terremotos na Venezuela

Renê Fraga
10 min de leitura

Principais destaques

  • O sistema de alertas de terremotos do Android enviou notificações antecipadas para cerca de 11,4 milhões de pessoas antes dos fortes tremores registrados na Venezuela.
  • A tecnologia, integrada ao Android desde 2021, utiliza os sensores dos próprios smartphones para identificar sinais iniciais de um terremoto em poucos segundos.
  • Atualmente, o recurso está disponível em 98 países e pode alcançar aproximadamente 2,5 bilhões de dispositivos Android em todo o mundo.

O sistema de alertas de terremotos do Android voltou a chamar a atenção após desempenhar um papel importante durante os dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho.

Segundo dados divulgados pelo Google, aproximadamente 11,4 milhões de pessoas receberam um aviso antecipado sobre os abalos sísmicos, permitindo que muitos usuários tivessem alguns segundos, e em determinados casos até dois minutos, para procurar um local mais seguro antes da chegada dos tremores mais intensos.

Embora alguns segundos possam parecer pouco tempo, especialistas em gestão de desastres afirmam que esse intervalo pode ser suficiente para interromper atividades perigosas, sair de elevadores, afastar-se de janelas, proteger crianças ou simplesmente adotar a posição recomendada para reduzir o risco de acidentes durante um terremoto.

As informações divulgadas mostram que os primeiros alertas começaram a ser enviados apenas nove segundos após o início do terremoto no subsolo. A partir desse momento, o sistema conseguiu calcular rapidamente quais regiões seriam atingidas pelas ondas sísmicas mais fortes e distribuir notificações para milhões de aparelhos Android localizados nessas áreas.

Como o Android transforma milhões de celulares em uma enorme rede de sensores

Diferentemente dos sistemas tradicionais, que dependem exclusivamente de equipamentos sísmicos instalados por órgãos governamentais, o recurso desenvolvido pelo Google aproveita um componente que já existe praticamente em qualquer smartphone moderno: o acelerômetro.

Esse sensor é responsável por identificar movimentos do aparelho e é utilizado diariamente por diversos recursos do celular, como a rotação automática da tela, aplicativos de exercícios físicos e jogos que respondem aos movimentos do usuário.

Quando um terremoto começa, as primeiras ondas sísmicas, conhecidas como ondas P, chegam antes das ondas mais destrutivas. Essas primeiras vibrações costumam ser mais fracas e viajam em velocidade maior. Caso milhares de celulares parados detectem esse mesmo padrão de movimento quase ao mesmo tempo, os aparelhos enviam informações anônimas para os servidores do Google.

O sistema cruza todos esses dados em poucos segundos. Se houver confirmações suficientes de que realmente está ocorrendo um terremoto, a plataforma calcula a região potencialmente afetada e dispara automaticamente alertas para os usuários que ainda podem ser atingidos pelos tremores mais fortes.

Todo esse processo acontece em questão de segundos e sem que o usuário precise realizar qualquer ação durante a emergência.

A quantidade de celulares influencia na velocidade dos alertas

Um dos fatores que tornam esse sistema eficiente é justamente a enorme quantidade de aparelhos Android espalhados pelo mundo.

Quanto maior o número de smartphones presentes em uma determinada região, mais rapidamente o Google consegue confirmar que um terremoto está acontecendo. Isso reduz o tempo necessário para validar os dados e aumenta as chances de que o alerta chegue antes da chegada das ondas sísmicas mais perigosas.

Para evitar falsos positivos, apenas celulares que estejam completamente parados participam da detecção. Smartphones em movimento, dentro de veículos ou sendo utilizados naquele momento, normalmente não entram no cálculo, já que seus sensores poderiam registrar vibrações que não têm relação com atividade sísmica.

Além disso, o sistema foi projetado para emitir alertas apenas em terremotos com magnitude igual ou superior a 4,5, evitando notificações desnecessárias para eventos de pequena intensidade.

Como funcionam as notificações de emergência

Nem todos os alertas enviados pelo Android possuem o mesmo nível de urgência. O sistema analisa fatores como intensidade prevista dos tremores e distância do usuário em relação ao epicentro para definir qual tipo de aviso será exibido.

Quando há expectativa de tremores fortes, o celular mostra um alerta em tela cheia, emite um som de alto volume e consegue até mesmo interromper o modo “Não Perturbe”. A intenção é garantir que a mensagem seja percebida imediatamente, mesmo durante a madrugada ou quando o aparelho estiver silenciado.

Se a previsão indicar apenas tremores leves, o usuário recebe uma notificação convencional, semelhante às demais notificações exibidas pelo sistema operacional.

Além do aviso, o Android também apresenta orientações básicas de segurança para ajudar as pessoas a reagirem rapidamente diante da situação.

Recurso já está disponível para bilhões de pessoas

Desde seu lançamento em 2021, o Sistema de Alertas de Terremotos do Android expandiu rapidamente sua cobertura. Hoje, ele está disponível em 98 países e territórios, permitindo que aproximadamente 2,5 bilhões de dispositivos tenham acesso a um sistema de alerta antecipado mesmo em locais onde não existe uma infraestrutura nacional específica para esse tipo de serviço.

Segundo o Google, até o ano passado a plataforma já havia detectado mais de 18 mil terremotos ao redor do mundo e enviado mais de 2 mil alertas oficiais aos usuários.

Na maior parte dos países, a função já vem ativada automaticamente nos aparelhos Android compatíveis. Quem quiser confirmar pode acessar Configurações, entrar em Segurança e emergência e selecionar Alertas de terremoto.

Existe apenas uma exceção importante nos Estados Unidos. Nos estados da Califórnia, Washington e Oregon, o Android utiliza como base os dados do sistema ShakeAlert, operado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Essa rede conta com aproximadamente 1.675 sensores sísmicos instalados especificamente para monitorar terremotos em tempo real, oferecendo um nível adicional de precisão nas notificações.

Tecnologia pode salvar vidas em grandes desastres

Ainda não há informações oficiais sobre quantas mortes ou feridos puderam ser evitados graças aos alertas enviados durante os terremotos na Venezuela. No entanto, especialistas concordam que qualquer ganho de tempo pode fazer diferença em situações de emergência.

Em escolas, hospitais, empresas e residências, alguns segundos podem permitir que pessoas se afastem de estruturas perigosas, interrompam procedimentos de risco ou adotem medidas simples de proteção antes da chegada dos tremores mais fortes.

O episódio também demonstra como uma tecnologia presente diariamente no bolso de bilhões de pessoas pode desempenhar um papel importante na prevenção de desastres naturais. Ao transformar smartphones em uma gigantesca rede colaborativa de sensores, o Google amplia o acesso aos sistemas de alerta precoce e leva esse tipo de proteção para regiões que antes não contavam com esse recurso.

Com a expansão contínua do Android Earthquake Alerts System, a expectativa é que cada vez mais países passem a contar com avisos rápidos e eficientes, mostrando como a inteligência aplicada aos dispositivos móveis pode contribuir não apenas para facilitar o dia a dia, mas também para aumentar a segurança da população diante de fenômenos naturais imprevisíveis.

Situação do recurso no Brasil e melhorias recentes do sistema

No Brasil, o Sistema de Alertas de Terremotos do Android também está disponível e funciona de forma automática na maioria dos aparelhos compatíveis. Apesar de o país não registrar terremotos de grande magnitude com frequência, o recurso permanece ativo como uma camada adicional de segurança, especialmente em regiões onde pequenos tremores já foram registrados ao longo dos anos.

O tema ganhou destaque recentemente após notificações inesperadas serem exibidas para alguns usuários brasileiros, o que levou o Google a revisar o funcionamento do sistema na região. Em resposta, a empresa informou que reativou rapidamente o recurso em abril do ano passado após implementar medidas significativas de mitigação.

Entre as mudanças, o Google reforçou as verificações internas para identificar padrões incomuns de vibração e ajustou critérios utilizados na detecção, reduzindo as chances de alertas falsos. A empresa também afirmou que passou a restringir melhor os parâmetros do sistema para garantir que apenas eventos realmente relevantes gerem notificações.

Segundo o Google, essas melhorias fazem parte de um processo contínuo de aperfeiçoamento da tecnologia, que depende diretamente da análise de dados em tempo real e do comportamento dos sensores distribuídos em milhões de dispositivos.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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