Google quer atualizar o Chrome sem reiniciar o navegador

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • O Google está desenvolvendo uma tecnologia que permitirá instalar atualizações do Chrome sem exigir uma reinicialização completa do navegador.
  • A empresa quer reduzir o chamado “patch gap”, período em que milhões de usuários continuam vulneráveis mesmo após uma correção já estar disponível.
  • Ferramentas baseadas em inteligência artificial encontraram tantas falhas de segurança que o Chrome registrou mais de 1.000 correções nas versões 149 e 150, um número superior ao total das 23 versões anteriores somadas.

Durante anos, atualizar o Google Chrome significou praticamente a mesma coisa: baixar uma nova versão, aparecer um aviso para reiniciar o navegador e, muitas vezes, adiar esse processo para não interromper o trabalho. Essa rotina pode estar com os dias contados.

O Google revelou que está desenvolvendo uma tecnologia capaz de aplicar atualizações importantes sem que o usuário precise fechar completamente o navegador. A novidade faz parte de uma estratégia muito maior, que envolve inteligência artificial, novos métodos para encontrar vulnerabilidades e uma mudança na forma como o Chrome receberá atualizações de segurança.

A empresa acredita que a proteção dos usuários não depende apenas da velocidade com que consegue corrigir um problema. O verdadeiro desafio começa depois que a atualização é lançada, já que milhões de pessoas continuam utilizando versões antigas simplesmente porque ainda não reiniciaram o navegador.

Segundo o Google, eliminar essa etapa pode reduzir significativamente os riscos de ataques e tornar a navegação muito mais segura para todos.

O maior problema não é criar a atualização, mas fazer as pessoas instalarem

Quando uma falha de segurança é descoberta, os engenheiros do Chrome normalmente conseguem analisar o problema, produzir uma correção, realizar todos os testes necessários e disponibilizar uma atualização em apenas um ou dois dias.

No entanto, existe um intervalo considerado extremamente perigoso pelos especialistas em segurança digital.

Esse período é conhecido como patch gap, expressão usada para definir o tempo entre a publicação da correção e o momento em que ela realmente passa a proteger o computador do usuário.

Na prática, a atualização já está disponível, mas ela continua sem efeito porque o navegador permanece aberto durante dias ou até semanas.

É justamente nesse intervalo que criminosos costumam agir.

Quando uma correção é publicada, pesquisadores e criminosos conseguem analisar as mudanças realizadas no código para descobrir exatamente qual vulnerabilidade foi corrigida. A partir daí, grupos mal-intencionados tentam explorar computadores que ainda utilizam versões antigas do navegador.

Esses ataques são conhecidos como N-day attacks. Diferentemente dos famosos ataques “zero-day”, que exploram vulnerabilidades ainda desconhecidas, os ataques N-day aproveitam falhas que já possuem correção disponível, mas que ainda não foram instaladas pelos usuários.

É justamente esse cenário que o Google quer eliminar.

Como o Chrome poderá ser atualizado sem reiniciar

A solução pesquisada pela equipe do Chrome recebeu o nome de dynamic patching, ou atualização dinâmica.

Hoje, quando uma nova versão do navegador é instalada, praticamente todo o programa precisa ser encerrado e iniciado novamente para que os novos arquivos substituam os antigos.

O Google pretende mudar esse comportamento.

Em vez de reiniciar todo o navegador, a ideia é substituir apenas processos específicos que funcionam em segundo plano.

Isso será possível graças à arquitetura multiprocessos do Chrome.

Ao contrário de navegadores antigos, o Chrome divide suas tarefas em diversos processos independentes. Cada aba, por exemplo, roda separadamente do restante do navegador. O mesmo acontece com componentes responsáveis pela renderização das páginas, aceleração gráfica, processamento de vídeos e outros recursos internos.

Essa divisão permite que determinados componentes sejam substituídos por versões atualizadas sem que toda a aplicação precise ser encerrada.

Na prática, o usuário poderá continuar navegando enquanto partes internas do navegador recebem novos arquivos de forma praticamente invisível.

O Google afirma que ainda está pesquisando essa tecnologia e que um dos maiores desafios é garantir que toda a sessão do usuário seja preservada.

Isso significa manter abas abertas, formulários preenchidos, vídeos em reprodução, autenticações e outras informações exatamente como estavam antes da atualização.

A empresa também trabalha em mecanismos para armazenar ainda mais informações da sessão localmente, garantindo que qualquer reinicialização inevitável seja praticamente imperceptível.

O objetivo de longo prazo é simples: fazer com que o Chrome permaneça sempre atualizado sem exigir nenhuma ação do usuário.

Reinicializações automáticas já começaram no macOS

Enquanto essa tecnologia ainda está em desenvolvimento, o Google já começou a implementar pequenas mudanças para reduzir a quantidade de reinicializações manuais.

No Chrome 150 para macOS, por exemplo, o navegador já consegue identificar momentos em que nenhuma janela está aberta, embora o aplicativo continue funcionando em segundo plano.

Quando existe uma atualização pendente nessa situação, o Chrome pode reiniciar automaticamente, instalar a nova versão e voltar a funcionar antes mesmo que o usuário perceba.

Segundo o Google, essa estratégia aproveita uma característica do sistema operacional da Apple, que mantém aplicativos ativos mesmo após todas as janelas serem fechadas.

A expectativa é ampliar esse tipo de comportamento para outros cenários, sempre procurando momentos em que a atualização cause o menor impacto possível na rotina das pessoas.

Inteligência artificial está revolucionando a segurança do Chrome

Outro anúncio importante envolve o uso crescente de inteligência artificial dentro da equipe responsável pela segurança do navegador.

O Google revelou que começou a utilizar grandes modelos de linguagem para auxiliar na identificação de vulnerabilidades ainda em 2023.

Desde então, o projeto evoluiu rapidamente.

Hoje, agentes baseados no Gemini e em outros modelos especializados analisam enormes quantidades de código automaticamente em busca de padrões que indiquem possíveis problemas de segurança.

Esse trabalho permitiu encontrar vulnerabilidades muito antigas que nunca haviam sido detectadas por revisões humanas.

Um dos casos mais impressionantes foi a descoberta de uma falha que permaneceu escondida no código do Chrome durante 13 anos.

Além de localizar vulnerabilidades, esses sistemas também conseguem sugerir possíveis correções e até gerar testes automáticos para verificar se a solução realmente funciona em todas as plataformas compatíveis com o navegador.

IA também ajuda a corrigir falhas

O Google explicou que não utiliza apenas um modelo de inteligência artificial.

Na prática, existe um fluxo composto por diversos agentes especializados.

O primeiro agente recebe todas as informações sobre a vulnerabilidade e produz diferentes propostas de correção.

Em seguida, outro agente atua como um revisor técnico, avaliando qual solução segue melhor os padrões do Chromium e as regras internas de desenvolvimento.

Depois disso, outros modelos escrevem testes automáticos capazes de verificar o funcionamento da correção em diferentes sistemas operacionais, arquiteturas e configurações do navegador.

Somente após todas essas etapas os desenvolvedores humanos analisam o resultado antes da aprovação final.

Segundo o Google, essa automação pode economizar semanas de trabalho em determinadas correções e permite que os engenheiros concentrem seus esforços em problemas mais complexos.

Segurança continua sendo prioridade

Apesar do uso intenso de inteligência artificial, o Google afirma que todo o processo acontece dentro de ambientes altamente controlados.

Os modelos analisam apenas o código-fonte armazenado internamente e executam suas tarefas em máquinas isoladas, sem acesso livre à internet.

Além disso, todas as conexões de rede passam por listas rigorosas de autorização, impedindo qualquer comunicação não prevista.

Os agentes também não possuem permissão para modificar arquivos fora dos diretórios autorizados nem executar ações irrestritas sobre os sistemas internos.

Segundo a empresa, essas medidas evitam que a própria IA represente um novo vetor de risco durante o desenvolvimento do navegador.

Mais vulnerabilidades encontradas significam um navegador mais seguro

À primeira vista, ouvir que o Chrome corrigiu mais de mil vulnerabilidades pode parecer uma notícia preocupante.

Na realidade, acontece exatamente o contrário.

O crescimento expressivo no número de correções não significa necessariamente que o navegador ficou menos seguro.

Na visão do Google, esse aumento demonstra que as novas ferramentas de inteligência artificial estão conseguindo encontrar problemas que antes passavam despercebidos.

Nas versões Chrome 149 e Chrome 150 foram corrigidas 1.072 vulnerabilidades de segurança, superando o total de falhas corrigidas ao longo dos 23 ciclos anteriores do navegador. O volume de descobertas também motivou a empresa a acelerar seu calendário de atualizações para acompanhar a velocidade com que novas vulnerabilidades estão sendo identificadas.

Atualizações serão mais frequentes

Toda essa evolução também explica outra mudança importante anunciada pelo Google.

Ainda este ano, o Chrome passará a receber novas versões estáveis em intervalos menores, reduzindo o tempo entre uma atualização e outra.

A intenção é diminuir o período em que uma vulnerabilidade permanece disponível para exploração depois de descoberta.

Na prática, usuários deverão receber correções com muito mais frequência do que acontecia até poucos anos atrás.

Embora isso possa parecer um aumento no número de atualizações, a estratégia busca justamente reduzir riscos e tornar a instalação dessas correções praticamente automática.

Se os planos do Google forem bem-sucedidos, no futuro o navegador poderá permanecer permanentemente atualizado, aplicando novas proteções em segundo plano, preservando todas as abas abertas e praticamente eliminando a necessidade de intervenção do usuário.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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