Fundador da Relay retorna ao Google para trabalhar com agentes de IA no Chrome

Renê Fraga
19 min de leitura

Principais destaques

  • A Relay, startup criada para automatizar fluxos de trabalho com inteligência artificial, encerrará definitivamente seu serviço em setembro.
  • Jacob Bank, fundador e CEO da empresa, está voltando ao Google como vice-presidente de Produto do Chrome, levando para a gigante uma experiência diretamente ligada a automação e produtividade com IA.
  • A mudança acontece enquanto o Google transforma o Chrome em uma plataforma capaz não apenas de responder perguntas, mas também de executar tarefas pela internet usando agentes de inteligência artificial.

A história da Relay está chegando ao fim justamente quando a ideia que ajudou a colocar a empresa no mercado está se tornando uma das principais apostas da indústria de tecnologia. A startup de automação com inteligência artificial, criada em 2021 com a ambição de disputar espaço com ferramentas como o Zapier, vai encerrar suas operações.

O fechamento foi anunciado pela própria Relay e já começou a afetar os usuários. As contas gratuitas perderam acesso em 15 de agosto, enquanto os clientes pagantes poderão continuar utilizando a plataforma até 14 de setembro de 2026.

Depois desse período, as contas e os dados associados serão excluídos. A empresa também disponibilizou mecanismos para que os clientes exportem seus fluxos de trabalho e outras informações antes do encerramento.

O que torna o episódio especialmente interessante, porém, não é apenas o desaparecimento de mais uma startup de IA. É o destino de seu fundador. Jacob Bank está retornando ao Google, empresa onde já trabalhou durante mais de seis anos, para assumir uma posição de liderança no Chrome.

O fim da Relay acontece em um momento de transformação da IA

A Relay nasceu com uma proposta que hoje parece ainda mais relevante do que quando a empresa foi criada: permitir que pessoas e empresas automatizassem tarefas sem precisar executar manualmente cada etapa de um processo.

Na prática, a plataforma podia ser usada para organizar fluxos envolvendo documentos, edição de textos, gerenciamento de projetos e outras atividades repetitivas. Em vez de o usuário realizar cada ação individualmente, a ideia era conectar diferentes etapas e permitir que a automação conduzisse o trabalho.

Esse conceito aproxima a Relay de uma tendência que ganhou força rapidamente com a evolução dos chamados agentes de IA. A diferença é que os agentes atuais prometem ir além de uma simples automação baseada em regras. Eles podem interpretar uma solicitação, decidir quais etapas precisam ser executadas e interagir com diferentes ferramentas para chegar ao resultado.

A própria Relay destacou que o encerramento não será imediato para todos. Segundo o comunicado oficial, novos cadastros e upgrades de contas gratuitas para planos pagos foram interrompidos em julho. Usuários pagos tiveram o período de transição estendido até 14 de setembro, sem novas cobranças. Clientes anuais também receberão reembolsos proporcionais pelo período não utilizado.

O cenário mostra uma característica curiosa do mercado de IA: uma tecnologia pode se tornar mais importante enquanto algumas das empresas que apostaram nela desaparecem.

Para a Relay, competir em um mercado dominado por grandes plataformas ficou cada vez mais difícil. Para o Google, por outro lado, a experiência construída por Bank durante os anos à frente de uma startup de automação pode ser particularmente valiosa neste momento.

O executivo agora terá a oportunidade de aplicar essa experiência dentro de um produto utilizado por bilhões de pessoas.

Jacob Bank retorna ao Google com uma missão ligada aos agentes de IA

Jacob Bank não é um executivo desconhecido dentro do Google. Sua primeira passagem pela empresa começou em 2015, quando o Google adquiriu a Timeful, startup de produtividade fundada por ele.

Depois da aquisição, Bank passou a trabalhar em diferentes produtos da companhia. Entre suas funções esteve a liderança de produto relacionada ao Gmail, Google Calendar e Google Chat. Ele deixou o Google posteriormente para fundar a Relay e tentar construir uma nova geração de ferramentas de produtividade.

Agora, o caminho se inverteu.

Bank está voltando para o Google como vice-presidente de Produto do Chrome, com responsabilidade também sobre a área de relações com desenvolvedores. A contratação foi confirmada nesta segunda-feira e ocorre em um momento em que o navegador está passando por uma das maiores mudanças de sua história.

Em uma declaração sobre o retorno, Bank explicou que passou a carreira tentando construir ferramentas capazes de ajudar as pessoas a fazer mais com IA sem eliminar sua criatividade e sua capacidade de contribuir com ideias próprias.

Ele também afirmou que considera o Chrome um lugar ideal para trabalhar com agentes.

Essa frase é importante porque ajuda a indicar o tipo de futuro que o Google pode estar imaginando para o navegador.

Durante décadas, o Chrome funcionou essencialmente como uma janela para a internet. O usuário digitava um endereço, fazia uma pesquisa, abria uma página e realizava manualmente as ações necessárias.

O próximo estágio pode ser bastante diferente.

Em vez de apenas mostrar uma página, o navegador poderá entender o objetivo do usuário e ajudar a executar o trabalho. Isso significa que o Chrome pode deixar de ser apenas uma ferramenta para acessar serviços online e passar a funcionar como uma espécie de camada inteligente entre a pessoa e a web.

Esse conceito já aparece nos planos públicos do Google.

Em 2025, a empresa apresentou recursos para transformar o Chrome em um navegador mais orientado por IA, incluindo o Gemini capaz de compreender o conteúdo de diferentes abas e auxiliar o usuário durante a navegação. O Google também revelou planos para recursos agentivos capazes de realizar tarefas com várias etapas, como fazer compras ou agendar serviços.

A chegada de Bank, portanto, acontece em uma direção que já estava sendo construída pela companhia.

Gemini no Chrome já está deixando de ser apenas um chatbot

A estratégia do Google ficou ainda mais clara ao longo de 2026.

O Gemini começou a ganhar espaço dentro do Chrome como um assistente contextual. Em vez de o usuário copiar um texto de uma página e levá-lo para outro aplicativo, por exemplo, o assistente pode compreender o conteúdo diretamente no navegador.

Atualmente, o Gemini no Chrome pode ajudar a resumir conteúdos, comparar informações de diferentes abas e interagir com serviços do ecossistema Google. A empresa também ampliou a disponibilidade desses recursos para novos mercados.

No Brasil, a expansão ganhou destaque durante o evento Google for Brasil 2026. A companhia anunciou a chegada do Gemini ao Chrome para usuários brasileiros, permitindo que o assistente ajude a resumir páginas e comparar informações em várias abas.

Isso muda a relação entre o usuário e o navegador.

Imagine alguém pesquisando uma viagem. Em um cenário tradicional, essa pessoa precisaria abrir dezenas de abas, comparar preços, consultar mapas, verificar horários e depois entrar em diferentes sites para concluir reservas.

Com agentes, o objetivo é que boa parte desse processo possa ser delegada.

O Google já demonstrou essa direção ao apresentar recursos capazes de realizar tarefas na web em nome do usuário. No Chrome para Android, por exemplo, a empresa anunciou funcionalidades de navegação agentiva que podem automatizar atividades como reservas e atualização de pedidos, mantendo mecanismos de confirmação para ações consideradas sensíveis.

A lógica é bastante próxima daquilo que empresas como a Relay tentavam oferecer, mas em uma escala completamente diferente.

Enquanto uma startup precisava convencer empresas e usuários a adotarem uma nova plataforma de automação, o Google pode colocar essas capacidades diretamente dentro do navegador que as pessoas já utilizam diariamente.

Essa diferença de distribuição pode ser decisiva.

Google quer transformar o navegador em um agente capaz de agir

A visão do Google para a próxima geração de Chrome parece ir além de simplesmente adicionar um chatbot na lateral da tela.

A empresa já fala abertamente sobre navegação agentiva. Em vez de apenas responder “como faço isso?”, a IA poderá assumir parte do trabalho e interagir com sites em nome do usuário.

Essa mudança é uma das mais importantes na evolução dos assistentes de inteligência artificial.

Um chatbot tradicional depende de perguntas e respostas. Um agente recebe um objetivo.

A diferença parece pequena, mas muda completamente a experiência.

Se alguém pergunta ao chatbot “qual é o melhor hotel para minha viagem?”, a IA pode pesquisar, comparar opções e apresentar uma recomendação. Um agente, em uma etapa seguinte, poderia pesquisar os hotéis, verificar datas, comparar preços, escolher uma opção de acordo com critérios definidos pelo usuário e iniciar ou concluir a reserva após uma confirmação.

É justamente esse tipo de interação que o Google vem construindo.

Durante o Google I/O 2026, a empresa apresentou o Gemini Spark, um agente pessoal projetado para executar tarefas de longa duração em segundo plano. A proposta é permitir que o sistema trabalhe continuamente, utilizando ferramentas e serviços para realizar atividades sob orientação do usuário. O Google também indicou que o Spark seria integrado ao Chrome para atuar como um navegador agentivo.

Essa visão ajuda a explicar por que a contratação de alguém com o histórico de Bank chama atenção.

O fundador da Relay passou os últimos anos tentando descobrir como transformar automações em ferramentas práticas de produtividade. Agora, ele estará dentro de uma das plataformas mais importantes para executar esse conceito.

Não significa, necessariamente, que o Google vá simplesmente reproduzir a Relay dentro do Chrome. A empresa ainda não revelou quais projetos específicos Bank comandará ou quais recursos serão lançados sob sua liderança.

Mas a combinação de experiência é evidente: produtividade, automação, IA e um navegador que está rapidamente se tornando um ambiente de execução de tarefas.

A mudança também acontece enquanto o Gemini ganha escala

Outro fator importante é o crescimento acelerado do Gemini.

O Google informou recentemente que o aplicativo Gemini ultrapassou 1 bilhão de usuários. A companhia também destacou o crescimento de recursos voltados a voz, geração de imagens e tarefas realizadas de forma mais autônoma.

Isso significa que o Google já possui uma enorme base de usuários familiarizada com sua inteligência artificial.

O próximo desafio é transformar essa familiaridade em utilidade cotidiana.

O objetivo não parece ser apenas fazer com que as pessoas conversem mais com o Gemini. A estratégia é fazer com que a IA esteja presente nos lugares onde as pessoas realmente trabalham, pesquisam, compram, estudam e se comunicam.

O Chrome é particularmente importante nesse cenário porque fica no centro de praticamente todas essas atividades.

Uma pessoa pode usar o navegador para acessar Gmail, Google Docs, YouTube, Maps, lojas online, bancos, redes sociais e milhares de outros serviços. Se um agente de IA conseguir operar nesse ambiente com segurança, ele terá acesso a uma quantidade enorme de possibilidades.

Por isso, o navegador pode se tornar uma das principais interfaces da era dos agentes.

A própria integração atual do Gemini no Chrome já mostra esse movimento. O Google afirma que o assistente pode interagir profundamente com aplicativos como Calendar, Maps e Gmail, permitindo realizar determinadas tarefas sem que o usuário precise abandonar a página em que está.

Para o Google, isso representa uma oportunidade de tornar o Chrome muito mais importante no cotidiano digital.

Para os usuários, representa uma mudança que pode ser conveniente, mas também exige confiança.

O grande desafio será fazer os agentes trabalharem com segurança

Quanto mais autonomia a inteligência artificial recebe, maior se torna a preocupação com segurança.

Um chatbot que produz uma resposta errada já pode causar problemas. Um agente que tem permissão para clicar em botões, enviar mensagens, comprar produtos ou alterar informações pode causar consequências muito maiores.

O Google sabe disso e tem enfatizado mecanismos de proteção em seus recursos agentivos.

Nas experiências do Gemini no Chrome, a empresa afirma utilizar mecanismos para identificar ameaças conhecidas, incluindo ataques de prompt injection. Também existem confirmações antes da realização de determinadas ações consideradas sensíveis.

Essa questão provavelmente estará entre os principais desafios da equipe de Chrome nos próximos anos.

Não basta fazer um agente capaz de completar uma tarefa. Ele precisa saber quando não deve agir, quando precisa pedir confirmação e como evitar que uma página maliciosa manipule suas instruções.

Essa é uma diferença fundamental entre automação tradicional e agentes de IA.

Uma automação convencional normalmente segue regras pré-configuradas. Um agente precisa interpretar informações e tomar decisões em ambientes que podem mudar constantemente.

Por isso, a experiência de Bank na Relay pode ser útil para o Google justamente nesse ponto. A startup trabalhou com a ideia de transformar processos complexos em sequências automatizadas, enquanto o Google possui infraestrutura, modelos de IA e distribuição para levar essa experiência a uma escala muito maior.

O encerramento da Relay pode ser visto como um retrato do novo mercado de IA

A história da Relay também mostra como o mercado de inteligência artificial está mudando rapidamente.

Quando a startup foi criada, construir uma ferramenta especializada em automação com IA poderia representar uma oportunidade de criar uma nova categoria de software.

Hoje, as grandes plataformas estão incorporando funções semelhantes diretamente em seus produtos.

O Google está colocando IA no Chrome e na Busca. A Microsoft integra agentes ao seu ecossistema de produtividade. Outras empresas também estão tentando transformar assistentes em sistemas capazes de executar tarefas.

Isso aumenta a pressão sobre startups independentes.

Uma empresa pequena pode ter uma tecnologia excelente, mas precisa competir com companhias que já possuem milhões ou bilhões de usuários, infraestrutura própria, modelos de IA e acesso a enormes quantidades de dados.

Ao mesmo tempo, isso não significa que a ideia por trás da Relay tenha fracassado.

Pelo contrário. A automação de tarefas continua sendo uma das principais aplicações da inteligência artificial. O que está mudando é onde essa automação acontece.

Em vez de necessariamente viver em uma plataforma independente, ela pode passar a fazer parte dos aplicativos que as pessoas já usam.

É exatamente isso que torna a ida de Bank para o Google tão simbólica.

A Relay está fechando as portas, mas seu fundador está entrando novamente em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo para trabalhar justamente na transformação que pode definir a próxima fase da computação.

O Google ainda não revelou todos os detalhes de seus planos para o Chrome sob a nova liderança. Bank afirmou, porém, que existem planos ambiciosos para ajudar as pessoas a trabalhar com IA dentro do navegador e que mais informações serão divulgadas posteriormente.

Se essa visão se concretizar, o Chrome poderá deixar de ser apenas o lugar onde abrimos a internet para se tornar o lugar onde delegamos parte do trabalho à inteligência artificial.

E essa talvez seja a parte mais interessante dessa história: a Relay pode estar desaparecendo como empresa justamente quando o conceito que ela ajudou a explorar está prestes a ganhar uma distribuição incomparavelmente maior dentro do Google.

Meta descrição em português: O fechamento da Relay coincide com a volta de Jacob Bank ao Google, onde ele ajudará a definir uma nova geração do Chrome baseada em agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas.

Meta descripción en español: El cierre de Relay coincide con el regreso de Jacob Bank a Google, donde ayudará a definir una nueva generación de Chrome basada en agentes de inteligencia artificial capaces de realizar tareas.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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