Google libera opção para remover marca d’água de imagens, vídeos e músicas gerados por IA

Renê Fraga
16 min de leitura

Principais destaques

  • A marca d’água visível poderá ser desligada: Google começa a permitir que usuários escondam a identificação visual em conteúdos criados por seus modelos de IA.
  • O SynthID continua funcionando: mesmo sem o símbolo aparente, imagens, vídeos e músicas continuam recebendo uma marca d’água invisível que pode ser detectada posteriormente.
  • A mudança mira quem usa IA para criar profissionalmente: a companhia quer oferecer uma tela mais limpa sem abandonar mecanismos de transparência e identificação.

O Google está mudando uma das características mais fáceis de perceber em seus conteúdos gerados por inteligência artificial. A empresa começou a liberar uma opção que permite retirar a marca d’água visível de imagens, vídeos e músicas produzidos com seus modelos.

A novidade pode parecer apenas uma alteração estética, mas representa uma mudança importante na maneira como a indústria de IA está tentando equilibrar liberdade criativa, uso profissional e transparência.

Até agora, a marca visível funcionava como um aviso imediato de que determinada imagem ou outro conteúdo havia sido criado por inteligência artificial. Com a nova configuração, o usuário poderá decidir se quer manter esse aviso aparente.

O ponto mais importante está justamente no que não muda.

A Google afirma que a remoção da marca visível não desativa o SynthID, seu sistema de identificação invisível. Também permanecem os metadados associados ao padrão C2PA, usado para registrar informações sobre a origem e a procedência de conteúdos digitais.

Em outras palavras: o arquivo pode parecer “limpo” para quem olha, mas continuar carregando informações técnicas que ajudam a identificar sua origem.

A marca d’água deixa de ser obrigatória na aparência

A nova opção será disponibilizada para conteúdos criados com modelos como Nano Banana, Omni e Lyria. A configuração poderá ser encontrada em Settings > Media Watermark, permitindo ativar ou desativar a marca visual quando o recurso chegar à conta do usuário.

A implementação começa de maneira gradual e a Google informou que a opção estará disponível no Gemini e no Flow, seu ambiente voltado à criação de vídeos. A companhia também pretende levar a funcionalidade para o Google Search posteriormente.

A decisão faz sentido principalmente para quem usa geração de IA como parte de um processo criativo mais amplo.

Imagine uma agência produzindo uma imagem conceitual para uma apresentação. Ou um designer utilizando uma imagem gerada pelo Gemini como ponto de partida para uma campanha. Ou ainda um criador produzindo um vídeo que será posteriormente editado em outro software.

Nesses casos, uma marca visual sobreposta pode ser mais do que uma simples indicação de procedência. Ela pode interferir na composição, chamar atenção para uma área específica da imagem ou simplesmente deixar claro que aquele arquivo ainda não está na versão final.

Foi justamente essa necessidade que a Google já reconheceu anteriormente.

Quando apresentou o Nano Banana Pro, a companhia explicou que manteria a marca visual para usuários de determinados planos, mas retiraria o elemento visível para assinantes do Google AI Ultra e para conteúdos produzidos no Google AI Studio, justamente por entender que profissionais precisam de um “canvas” visual mais limpo.

Agora, a lógica está sendo ampliada.

O que muda na prática

AntesAgora
Marca visível aparecia no conteúdoUsuário pode optar por escondê-la
Identificação visual era imediataIdentificação visual passa a ser opcional
SynthID continuava incorporadoSynthID continua incorporado
Transparência dependia também do elemento visívelGoogle aposta mais na identificação técnica

A diferença pode parecer pequena para quem apenas gera uma imagem ocasionalmente. Para profissionais que produzem dezenas ou centenas de arquivos, porém, ela pode representar uma mudança considerável no fluxo de trabalho.

O Google não está apagando a “assinatura” da IA

Aqui está a parte mais importante da mudança.

Retirar a marca d’água visível não significa transformar o conteúdo em algo impossível de identificar como gerado por IA.

O SynthID continua sendo incorporado aos conteúdos gerados pelos sistemas da Google. A tecnologia foi criada justamente para inserir sinais que não podem ser percebidos normalmente pelo olho humano, mas que podem ser detectados por ferramentas compatíveis.

A empresa afirma que já utilizou o SynthID em uma escala gigantesca. Durante o Google I/O 2026, a companhia disse que a tecnologia já havia marcado mais de 100 bilhões de imagens e vídeos, além de aproximadamente 60 mil anos de conteúdo em áudio.

Isso ajuda a entender a estratégia.

O Google está, na prática, separando duas coisas que durante muito tempo ficaram misturadas:

identificação visual e identificação técnica.

A primeira é feita para seres humanos. Basta olhar para a imagem e perceber que existe uma marca.

A segunda funciona nos bastidores. É destinada a sistemas capazes de analisar o arquivo e verificar sinais de procedência.

Essa diferença se torna cada vez mais importante à medida que imagens, vídeos e músicas gerados por IA ficam mais convincentes.

Em julho, por exemplo, o SynthID foi usado para ajudar a identificar como artificial uma imagem falsa que circulava nas redes sociais mostrando o senador americano Mitch McConnell em uma cama de hospital. O sistema conseguiu detectar a assinatura invisível mesmo depois que a imagem havia circulado pela internet.

Isso mostra por que a Google não quer simplesmente abandonar a identificação.

A marca que ninguém vê pode ser mais importante

Uma marca visível pode ser removida, cortada ou simplesmente ignorada por quem publica o conteúdo.

Um sistema invisível de identificação trabalha de outra maneira.

No caso do SynthID, o objetivo é manter um sinal associado ao conteúdo mesmo quando ele passa por diferentes etapas de edição ou distribuição. A própria Google afirma que a tecnologia foi projetada para permitir a identificação de conteúdos gerados por IA, inclusive depois de modificações.

Isso não significa que a tecnologia seja uma solução perfeita para todo conteúdo criado por IA. O SynthID depende da participação dos geradores e das ferramentas que conseguem verificar a assinatura.

Ainda assim, a estratégia representa uma tentativa de criar uma camada de procedência que não dependa da aparência do arquivo.

E esse detalhe ganha ainda mais peso quando o assunto é vídeo e áudio.

Imagens não são mais o único problema

A discussão sobre marcas d’água começou com força principalmente em torno das imagens geradas por IA. Hoje, porém, os modelos conseguem produzir vídeos, vozes, músicas e outros tipos de mídia com uma qualidade que torna a distinção entre material real e sintético cada vez mais difícil.

O Lyria 3, por exemplo, passou a permitir a criação de músicas diretamente no Gemini. A Google informa que todas as faixas produzidas pelo modelo recebem SynthID, permitindo posteriormente verificar se determinado áudio foi criado com IA.

O mesmo acontece com o Omni, modelo multimodal capaz de gerar vídeos a partir de diferentes tipos de entrada. Segundo a Google, vídeos criados com o Omni também recebem a marcação invisível do SynthID.

Isso cria uma situação curiosa.

Um usuário poderá compartilhar um vídeo sem uma indicação visual óbvia de que ele foi criado por IA, mas ainda assim o arquivo poderá conter uma espécie de “impressão digital” técnica.

Para o público, isso significa que a identificação de conteúdo artificial tende a migrar de algo visível para algo verificável.

E essa mudança pode ser decisiva nos próximos anos.

A empresa não está apenas produzindo ferramentas de geração. Também está construindo mecanismos para descobrir a origem dos conteúdos.

Em maio, a Google anunciou a expansão da verificação do SynthID e das chamadas Content Credentials para produtos como Gemini, Search e Chrome.

A ideia é facilitar a resposta para uma pergunta que deve se tornar cada vez mais comum:

“Isso foi feito por uma pessoa ou por uma IA?”

A ferramenta de verificação do Gemini já permite enviar uma imagem e perguntar se ela foi gerada por uma ferramenta de IA da Google. A companhia também ampliou o sistema para áudio e vídeo.

Com a chegada desse tipo de verificação ao Search, a identificação pode deixar de depender de especialistas ou ferramentas específicas.

Isso é especialmente relevante em um momento em que uma pessoa comum dificilmente consegue identificar, apenas olhando, alguns conteúdos sintéticos de alta qualidade.

A própria Google citou pesquisas segundo as quais pessoas conseguem reconhecer corretamente vídeos deepfake de alta qualidade em apenas cerca de um quarto das vezes.

C2PA entra como outra camada de transparência

Além do SynthID, a Google também está apostando no C2PA, um padrão criado para registrar informações sobre a procedência de conteúdos digitais.

Enquanto o SynthID funciona como uma tecnologia de marcação desenvolvida pela própria Google, o C2PA trabalha com um padrão mais amplo da indústria.

A proposta é permitir que ferramentas compatíveis consultem informações relacionadas à origem de um arquivo, incluindo dados sobre como ele foi criado e se passou por processos de edição.

É uma abordagem especialmente interessante porque o problema da autenticidade não pertence a uma única empresa.

Google, OpenAI, fabricantes de câmeras, empresas de software e outras organizações estão tentando construir um ecossistema no qual os arquivos possam carregar informações verificáveis sobre sua origem.

O Google também anunciou o Credentio, uma biblioteca de código aberto voltada à validação local de Content Credentials baseadas em C2PA. A iniciativa busca permitir que desenvolvedores integrem mecanismos de verificação diretamente em seus aplicativos.

A lógica é simples: quanto mais ferramentas forem capazes de verificar a procedência de um conteúdo, menos a identificação dependerá de uma única plataforma.

Uma mudança que vai além do Gemini

A retirada da marca visível acontece justamente quando a Google amplia o uso profissional de suas ferramentas de criação.

O Flow, por exemplo, foi criado para permitir a produção de vídeos utilizando modelos generativos e passou a receber recursos voltados a criadores, cineastas e profissionais de marketing.

Ao mesmo tempo, o Google Vids também está incorporando recursos generativos, incluindo vídeos produzidos com o Omni e avatares pessoais. Nesses casos, a Google continua utilizando o SynthID como mecanismo invisível de identificação.

Isso mostra que a empresa está tentando resolver dois problemas ao mesmo tempo.

De um lado, quer que suas ferramentas sejam suficientemente profissionais para entrar em fluxos reais de produção.

De outro, não pode simplesmente abandonar a capacidade de identificar o que foi produzido por IA, principalmente diante do avanço dos deepfakes, da desinformação e de conteúdos manipulados.

O resultado é uma espécie de compromisso.

O usuário ganha controle sobre o que aparece na tela. A tecnologia continua trabalhando nos bastidores.

Google segue um caminho diferente de outras empresas

A decisão também chama atenção porque acontece em um momento no qual as empresas de IA estão adotando estratégias diferentes para lidar com a identificação de conteúdo artificial.

A discussão ganhou força recentemente após a Anthropic anunciar mecanismos de marcação para conteúdos produzidos pelo Claude, incluindo textos e arquivos, em meio à necessidade de atender a exigências regulatórias na União Europeia.

O contraste é interessante.

Enquanto algumas empresas caminham para aumentar a identificação explícita, a Google está permitindo que parte dessa identificação deixe de ser visível.

Isso não significa necessariamente que uma estratégia seja mais segura que a outra. São modelos diferentes para resolver o mesmo problema.

A abordagem da Google parte da ideia de que a transparência não precisa depender exclusivamente de uma etiqueta que aparece na tela.

E existe uma razão prática para isso.

Se cada imagem, vídeo e música gerada por IA precisasse carregar permanentemente um símbolo visível, o crescimento dessas ferramentas poderia criar uma espécie de camada permanente sobre a produção digital.

Para um usuário casual, isso talvez não seja um problema.

Para um fotógrafo, designer, editor de vídeo, músico ou profissional de publicidade, pode ser.

A grande disputa será por confiança

A discussão sobre marcas d’água pode parecer técnica, mas ela aponta para uma questão muito maior.

Como confiar em um conteúdo quando a própria aparência já não é suficiente para provar que ele é real?

A resposta provavelmente não virá de uma única tecnologia.

Marcas visíveis, assinaturas invisíveis, metadados, Content Credentials, ferramentas de detecção e sistemas de verificação devem funcionar juntos.

É por isso que a decisão da Google é mais significativa do que simplesmente “remover uma marca d’água”.

A empresa está dizendo que a identificação de conteúdo gerado por IA pode acontecer sem necessariamente atrapalhar a utilização criativa desse conteúdo.

E, conforme a inteligência artificial passa a produzir imagens, filmes, músicas e outros materiais cada vez mais próximos do que humanos conseguem criar, essa separação pode se tornar uma das partes mais importantes da infraestrutura digital.

A tendência, portanto, não parece ser o desaparecimento das marcas d’água.

É mais provável que elas fiquem menos visíveis para as pessoas e mais integradas aos próprios arquivos.

No futuro, talvez a pergunta deixe de ser “onde está a marca de IA?” e passe a ser simplesmente:

“O conteúdo tem uma origem verificável?”

É exatamente nesse ponto que tecnologias como SynthID e C2PA começam a ganhar importância.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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