Google passa a identificar anúncios criados com inteligência artificial para aumentar a transparência

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Google começou a identificar anúncios criados ou editados com inteligência artificial em seus principais serviços.
  • A informação ficará disponível no painel “Minha Central de Anúncios”, acessível na Pesquisa, YouTube e Discover.
  • Quando a IA utilizada não for da própria Google, a empresa dependerá da declaração dos anunciantes para exibir o aviso.

O Google anunciou que passará a informar aos usuários quando um anúncio exibido em suas plataformas foi criado ou editado com o auxílio de IA.

A medida busca aumentar a transparência em um cenário em que ferramentas generativas estão transformando a maneira como campanhas publicitárias são produzidas, reduzindo custos e acelerando o processo criativo.

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta experimental para se tornar parte da rotina de empresas de todos os portes. Hoje, é possível gerar imagens altamente realistas, criar cenários completos para produtos, modificar fotografias, produzir variações de campanhas em poucos minutos e até desenvolver peças publicitárias inteiras sem a necessidade de sessões fotográficas tradicionais.

Essa evolução trouxe inúmeras vantagens para marcas e anunciantes, mas também levantou questionamentos sobre a necessidade de informar ao consumidor quando determinado conteúdo não representa uma fotografia real.

É justamente para responder a essa preocupação que a Google está implementando a novidade. A empresa acredita que oferecer mais contexto sobre a origem dos anúncios ajuda os usuários a compreender melhor o conteúdo que estão visualizando e fortalece a confiança em seu ecossistema de publicidade.

Nova ferramenta mostra como o anúncio foi produzido

A identificação ficará disponível dentro da Minha Central de Anúncios, painel que já oferece diferentes recursos para que os usuários tenham maior controle sobre a publicidade exibida nos produtos da empresa.

O acesso é simples. Basta clicar no menu de três pontos ou no ícone de informações presente em anúncios exibidos na Pesquisa Google, no YouTube ou no Google Discover. Além das funções já existentes, como bloquear anúncios, denunciar conteúdos inadequados, conhecer o anunciante e descobrir por que determinada publicidade foi exibida, os usuários encontrarão uma nova opção chamada “Como este anúncio foi criado”.

Ao acessar essa área, será possível verificar se o anúncio foi desenvolvido ou editado utilizando inteligência artificial. Dessa forma, o consumidor terá uma informação adicional antes de interagir com a publicidade, aumentando a transparência sobre o processo de criação daquele conteúdo.

Embora a mudança pareça simples, ela representa uma alteração importante na forma como plataformas digitais apresentam informações sobre publicidade. Em vez de apenas mostrar quem está anunciando, a Google também começará a explicar como parte daquele material foi produzida.

A inteligência artificial já mudou completamente a publicidade

Ferramentas de IA generativa vêm sendo adotadas em ritmo acelerado pelo mercado publicitário. Em poucos comandos, empresas conseguem criar imagens de produtos em diferentes ambientes, alterar fundos, modificar iluminação, produzir modelos virtuais, gerar novas versões de campanhas e criar peças personalizadas para públicos específicos.

Esse processo reduz significativamente os custos de produção. Pequenos negócios, que antes precisavam investir em fotógrafos, estúdios e equipes de edição, agora conseguem produzir campanhas de aparência profissional utilizando ferramentas baseadas em inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, essa facilidade aumenta a dificuldade de identificar quando uma imagem representa um produto fotografado no mundo real ou quando foi completamente construída por algoritmos.

Em muitos casos, a diferença é praticamente imperceptível para quem vê o anúncio. Isso torna a transparência ainda mais importante, especialmente em segmentos como moda, decoração, alimentação e comércio eletrônico, onde a aparência visual influencia diretamente a decisão de compra.

A Google destaca que suas políticas continuam proibindo anúncios considerados enganosos ou capazes de induzir consumidores ao erro. No entanto, utilizar inteligência artificial para criar imagens não é, por si só, uma violação das regras da plataforma. O objetivo da empresa é deixar claro quando essa tecnologia participou da criação do conteúdo.

Como a Google identificará anúncios feitos com IA

A forma de identificação dependerá da tecnologia utilizada pelo anunciante.

Quando a campanha for criada utilizando as ferramentas de inteligência artificial disponibilizadas pela própria Google, o aviso será aplicado automaticamente. Como o processo acontece dentro do ecossistema da empresa, ela consegue registrar que recursos de IA foram utilizados e inserir a informação sem necessidade de qualquer configuração adicional.

Já quando os anunciantes utilizarem soluções desenvolvidas por outras empresas, a situação será diferente. Nesse caso, a Google não fará uma análise independente para verificar se houve uso de inteligência artificial. Em vez disso, será responsabilidade do próprio anunciante informar que a tecnologia participou da criação ou edição da campanha.

Para isso, a empresa disponibilizará um novo controle dentro da plataforma de anúncios, permitindo que os anunciantes façam essa declaração durante a publicação da campanha.

Essa decisão demonstra que, ao menos neste primeiro momento, a Google optou por trabalhar com um modelo baseado na autodeclaração, em vez de utilizar sistemas próprios para detectar automaticamente conteúdos gerados por inteligência artificial.

Além disso, a companhia informou que alguns países poderão exigir identificações adicionais por força da legislação local. Nesses mercados, os avisos poderão aparecer mesmo em situações específicas determinadas pelas normas de cada região.

Um movimento que acompanha o avanço da IA

A novidade faz parte de um movimento mais amplo observado na indústria de tecnologia. À medida que ferramentas de inteligência artificial se tornam cada vez mais sofisticadas e acessíveis, cresce também a pressão para que empresas sejam mais transparentes sobre seu uso.

Nos últimos anos, plataformas digitais passaram a criar mecanismos para identificar imagens sintéticas, vídeos manipulados e outros conteúdos produzidos por inteligência artificial. Em muitos casos, essas iniciativas surgiram após debates envolvendo desinformação, deepfakes e conteúdos capazes de confundir usuários.

Até então, a Google exigia esse tipo de divulgação principalmente em anúncios relacionados a eleições, área considerada mais sensível por seu potencial impacto no processo democrático. Agora, a empresa amplia essa política para campanhas comerciais, refletindo a expansão da IA para praticamente todos os setores da publicidade.

Embora o aviso não impeça o uso da tecnologia nem altere a exibição dos anúncios, ele representa um passo importante para tornar mais claro como campanhas modernas estão sendo produzidas. Para os consumidores, a mudança oferece mais contexto sobre aquilo que estão vendo. Para anunciantes, estabelece uma expectativa crescente de transparência em um mercado cada vez mais impulsionado pela inteligência artificial.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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