Google vai instalar três novos cabos submarinos para acelerar conexões nas Américas

Renê Fraga
15 min de leitura

Principais destaques

  1. O Google anunciou três novos sistemas de cabos submarinos para conectar diferentes pontos das Américas e aumentar a capacidade da infraestrutura digital na região.
  2. Os projetos Alisios, Canoa e OlaLuz terão a República Dominicana como um dos principais pontos de conexão, com ramificações para Panamá, Chile, Bermudas e Estados Unidos.
  3. A expansão faz parte de uma estratégia maior do Google para preparar sua rede para o crescimento da computação em nuvem, da inteligência artificial e do tráfego global de dados.

A internet que chega aos celulares, computadores e empresas parece funcionar de maneira invisível, mas depende de uma enorme infraestrutura espalhada pelo planeta. Boa parte dessa estrutura está escondida no fundo dos oceanos.

É nesse cenário que o Google anunciou uma nova expansão de sua rede, com três sistemas de cabos submarinos que vão criar novas rotas de comunicação entre América do Norte, América Central, Caribe e América do Sul.

Os novos projetos foram batizados de Alisios, Canoa e OlaLuz. A iniciativa amplia a presença da empresa em uma região considerada estratégica para o crescimento dos serviços digitais.

Segundo informações divulgadas sobre os projetos, os três sistemas terão conexão com a República Dominicana, que passa a ganhar ainda mais importância como ponto de passagem para o tráfego internacional de dados.

O Alisios deverá conectar o país ao Panamá e ao Chile, enquanto o Canoa seguirá até as Bermudas e o OlaLuz fará uma ligação direta com a Flórida.

Mais do que simplesmente instalar novos cabos, a movimentação mostra como as grandes empresas de tecnologia estão tentando construir uma internet mais robusta, distribuída e preparada para uma demanda que cresce rapidamente.

Serviços de inteligência artificial, plataformas de computação em nuvem, streaming, aplicativos e empresas que dependem de processamento remoto precisam de cada vez mais capacidade de transmissão.

Por que o Google está investindo tanto em cabos submarinos

Cabos submarinos são, na prática, grandes sistemas de fibra óptica instalados no fundo do mar. Eles transportam enormes quantidades de informação entre países e continentes. Embora satélites tenham um papel importante na conectividade, os cabos de fibra óptica continuam sendo fundamentais para o tráfego internacional de dados por oferecerem alta capacidade e baixa latência.

A importância dessa infraestrutura fica mais evidente quando se observa a quantidade de dados que circula diariamente pelo mundo. Estimativas citadas pelo próprio Google indicam que aproximadamente 95% das comunicações globais dependem de redes de cabos submarinos.

A empresa já descrevia essa infraestrutura como essencial para aumentar a resiliência das redes e criar rotas alternativas entre diferentes regiões.

Para o Google, portanto, ter mais cabos significa muito mais do que melhorar a internet de consumidores. A companhia possui uma enorme operação de computação em nuvem e serviços digitais que depende de uma rede global capaz de transportar dados entre seus centros de processamento e os clientes.

A inteligência artificial tornou esse cenário ainda mais importante. Modelos avançados exigem grandes quantidades de processamento e movimentação de informações. Empresas que utilizam serviços de IA na nuvem também precisam enviar dados para servidores, receber respostas e, em muitos casos, movimentar arquivos e bancos de dados continuamente.

Essa demanda ajuda a explicar por que as grandes empresas de tecnologia estão investindo diretamente em infraestrutura física. O crescimento da IA pode ser associado a chips mais potentes e data centers maiores, mas nenhuma dessas estruturas funciona isoladamente. É preciso haver uma rede capaz de conectar esses centros de processamento aos usuários e às empresas.

O novo anúncio nas Américas se encaixa justamente nessa estratégia.

Alisios, Canoa e OlaLuz criam uma rede mais distribuída

Os três novos sistemas terão funções diferentes dentro dessa expansão. O Alisios é o projeto com uma abrangência especialmente relevante para a América Latina, já que deverá conectar a República Dominicana ao Panamá e ao Chile. Isso cria uma nova rota entre o Caribe e pontos estratégicos da América Central e da costa do Pacífico da América do Sul.

O Chile já ocupa uma posição importante nos planos de infraestrutura do Google. A empresa possui o sistema Curie, que conecta o Chile aos Estados Unidos, e também está envolvida em novos projetos para ampliar as conexões internacionais do país.

Com o Alisios, a infraestrutura chilena poderá ganhar uma rota adicional pelo Caribe e pelo Panamá. Isso pode contribuir para aumentar a diversidade dos caminhos utilizados pelos dados e reduzir a dependência de uma única conexão internacional.

O Canoa terá outra função estratégica. O sistema deverá ligar a República Dominicana às Bermudas e se integrar aos sistemas Nuvem e Sol. Esses dois projetos fazem parte da expansão transatlântica do Google e conectam diferentes pontos das Américas à Europa.

Essa integração é importante porque transforma os cabos em uma rede interligada, em vez de estruturas isoladas. Se uma determinada rota apresentar algum problema, outras conexões podem ajudar a manter o tráfego circulando.

A importância das Bermudas nesse desenho também vem crescendo. Em junho de 2026, o governo local anunciou que os sistemas Nuvem e Sol já haviam chegado à ilha. O governo descreveu os projetos como investimentos relevantes para a infraestrutura digital e para a resiliência econômica do território.

Já o OlaLuz terá uma função mais direta na ligação entre Caribe e Estados Unidos. O sistema conectará a República Dominicana à Flórida, aumentando a capacidade disponível entre o país caribenho e a costa leste americana.

Na prática, os três projetos formam peças diferentes de uma mesma estratégia: criar mais caminhos para os dados atravessarem as Américas.

República Dominicana ganha importância no mapa digital

A escolha da República Dominicana como ponto comum dos novos sistemas chama atenção. O país está localizado em uma posição geográfica favorável para conexões entre o Caribe, a América do Norte e outras partes do continente.

Ao receber diferentes sistemas de cabos, a República Dominicana pode se tornar um ponto relevante de interconexão regional. Isso pode beneficiar não apenas os serviços do Google, mas também empresas, provedores de internet e outros participantes do ecossistema digital que utilizam a infraestrutura local.

Esse tipo de investimento costuma gerar efeitos que vão além da velocidade de uma conexão. Uma infraestrutura internacional mais robusta pode facilitar a instalação de data centers, estimular serviços de computação em nuvem e aumentar o interesse de empresas que precisam de conectividade internacional.

O mesmo fenômeno pode ser observado em outras regiões que passaram a receber investimentos em cabos submarinos. Portugal, por exemplo, vem tentando aproveitar sua posição geográfica para se transformar em um importante ponto de conexão digital entre Europa e América do Norte.

Em julho de 2026, o Google anunciou a conexão do sistema Nuvem em Sines, em Portugal. O cabo tem aproximadamente 7 mil quilômetros e liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, passando pelas Bermudas e pelos Açores. O sistema foi projetado com 16 pares de fibras e capacidade total estimada em cerca de 384 terabits por segundo.

O exemplo ajuda a entender a dimensão dos investimentos que estão sendo feitos pela empresa. Os cabos não são apenas linhas de internet. Eles funcionam como grandes corredores digitais capazes de transportar volumes gigantescos de informação entre continentes.

Google já construiu uma rede global de cabos

A nova expansão não acontece isoladamente. O Google vem construindo sua própria infraestrutura de conectividade há anos e possui participação em diferentes sistemas submarinos espalhados pelo planeta.

Um dos exemplos é o Firmina, que conecta pontos da América do Sul aos Estados Unidos. O sistema possui pontos de chegada na Argentina, no Brasil e no Uruguai e faz parte da estratégia de ampliar a capacidade e a diversidade das conexões na região.

Agora, o Google também planeja ampliar o próprio Firmina com uma nova ramificação na República Dominicana, segundo informações divulgadas junto ao anúncio dos novos sistemas. Isso reforça ainda mais o papel do país como ponto estratégico dentro da rede da companhia.

A lógica por trás desses investimentos é relativamente simples. Quanto mais rotas independentes existirem, menor tende a ser a dependência de um único caminho.

Isso é importante porque cabos submarinos podem sofrer interrupções por diferentes motivos. Pesca, âncoras de embarcações, atividades marítimas, fenômenos naturais e outros acidentes podem provocar danos. Em determinadas regiões, terremotos também podem representar um risco.

Por isso, criar redundância é uma das prioridades de grandes redes internacionais. Redundância significa ter alternativas para que os dados possam continuar circulando caso uma das rotas fique temporariamente indisponível.

O que os novos cabos têm a ver com inteligência artificial

A relação com a inteligência artificial é uma das partes mais importantes desse movimento.

Modelos de IA estão aumentando a quantidade de processamento realizado em data centers. Ao mesmo tempo, empresas estão incorporando ferramentas de IA aos seus sistemas, o que cria uma demanda constante por infraestrutura de nuvem.

O Google é um dos principais fornecedores desse tipo de tecnologia por meio do Google Cloud. A companhia também desenvolve e oferece modelos de inteligência artificial, incluindo a família Gemini. Para atender clientes em diferentes partes do mundo, precisa manter uma rede capaz de transportar dados rapidamente entre usuários, servidores e centros de processamento.

A própria empresa afirmou, ao anunciar o sistema Sol, que o novo cabo ajudaria a aumentar capacidade e confiabilidade de sua rede global, atendendo à crescente demanda por Google Cloud e serviços de IA.

Isso ajuda a colocar os novos projetos em perspectiva. A instalação de um cabo submarino pode parecer uma obra distante da experiência cotidiana de quem utiliza um celular, mas a infraestrutura pode influenciar diretamente serviços digitais usados diariamente.

Quando uma pessoa utiliza um aplicativo baseado em nuvem, acessa um serviço de IA ou armazena arquivos remotamente, seus dados precisam percorrer uma rede física. Quanto mais capacidade e alternativas essa rede tiver, maior será a possibilidade de manter o serviço rápido e disponível.

O investimento também revela uma mudança na própria disputa entre as gigantes de tecnologia. Empresas como Google, Microsoft, Amazon e Meta passaram a tratar infraestrutura física como uma parte importante de sua estratégia competitiva.

Não basta desenvolver o melhor software ou construir o maior modelo de IA. É preciso garantir que a infraestrutura necessária para operar essas tecnologias esteja disponível em escala global.

Uma disputa que acontece também no fundo dos oceanos

O anúncio dos novos cabos mostra que a corrida tecnológica está acontecendo em lugares que normalmente ficam longe dos holofotes.

Enquanto consumidores acompanham lançamentos de celulares, novos modelos de inteligência artificial e serviços digitais, empresas de tecnologia estão investindo bilhões em estruturas que permanecem invisíveis para a maioria das pessoas.

Os cabos submarinos são um exemplo claro disso. Eles podem permanecer milhares de metros abaixo da superfície e, ainda assim, desempenhar um papel fundamental no funcionamento da economia digital.

A estratégia do Google também mostra que localização geográfica continua sendo importante na era digital. Países e territórios que conseguem atrair cabos, data centers e pontos de interconexão podem ganhar relevância econômica e tecnológica.

No caso das Américas, a combinação de novos sistemas com estruturas já existentes cria uma malha cada vez mais ampla. A República Dominicana, o Panamá, o Chile, as Bermudas e a Flórida passam a fazer parte de um desenho no qual diferentes rotas podem trabalhar em conjunto.

O resultado esperado é uma rede com mais capacidade, mais caminhos alternativos e maior alcance.

Ainda não significa que todos esses novos cabos estarão operando imediatamente. Projetos desse porte envolvem planejamento, licenciamento, fabricação, instalação e conexão das estruturas em terra. O cronograma pode variar de acordo com cada sistema e com as condições encontradas durante a implantação.

Mesmo assim, o anúncio deixa clara a direção tomada pelo Google. A empresa está preparando sua infraestrutura para um mundo no qual a quantidade de dados continuará crescendo e no qual inteligência artificial e computação em nuvem terão participação cada vez maior na economia.

No fim, a grande transformação pode estar justamente naquilo que quase ninguém vê. Enquanto a IA ganha espaço na superfície, uma rede gigantesca de fibras ópticas continua sendo construída no fundo dos oceanos para garantir que essa nova geração de serviços consiga funcionar em escala global.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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