Google corrige mais falhas no Chrome em um único mês do que nos últimos dois anos graças à inteligência artificial

Renê Fraga
7 min de leitura

Principais destaques

  • O Google corrigiu 1.072 vulnerabilidades nas duas últimas versões do Chrome, um recorde histórico para o navegador.
  • A empresa atribui o salto ao uso de inteligência artificial, especialmente do modelo Gemini, para localizar e corrigir falhas antes que elas sejam exploradas por criminosos.
  • O aumento no número de vulnerabilidades identificadas levou o Google a acelerar o ritmo das atualizações de segurança e estudar mudanças para que o Chrome seja atualizado sem precisar ser reiniciado.

A inteligência artificial está transformando a segurança digital em um ritmo muito mais acelerado do que especialistas imaginavam há poucos anos.

Um dos exemplos mais claros dessa mudança vem do Google, que anunciou ter corrigido 1.072 falhas de segurança nas duas versões mais recentes do Chrome, lançadas em junho.

O número impressiona porque supera o total de vulnerabilidades corrigidas nas 23 versões anteriores do navegador, que juntas somaram 1.036 correções ao longo de aproximadamente dois anos.

Os números fazem parte de um relatório técnico divulgado pela equipe de engenharia do Chrome, no qual o Google detalha como suas ferramentas de inteligência artificial passaram a desempenhar um papel central na descoberta de falhas de segurança.

A empresa afirma que os modelos de IA conseguem analisar grandes volumes de código, identificar padrões suspeitos e sugerir correções muito antes que esses problemas sejam encontrados por invasores ou pesquisadores externos.

Essa mudança representa um novo momento para a segurança cibernética. Durante anos, especialistas alertaram que a inteligência artificial poderia facilitar a descoberta de vulnerabilidades por criminosos.

Agora, a mesma tecnologia também está sendo usada pelos desenvolvedores para fortalecer seus próprios sistemas, iniciando uma corrida tecnológica entre quem protege e quem tenta explorar falhas.

Gemini acelera a descoberta de vulnerabilidades

Segundo o Google, modelos como o Gemini passaram a integrar diversas etapas do desenvolvimento do Chrome. A inteligência artificial auxilia desde a análise automática do código até a identificação de possíveis comportamentos inseguros e a priorização das correções mais urgentes.

Doug Turner, diretor de engenharia do Chrome, afirmou que os grandes modelos de linguagem mudaram completamente a economia da segurança digital. Na prática, tarefas que antes dependiam exclusivamente da análise manual de especialistas agora podem ser executadas em escala por sistemas inteligentes, permitindo que milhares de linhas de código sejam examinadas em muito menos tempo.

O Google destaca que a IA não trabalha sozinha. As descobertas feitas pelos modelos passam por validação dos engenheiros antes das correções serem incorporadas ao navegador. Ainda assim, a empresa afirma que a produtividade da equipe aumentou significativamente desde a adoção dessas ferramentas.

Além disso, os modelos são treinados utilizando vulnerabilidades históricas, alterações anteriores no código do Chromium e informações sobre ataques conhecidos. Isso permite que a IA reconheça padrões semelhantes em componentes antigos e até em partes do navegador que já não recebem tantas modificações pelos desenvolvedores.

O Chrome poderá receber atualizações sem precisar ser reiniciado

O crescimento explosivo na quantidade de vulnerabilidades encontradas trouxe um novo desafio para o Google: distribuir correções cada vez mais rapidamente.

Por isso, a empresa anunciou que está trabalhando em um sistema de atualizações dinâmicas, capaz de aplicar parte das correções sem exigir que o usuário reinicie o navegador. A proposta é reduzir o tempo em que computadores permanecem vulneráveis depois que uma falha é descoberta.

Hoje, muitos ataques exploram justamente esse intervalo entre a disponibilização da atualização e sua instalação pelos usuários. Esses ataques são conhecidos como N-day attacks, nos quais criminosos aproveitam que uma vulnerabilidade já foi divulgada, mas ainda não foi corrigida em milhões de dispositivos.

A visão de longo prazo do Google é manter o Chrome permanentemente atualizado em segundo plano, realizando reinicializações automáticas apenas quando elas não interferirem na experiência do usuário. Em computadores com macOS, por exemplo, parte desse sistema já começou a ser implementada quando o navegador permanece aberto em segundo plano, sem janelas visíveis.

Como consequência desse novo cenário, o Chrome também deve adotar um ciclo ainda mais frequente de distribuição de correções de segurança. O Google já confirmou que pretende reduzir o intervalo entre atualizações e estuda liberar patches até duas vezes por semana caso o volume de vulnerabilidades continue crescendo.

A inteligência artificial está mudando toda a indústria

O Google não é o único gigante da tecnologia a registrar esse aumento no número de vulnerabilidades encontradas. Nas últimas semanas, a Microsoft também anunciou um volume recorde de falhas corrigidas em seus produtos durante o tradicional Patch Tuesday, atribuindo parte desse crescimento ao uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial para localizar problemas de segurança.

A tendência indica que o aumento nas correções não significa necessariamente que os softwares estejam ficando menos seguros. Pelo contrário. Especialistas avaliam que a IA está tornando a descoberta de vulnerabilidades muito mais eficiente, revelando problemas que antes permaneciam escondidos por anos.

Outro fator importante é que boa parte das falhas encontradas recentemente não foi reportada por pesquisadores externos. Em algumas versões recentes do Chrome, a maioria das vulnerabilidades foi identificada pelas próprias ferramentas internas do Google, reforçando o avanço da automação na segurança digital.

Enquanto isso, a Apple mantém um ritmo mais estável na divulgação de vulnerabilidades corrigidas. Até o momento, não há indícios de um crescimento semelhante ao observado em Google e Microsoft, o que pode refletir diferenças tanto na estratégia de desenvolvimento quanto nas ferramentas utilizadas para auditoria de código.

Para os usuários, a principal recomendação continua sendo simples: manter o navegador sempre atualizado. Com a inteligência artificial acelerando tanto a descoberta quanto a exploração de falhas, instalar rapidamente as novas versões do Chrome passa a ser ainda mais importante para reduzir riscos de ataques e proteger dados pessoais.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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