Google recua e remove recurso de IA do Google Earth menos de 24 horas após lançamento

Renê Fraga
7 min de leitura

Principais destaques

  • Google retirou do Google Earth uma nova ferramenta de inteligência artificial apenas um dia após seu lançamento.
  • O recurso permitia criar imagens geradas por IA sobre fotos reais de satélite, o que levantou preocupações com a disseminação de desinformação.
  • A empresa afirma que a funcionalidade voltará apenas depois da implementação de mecanismos de proteção mais robustos.

O Google precisou agir rapidamente após a estreia de um dos recursos mais polêmicos do ano. A empresa confirmou a retirada temporária da ferramenta experimental que permitia utilizar o modelo de inteligência artificial Nano Banana 2 para gerar imagens diretamente sobre mapas e fotografias de satélite do Google Earth.

A novidade havia sido apresentada como uma forma criativa de explorar o planeta, permitindo que usuários adicionassem construções, veículos, monumentos, vegetação e diversos outros elementos a qualquer localização utilizando apenas comandos de texto. O objetivo era facilitar apresentações, projetos de arquitetura, planejamento urbano, estudos ambientais e outras aplicações visuais.

No entanto, poucas horas depois da liberação da ferramenta, começaram a surgir exemplos mostrando como ela também poderia ser utilizada para criar cenas falsas extremamente convincentes. A repercussão foi tão negativa que o Google decidiu remover o recurso antes mesmo de completar 24 horas de disponibilidade.

Ferramenta gerava imagens falsas sobre locais reais

O diferencial da funcionalidade era justamente sua integração com o Google Earth. Em vez de criar uma imagem totalmente nova, como acontece em muitos geradores de IA, o sistema utilizava imagens reais de satélite como base e permitia acrescentar elementos artificiais em qualquer parte do mapa.

Na prática, bastava escrever um comando para modificar uma paisagem existente. Era possível solicitar a inclusão de prédios, florestas, veículos, estruturas industriais ou diversos outros objetos.

Embora o Google tenha apresentado a novidade como uma ferramenta voltada para criatividade e visualização de projetos, especialistas rapidamente alertaram que a tecnologia também poderia facilitar a produção de conteúdos enganosos.

A preocupação aumentou porque o Google Earth é considerado uma das plataformas mais confiáveis para consulta de imagens geográficas. Jornalistas, pesquisadores, equipes de resgate, órgãos públicos, urbanistas e profissionais de inteligência de fontes abertas, conhecidos pela sigla OSINT, utilizam diariamente o serviço para analisar acontecimentos reais ao redor do mundo.

Exemplos de uso indevido apareceram poucas horas após o lançamento

Logo após a liberação da ferramenta, usuários começaram a compartilhar imagens falsas nas redes sociais para demonstrar seu potencial de manipulação.

Entre os exemplos divulgados estavam crateras de explosões em áreas de conflito, instalações nucleares inexistentes, campos de refugiados, enchentes artificiais e até cenários inspirados em ataques terroristas. Embora fossem montagens produzidas por inteligência artificial, muitas delas apresentavam um nível de realismo suficiente para confundir pessoas que não soubessem sua origem.

Um dos comentários que mais repercutiram veio de um jornalista da BBC, que ironizou a decisão do Google afirmando que “certamente não haveria qualquer possibilidade” de uma ferramenta desse tipo ser usada para espalhar desinformação. A publicação rapidamente viralizou e foi compartilhada por pesquisadores especializados em verificação de imagens.

Especialistas em segurança digital também observaram que conteúdos gerados por IA podem circular isoladamente nas redes sociais, sem qualquer contexto. Assim, mesmo que uma imagem possua marca d’água indicando sua origem artificial, ela pode ser recortada, comprimida ou compartilhada de maneiras que dificultam a identificação dessa informação.

Google reconheceu o problema e decidiu voltar atrás

Em comunicado oficial, o Google afirmou que profissionais da área geoespacial encontraram aplicações úteis para a ferramenta, especialmente em projetos de planejamento, visualização e prototipagem.

Ao mesmo tempo, a empresa reconheceu que usuários passaram a compartilhar imagens que aparentavam violar suas políticas de uso.

Segundo o Google, a decisão foi retirar temporariamente o recurso enquanto desenvolve mecanismos de proteção mais eficientes para reduzir o risco de abuso.

A empresa também destacou um ponto importante: as imagens criadas por IA não eram incorporadas ao mapa público do Google Earth. Elas permaneciam apenas na experiência individual do usuário que as gerava e recebiam marcações indicando que haviam sido produzidas por inteligência artificial. Ainda assim, capturas de tela dessas imagens poderiam ser compartilhadas livremente na internet, o que motivou a suspensão da funcionalidade.

O episódio mostra um desafio crescente para a inteligência artificial

O caso do Google Earth ilustra um problema cada vez mais comum na indústria de tecnologia: quanto mais realistas se tornam os modelos de geração de imagens, maior também é o desafio para impedir seu uso malicioso.

O Nano Banana 2 é um dos modelos mais avançados do Google para criação e edição de imagens. Lançado em 2026, ele foi desenvolvido para oferecer maior fidelidade visual, melhor compreensão de comandos em linguagem natural e rapidez na geração de conteúdo. O modelo já está presente em diferentes produtos da empresa, como o Gemini, Google Search e plataformas para desenvolvedores.

Apesar dessas capacidades ampliarem possibilidades criativas para designers, arquitetos, professores e empresas, também aumentam a preocupação com a criação de imagens falsas utilizadas para manipular opiniões públicas, influenciar debates políticos ou divulgar informações incorretas durante desastres naturais e conflitos internacionais.

Pesquisadores têm alertado que o problema deixou de ser apenas a existência de imagens sintéticas. Hoje, o principal desafio é que esses conteúdos podem parecer evidências visuais legítimas quando são produzidos sobre plataformas reconhecidas e tradicionalmente confiáveis.

A rápida decisão do Google demonstra que empresas de tecnologia estão sendo pressionadas a equilibrar inovação e responsabilidade. Embora a inteligência artificial abra novas possibilidades para criação de conteúdo, também exige mecanismos capazes de preservar a confiança dos usuários em serviços utilizados diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo.

Até o momento, o Google não informou quando a ferramenta poderá voltar ao Google Earth nem quais serão as novas medidas de segurança que pretende implementar antes de disponibilizá-la novamente.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir:
Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
Nenhum comentário