Pichai imagina o Google Search se tornando um ‘gerenciador de agentes’

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • O Google planeja transformar o Search em uma ferramenta capaz de executar tarefas completas de forma autônoma
  • Sundar Pichai aposta em um futuro com múltiplos agentes de IA trabalhando simultaneamente para o usuário
  • A evolução acompanha o avanço acelerado de modelos como Gemini e a crescente competição global no setor

O que hoje conhecemos como busca online pode estar prestes a passar por uma das maiores transformações de sua história.

Em uma entrevista recente, o CEO do Google, Sundar Pichai, compartilhou uma visão que vai muito além da simples entrega de links ou respostas diretas: o Search deve se tornar um verdadeiro “gerenciador de agentes”.

Na prática, isso significa que a busca deixará de ser apenas uma ferramenta de consulta para se tornar um sistema ativo, capaz de executar tarefas completas em nome do usuário. Em vez de pesquisar, comparar e decidir manualmente, as pessoas poderão delegar processos inteiros à inteligência artificial, que cuidará de tudo nos bastidores.

Essa mudança representa uma quebra de paradigma na forma como interagimos com a internet, aproximando o Search de um assistente digital altamente autônomo e inteligente.

Do buscador tradicional a um sistema que age por você

Durante décadas, o funcionamento da busca foi relativamente simples: o usuário digita uma pergunta e recebe uma lista de resultados. Mesmo com avanços como respostas diretas e painéis informativos, o papel final de decisão sempre esteve nas mãos humanas.

A proposta de Pichai muda completamente essa lógica. Segundo ele, muitas das buscas atuais deixarão de ser apenas informativas e passarão a ser “agênticas”, ou seja, orientadas à execução de tarefas.

Isso significa que o usuário poderá, por exemplo, pedir ao Search para organizar uma viagem inteira, gerenciar compromissos ou até conduzir processos mais complexos, como pesquisas de mercado ou planejamento financeiro. Em vez de navegar por dezenas de páginas, a pessoa receberá o resultado pronto ou em andamento.

Além disso, esses processos não precisarão acontecer de forma instantânea. O Google imagina tarefas que continuam rodando ao longo do tempo, de forma assíncrona, atualizando resultados e tomando decisões conforme novas informações surgem.

A inspiração em sistemas internos e o conceito de múltiplos agentes

Essa visão não surgiu do nada. Pichai citou ferramentas internas do próprio Google, como o sistema Antigravity, onde funcionários já utilizam múltiplos agentes de inteligência artificial trabalhando em paralelo para executar tarefas complexas.

A ideia é levar esse modelo para o público geral. Em vez de um único assistente respondendo perguntas, o Search poderá coordenar vários agentes ao mesmo tempo, cada um responsável por uma parte do processo.

Por exemplo, enquanto um agente busca informações, outro pode analisar dados, um terceiro pode tomar decisões e um quarto pode executar ações externas. Tudo isso de forma integrada e invisível para o usuário.

Esse conceito aproxima o Search de um verdadeiro “sistema operacional de tarefas”, capaz de gerenciar fluxos complexos com pouca intervenção humana.

Rebatendo a ideia de que o Google ficou para trás

Durante a conversa, Pichai também abordou uma crítica recorrente: a de que o Google teria perdido a liderança em inteligência artificial, mesmo sendo responsável por avanços fundamentais como a arquitetura Transformer.

Ele classificou essa narrativa como incompleta. Segundo o executivo, tecnologias como BERT e MUM já trouxeram melhorias significativas para o Search, elevando a qualidade das respostas muito antes da popularização de ferramentas conversacionais.

Esses modelos foram aplicados diretamente em produtos reais, beneficiando bilhões de usuários, ainda que de forma menos visível do que os chatbots modernos.

Pichai também comentou sobre o LaMDA, um sistema interno que já apresentava capacidades semelhantes às de assistentes conversacionais atuais. No entanto, ele destacou que a empresa optou por não lançá-lo ao público naquele momento devido a preocupações com segurança e qualidade.

Segundo ele, o modelo ainda apresentava comportamentos considerados inadequados, e o Google preferiu esperar até atingir um nível mais alto de confiabilidade antes de disponibilizar algo semelhante ao que hoje vemos no mercado.

A evolução acelerada dos modelos e o papel do Gemini

Nos últimos anos, o Google acelerou significativamente o desenvolvimento de seus modelos de IA. A família Gemini se tornou o centro dessa estratégia, com avanços consistentes em raciocínio, compreensão multimodal e execução de tarefas complexas.

Esses modelos não apenas respondem perguntas, mas também interpretam imagens, analisam dados, geram código e interagem com diferentes tipos de conteúdo. Esse conjunto de capacidades é essencial para viabilizar a visão de um Search mais ativo e autônomo.

Além disso, o Gemini vem sendo integrado a diversos produtos do Google, como Gmail, Drive e Agenda, criando um ecossistema onde a IA pode acessar contexto real do usuário para oferecer soluções mais personalizadas.

Essa integração é um dos pilares para transformar o Search em um gerenciador de agentes, já que permite que a IA não apenas entenda o pedido, mas também execute ações concretas dentro dos serviços utilizados no dia a dia.

2027 como ponto de virada para a IA agêntica

Pichai destacou que a transformação proposta não deve acontecer de forma imediata, mas sim ao longo dos próximos anos. Ele apontou 2027 como um possível marco para a consolidação da chamada IA agêntica em escala mais ampla.

Atualmente, essa abordagem já começa a impactar áreas como desenvolvimento de software, mas ainda enfrenta desafios em setores mais amplos. Questões como acesso a dados, permissões e adaptação organizacional ainda limitam a adoção em empresas.

No entanto, a expectativa é que esses obstáculos sejam superados gradualmente, permitindo que agentes de IA assumam papéis mais relevantes em áreas como marketing, finanças e operações.

Esse movimento é acompanhado por um crescimento expressivo do mercado, que deve atingir dezenas de bilhões de dólares até o fim da década.

A corrida global e os investimentos bilionários

O cenário competitivo também pressiona o Google a avançar rapidamente. Empresas como OpenAI e Anthropic seguem lançando modelos cada vez mais avançados, especialmente em áreas como codificação e raciocínio criativo.

Para acompanhar esse ritmo, o Google tem investido pesado em infraestrutura. A empresa projeta gastos entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões em 2026, grande parte direcionada ao desenvolvimento e operação de sistemas de inteligência artificial.

Mesmo com esse volume de investimento, Pichai reconhece que existem limitações importantes, como a disponibilidade de chips, energia e recursos computacionais. Esses fatores podem influenciar a velocidade com que novas tecnologias chegam ao mercado.

Ainda assim, o executivo destacou que a evolução dos modelos é extremamente rápida e deve trazer mudanças significativas em curto prazo.

O futuro da busca e uma nova relação com a internet

Se a visão apresentada por Pichai se concretizar, o impacto para os usuários será profundo. A forma como interagimos com a internet pode deixar de ser baseada em pesquisa e navegação para se tornar centrada em delegação e resultados.

O Search deixaria de ser apenas uma ferramenta de descoberta para se tornar um agente ativo, capaz de agir, decidir e executar tarefas com autonomia crescente.

Isso não apenas mudaria a experiência do usuário, mas também transformaria a própria estrutura da web, com menos cliques e mais ações automatizadas acontecendo nos bastidores.

Mais do que uma evolução incremental, trata-se de uma redefinição do papel da busca na era da inteligência artificial.

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Seguir:
Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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