Google muda política de dados e pode usar suas pesquisas para treinar IA

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • O Google passou a separar as configurações de histórico dos serviços de pesquisa, permitindo que imagens, áudios, vídeos e outros arquivos salvos possam contribuir para o desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.
  • A alteração afeta diversos produtos da empresa, incluindo Pesquisa, Maps, Lens, Shopping, Flights, Hotels, Tradutor e News, e não apenas o buscador tradicional.
  • Usuários continuam tendo opções para limitar o armazenamento dessas informações, mas precisam revisar as novas configurações de privacidade, já que elas passaram a funcionar de forma independente de ajustes antigos.

O Google promoveu uma mudança discreta, mas bastante significativa, em suas configurações de privacidade. A alteração passou despercebida por muitos usuários, porém modifica a forma como determinados conteúdos enviados aos serviços de pesquisa da empresa podem ser armazenados e utilizados para aprimorar tecnologias baseadas em inteligência artificial.

Segundo informações divulgadas pelo TechCrunch, a empresa comunicou a novidade por meio de um e-mail enviado aos clientes durante o mês de junho. Em vez de apresentar um novo recurso de IA, o Google reorganizou suas opções de histórico e personalização, criando categorias específicas para os serviços de pesquisa. Na prática, isso amplia a quantidade de dados que podem ser utilizados para melhorar seus sistemas, desde que essas configurações permaneçam ativadas.

Embora o Google afirme que as mudanças oferecem mais transparência e controle aos usuários, especialistas em privacidade observam que muitas pessoas podem não perceber que essas novas opções já estão habilitadas em suas contas, permitindo o armazenamento de diferentes tipos de mídia para desenvolvimento e aperfeiçoamento de produtos.

O que realmente mudou nas configurações do Google

Até pouco tempo, grande parte do histórico relacionado às pesquisas realizadas no Google era administrada por meio da conhecida configuração Atividade na Web e de Apps. Com a atualização, parte dessas informações passou a ser gerenciada separadamente em um novo painel chamado Histórico dos Serviços de Pesquisa.

Essa divisão cria uma diferença importante. Mesmo que um usuário já tenha revisado suas configurações de privacidade anteriormente, isso não significa que as novas opções estejam configuradas da mesma maneira. Em outras palavras, alterar apenas a antiga configuração de atividade na Web já não é suficiente para controlar todos os dados relacionados aos serviços de pesquisa.

Além do novo histórico, o Google também introduziu uma configuração específica de Personalização dos Serviços de Pesquisa, responsável por utilizar informações armazenadas para oferecer recomendações mais relevantes e adaptar a experiência em seus diferentes produtos.

Segundo a documentação da empresa, esses dados ajudam a tornar as pesquisas mais úteis, personalizar resultados, desenvolver novos recursos, fortalecer mecanismos de segurança e também melhorar tecnologias de inteligência artificial generativa.

Quais tipos de dados podem ser utilizados

Um dos pontos que mais chamou atenção é a ampliação dos tipos de conteúdo que podem ser armazenados. Não se trata apenas das pesquisas digitadas na barra de busca.

Agora, dependendo das configurações da conta, também podem ser salvos:

  • fotografias enviadas ao Google Lens;
  • imagens anexadas durante pesquisas visuais;
  • arquivos utilizados em determinados recursos de busca;
  • gravações de voz feitas em pesquisas por áudio;
  • áudios enviados ao Google Tradutor durante exercícios de pronúncia;
  • outros conteúdos multimídia produzidos durante a utilização dos serviços de pesquisa.

Na documentação oficial, o Google informa que mídias salvas podem ser utilizadas para desenvolver e melhorar seus serviços e tecnologias, incluindo modelos de inteligência artificial e recursos relacionados à segurança da plataforma.

A empresa também explica que parte desses dados permanece armazenada temporariamente apenas para garantir o funcionamento correto dos produtos. No entanto, algumas informações podem ser preservadas por períodos maiores quando associadas ao histórico salvo pelo usuário, sempre respeitando as configurações definidas na conta.

Mudança não afeta apenas a Pesquisa do Google

Um detalhe importante é que a novidade vai muito além do buscador tradicional acessado pelo navegador.

As novas configurações abrangem praticamente todo o ecossistema de pesquisa da empresa. Isso inclui ferramentas bastante utilizadas diariamente por milhões de pessoas.

Entre os serviços impactados estão:

  • Google Search;
  • Google Maps;
  • Google Lens;
  • Google Shopping;
  • Google Flights;
  • Google Hotels;
  • Google Tradutor;
  • Google News.

Na prática, um simples hábito cotidiano pode gerar informações armazenadas. Imagine fotografar uma planta usando o Google Lens para descobrir sua espécie. Dependendo das configurações ativas, essa imagem poderá fazer parte do histórico dos serviços de pesquisa.

O mesmo acontece com pesquisas realizadas por comando de voz no aplicativo do Google. As gravações podem ser armazenadas, assim como exercícios de pronúncia feitos no Tradutor quando o usuário utiliza recursos para praticar idiomas.

Essa integração demonstra que a coleta de dados para aperfeiçoar serviços de IA deixou de estar limitada ao mecanismo de busca tradicional e passou a abranger praticamente toda a experiência de pesquisa oferecida pelo Google.

Uma tendência cada vez mais forte entre empresas de tecnologia

O movimento do Google acompanha uma estratégia que vem sendo adotada por diversas empresas do setor de tecnologia.

Nos últimos anos, o treinamento de modelos de inteligência artificial dependia principalmente de grandes quantidades de conteúdo disponível publicamente na internet. Com o avanço das IAs generativas, porém, empresas passaram a buscar novas fontes de informação capazes de representar interações reais dos usuários.

Nesse cenário, conteúdos criados dentro dos próprios serviços ganharam enorme importância. Fotografias, pesquisas por voz, arquivos enviados e diferentes formas de interação passaram a ajudar no desenvolvimento de novos recursos, desde que estejam autorizados pelas configurações de privacidade de cada plataforma.

Essa estratégia permite que as empresas obtenham exemplos mais atuais de linguagem, imagens e comportamentos de uso, contribuindo para tornar seus sistemas mais precisos e eficientes.

Ao mesmo tempo, o tema também desperta debates sobre transparência, consentimento e proteção da privacidade, especialmente porque muitos usuários raramente revisam as configurações de suas contas após criarem um serviço.

Como revisar suas configurações de privacidade

A boa notícia é que os usuários continuam tendo controle sobre essas opções.

Nas páginas de Histórico dos Serviços de Pesquisa e Personalização dos Serviços de Pesquisa, é possível alterar a forma como essas informações são utilizadas.

Entre as opções disponíveis estão:

  • desativar o salvamento de mídias;
  • desativar completamente o histórico dos serviços de pesquisa;
  • escolher por quanto tempo os dados permanecerão armazenados;
  • configurar exclusão automática após três, dezoito ou trinta e seis meses.

Também vale revisar outras configurações da conta Google, como Atividade na Web e de Apps, Histórico do YouTube, Linha do Tempo do Maps e demais opções relacionadas à privacidade.

Mesmo para quem já havia personalizado essas preferências anteriormente, é recomendável verificar novamente a conta após essa reorganização das configurações, já que parte do histórico passou a ser administrada de forma independente.

À medida que a inteligência artificial se torna parte central dos serviços digitais, entender como os dados pessoais são coletados e utilizados passa a ser uma etapa essencial para quem deseja aproveitar os recursos oferecidos sem abrir mão do controle sobre sua privacidade.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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