Tráfego do Google Search para sites de notícias despenca 34% em um ano

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • O tráfego do Google Search para sites de notícias caiu 34% em apenas um ano, segundo dados da Chartbeat.
  • Recursos de inteligência artificial, como AI Overviews e AI Mode, estão reduzindo significativamente os cliques nos resultados orgânicos.
  • Editoras já adaptam suas estratégias para produzir conteúdo pensado não apenas para pessoas, mas também para ser citado pelas inteligências artificiais.

A forma como as pessoas utilizam o Google está passando pela maior transformação desde o lançamento do mecanismo de busca. Durante mais de duas décadas, pesquisar significava digitar uma pergunta, analisar uma lista de links e escolher qual site visitar.

Agora, essa dinâmica começa a ficar no passado. Com a chegada da inteligência artificial integrada à Busca, os usuários recebem respostas completas diretamente na página de resultados, reduzindo a necessidade de acessar outros sites.

Essa mudança já aparece nos números. Dados da plataforma de análise Chartbeat, compartilhados com o Axios, mostram que o tráfego enviado pelo Google Search para editoras caiu 34% no último ano.

O resultado confirma uma tendência observada desde o lançamento dos AI Overviews em 2024, mas que ganhou velocidade após a expansão do AI Mode, ferramenta que o Google informou ter ultrapassado a marca de 1 bilhão de usuários mensais em maio de 2026.

Para o mercado editorial, trata-se de uma das maiores mudanças já enfrentadas desde o surgimento das redes sociais. Durante muitos anos, o Google foi a principal porta de entrada para milhões de leitores em todo o mundo. Agora, boa parte dessas visitas deixa de acontecer porque a própria Busca entrega uma resposta suficientemente completa para resolver a dúvida do usuário.

O impacto não acontece de forma igual para todos. As pequenas editoras foram as mais prejudicadas, registrando uma perda de aproximadamente 60% do tráfego vindo da pesquisa nos últimos dois anos. Empresas de médio porte tiveram queda de 47%, enquanto grandes grupos de comunicação perderam cerca de 22% das referências provenientes do Google Search. Os números indicam que marcas mais conhecidas ainda conseguem preservar parte da audiência, mas nenhuma está imune às mudanças promovidas pela inteligência artificial.

Durante décadas, a identidade visual do Google foi construída sobre uma lista de links azuis organizados por relevância. Esse modelo praticamente definiu a navegação na internet e impulsionou o crescimento de milhões de sites, blogs e veículos de comunicação.

Com a evolução da inteligência artificial generativa, porém, a lógica mudou. Em vez de apresentar apenas links para que o usuário encontre a resposta por conta própria, o Google passou a responder diretamente às perguntas utilizando modelos de IA capazes de resumir informações de diversas fontes.

Os AI Overviews iniciaram essa transformação ao apresentar resumos automáticos acima dos resultados tradicionais. Já o AI Mode representa um passo ainda maior. A experiência se aproxima de um chatbot, permitindo perguntas mais longas, respostas detalhadas e conversas contínuas, tudo sem que o usuário precise abrir diversos sites para encontrar informações complementares.

Na prática, isso significa que muitos resultados orgânicos aparecem apenas depois que a página é rolada ou deixam de ser exibidos na primeira tela, dependendo do tipo de pesquisa realizada. Para muitos usuários, a resposta fornecida pela IA já é suficiente, eliminando completamente a etapa do clique.

Segundo Liz Reid, responsável pela divisão de Pesquisa do Google, essa é a maior transformação na Busca em mais de 25 anos. A declaração mostra que a empresa não encara a inteligência artificial como um recurso complementar, mas como o novo centro da experiência de pesquisa.

Essa mudança também altera a forma como as pessoas descobrem novos sites. Antes, bastava conquistar uma boa posição nos resultados para receber visitantes diariamente. Agora, mesmo conteúdos bem posicionados podem receber menos acessos caso a resposta gerada pela IA satisfaça a necessidade do usuário.

Comércio eletrônico também sente os efeitos

As consequências da nova Busca não atingem apenas editoras. O comércio eletrônico também começa a perceber mudanças importantes na visibilidade de seus produtos.

Um estudo divulgado pela Productrise analisou mais de 100 mil pesquisas relacionadas a compras realizadas durante 21 dias no mês de julho. O levantamento revelou que o AI Mode apresenta aproximadamente 95% menos listagens de produtos quando comparado ao formato tradicional da Busca.

Enquanto uma página comum do Google exibia cerca de 22,5 produtos, as respostas produzidas pela inteligência artificial mostravam, em média, apenas 4,3 opções. Isso significa que muitas lojas deixam simplesmente de aparecer diante do consumidor.

Para empresas que dependem do tráfego orgânico para gerar vendas, a mudança pode representar uma redução significativa na exposição de seus produtos. Em vez de disputar espaço entre dezenas de resultados, as marcas passam a competir por poucas recomendações selecionadas pela inteligência artificial.

Especialistas ressaltam que isso não significa necessariamente menos oportunidades de venda, já que uma conversa com a IA pode gerar novas recomendações ao longo da interação. Ainda assim, a visibilidade inicial tende a ser muito menor do que ocorria na pesquisa tradicional.

Do SEO para o GEO: uma nova estratégia para aparecer na Busca

Durante anos, profissionais de marketing digital investiram em SEO, conjunto de técnicas voltadas para melhorar o posicionamento nos resultados do Google. A chegada da inteligência artificial criou uma nova necessidade: ser escolhido como fonte pelas respostas geradas pelos modelos de IA.

É nesse contexto que ganha força o conceito de GEO, sigla para Generative Engine Optimization. A proposta é adaptar conteúdos para que possam ser facilmente compreendidos, resumidos e citados pelas inteligências artificiais.

Na prática, isso envolve produzir textos mais claros, utilizar títulos objetivos, estruturar informações em tópicos, apresentar dados confiáveis e identificar corretamente as fontes utilizadas. Quanto mais organizado estiver o conteúdo, maiores podem ser as chances de ele servir como base para uma resposta da IA.

Outra recomendação frequente é investir em dados estruturados, elementos técnicos que ajudam os mecanismos de busca a compreenderem melhor o conteúdo publicado. Embora continuem importantes para o SEO tradicional, esses recursos passam a desempenhar papel ainda mais relevante na era da pesquisa baseada em inteligência artificial.

O Axios destacou que seu formato editorial Smart Brevity, conhecido por apresentar as informações mais importantes logo no início do texto e organizar os assuntos por ordem de relevância, tem sido frequentemente citado pelos principais modelos de linguagem. O exemplo mostra que escrever de maneira objetiva pode favorecer tanto os leitores quanto os sistemas de IA.

Editoras aceleram a busca por novas fontes de audiência

Diante da redução constante do tráfego vindo do Google Search, empresas de mídia começam a diminuir sua dependência da pesquisa orgânica.

Uma das principais apostas está no fortalecimento de newsletters, que permitem criar uma relação direta com os leitores sem depender dos algoritmos de plataformas externas. Aplicativos próprios, programas de assinatura, eventos presenciais e comunidades exclusivas também aparecem entre as estratégias adotadas para fidelizar o público.

Outro movimento importante envolve acordos de licenciamento de conteúdo com empresas de inteligência artificial. Em vez de tratar os modelos generativos apenas como concorrentes, algumas editoras passaram a negociar o uso de seus conteúdos em troca de remuneração ou de outras formas de parceria.

Ao mesmo tempo, plataformas como o Substack reforçam a importância da produção de conteúdo original. Recentemente, a empresa anunciou uma parceria com a Pangram, especializada em detecção de textos produzidos por inteligência artificial, e criticou plataformas que, segundo ela, acabam incentivando a publicação em massa de conteúdos gerados automaticamente.

Esse cenário mostra que o futuro da distribuição de informação tende a ser muito mais diversificado do que na era em que o Google concentrava boa parte do acesso aos sites.

A Busca do Google entra em uma nova fase

A queda de 34% no tráfego registrada pela Chartbeat representa mais do que uma simples oscilação nas métricas de audiência. Ela sinaliza uma mudança estrutural na maneira como o conhecimento circula pela internet.

Se durante décadas o objetivo das empresas era conquistar um lugar entre os primeiros resultados do Google, agora surge um novo desafio: tornar-se uma fonte confiável para as respostas produzidas pela inteligência artificial.

Para criadores de conteúdo, jornalistas, empresas e profissionais de marketing, adaptar-se rapidamente será essencial. A disputa deixa de acontecer apenas entre páginas de resultados e passa a ocorrer dentro das próprias respostas geradas pela IA, redefinindo o papel do Google Search e transformando a relação entre usuários, mecanismos de busca e produtores de conteúdo.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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