Google cria plataforma de IA para escritórios de advocacia e equipes jurídicas

Renê Fraga
17 min de leitura

Principais destaques

  • O Google lançou o Gemini Enterprise for Legal, uma versão especializada de sua plataforma empresarial de IA para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos.
  • A tecnologia vai além de responder perguntas: agentes poderão executar fluxos de trabalho envolvendo contratos, pesquisa jurídica, litígios, conformidade e documentos.
  • Segurança e contexto jurídico são o diferencial: a plataforma se conecta a sistemas usados pelos escritórios, respeita permissões e barreiras éticas e mantém os dados dentro dos ambientes controlados pelas organizações.

A inteligência artificial está entrando em uma nova fase no mercado jurídico. Em vez de simplesmente pedir a um chatbot para resumir um contrato ou explicar uma decisão judicial, advogados poderão delegar partes inteiras de um fluxo de trabalho a agentes de IA.

É justamente essa mudança que o Google quer explorar com o Gemini Enterprise for Legal, anunciado em 25 de agosto. A plataforma foi criada especificamente para escritórios de advocacia e equipes jurídicas corporativas e chega inicialmente em versão de prévia, com nomes de peso como Cleary Gottlieb, Freshfields, Weil e Williams & Connolly participando do lançamento.

A novidade faz parte de uma estratégia mais ampla do Google Cloud. A empresa está transformando o Gemini Enterprise em uma espécie de base para soluções específicas de diferentes setores, começando pelo jurídico e pelos serviços financeiros. A ideia é adaptar agentes, integrações, controles e conhecimentos ao ambiente em que a IA será utilizada, em vez de depender apenas de um modelo genérico.

Não é apenas um chatbot para advogados

A diferença mais importante está na proposta de IA agentiva. Em termos simples, um chatbot tradicional normalmente espera uma pergunta e devolve uma resposta. Um agente pode receber um objetivo, consultar diferentes fontes, executar etapas intermediárias e entregar um resultado dentro de um fluxo de trabalho.

No caso do Gemini Enterprise for Legal, isso pode significar revisar documentos, identificar cláusulas importantes, consultar precedentes, verificar citações, acompanhar mudanças regulatórias ou preparar uma primeira versão de determinados documentos.

O Google cita tarefas como elaboração de peças, verificação de citações, gestão do ciclo de vida de contratos, monitoramento regulatório e atendimento a solicitações de acesso a dados pessoais, conhecidas pela sigla DSAR.

A mudança de lógica é importante: a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de consulta e passa a funcionar como uma camada de execução sobre os sistemas que os profissionais jurídicos já utilizam.

Isso também explica por que as integrações são tão importantes quanto o próprio modelo de inteligência artificial.

Um advogado não trabalha apenas com textos isolados. Ele precisa considerar o histórico de um caso, documentos anteriores, informações sobre clientes, versões de contratos, permissões de acesso, precedentes e regras internas do escritório.

Uma IA que não tenha acesso a esse contexto pode produzir uma resposta aparentemente convincente, mas inadequada para aquele caso específico.

O Google está tentando resolver justamente esse problema.

O contexto do escritório entra na equação

A plataforma foi organizada em quatro grandes componentes: habilidades específicas para tarefas jurídicas, conectores para sistemas especializados, agentes desenvolvidos por parceiros e uma camada de governança integrada.

Essa estrutura permite que o Gemini Enterprise for Legal se conecte a ferramentas como iManage, NetDocuments, Everlaw, RelativityOne, DocuSign, Harvey, Legora e Thomson Reuters, além de bases jurídicas como o CourtListener, do Free Law Project.

Na prática, isso significa que o agente não precisa trabalhar necessariamente a partir de documentos copiados manualmente para uma ferramenta de IA.

Um exemplo ajuda a entender a diferença.

Imagine que um departamento jurídico precise descobrir quais contratos de uma empresa podem ser afetados por uma nova mudança regulatória. Em um fluxo tradicional, profissionais poderiam precisar localizar os documentos, pesquisar cláusulas relevantes, comparar versões e verificar quais unidades ou clientes estão envolvidos.

Com as integrações da nova plataforma, a intenção do Google é permitir que agentes façam parte desse trabalho diretamente sobre os sistemas corporativos conectados.

A integração com o NetDocuments, por exemplo, permite que informações como histórico de casos, dados de clientes, documentos e versões sejam consultadas respeitando as permissões existentes. Os documentos permanecem no ambiente controlado pelo sistema.

Com o Everlaw, a IA pode trabalhar sobre dados de litígios e investigações, ajudando equipes a pesquisar documentos, identificar informações relevantes e construir uma visão inicial de um caso sem retirar a evidência do ambiente governado pela plataforma.

É uma diferença sutil, mas fundamental: a IA passa a buscar o contexto onde ele já está armazenado, em vez de exigir que o contexto seja levado até ela.

Segurança pode ser tão importante quanto inteligência

No mercado jurídico, a capacidade de raciocínio de um modelo não é suficiente.

Um sistema pode ser excelente em linguagem e ainda assim ser inadequado para uma banca se não conseguir respeitar sigilo, permissões internas e as chamadas barreiras éticas, que impedem determinadas pessoas ou equipes de acessar informações de determinados clientes ou casos.

O Google afirma que o Gemini Enterprise for Legal foi projetado levando essas exigências em consideração. A empresa diz que os agentes podem herdar as permissões e barreiras éticas dos sistemas conectados, enquanto dados, arquivos de clientes, playbooks e conhecimento interno permanecem dentro do perímetro privado da organização.

A empresa também afirma que essas informações não serão usadas para treinar os modelos do Google.

Para uma organização jurídica, essa promessa pode ser decisiva.

A preocupação não é apenas evitar que um documento confidencial seja exposto. Também existe o risco de uma IA misturar informações de clientes diferentes, utilizar um documento ao qual determinado profissional não deveria ter acesso ou produzir uma conclusão sem base jurídica verificável.

Por isso, a proposta inclui uma camada centralizada de controle para equipes de tecnologia e risco. Ela oferece recursos de governança, auditoria e acompanhamento dos acessos e resultados produzidos pelos agentes.

O Google quer que a IA consulte a fonte, não apenas sua memória

Outro ponto especialmente relevante está na pesquisa jurídica.

Modelos generativos podem produzir respostas plausíveis mesmo quando não possuem uma fonte adequada para determinada afirmação. No direito, isso é particularmente problemático porque uma citação errada ou uma interpretação baseada em autoridade inexistente pode comprometer um trabalho inteiro.

Por isso, o Google está conectando a plataforma a fontes jurídicas especializadas.

O CourtListener, por exemplo, disponibiliza acesso a milhões de decisões judiciais estaduais e federais, além de dados de processos, perfis de juízes e argumentos orais. O Courtroom5 acrescenta informações relacionadas a litígios civis, regras processuais e cálculos de prazos.

A intenção é que os resultados sejam fundamentados em fontes jurídicas relevantes, e não simplesmente no conhecimento incorporado ao modelo durante seu treinamento.

Isso não elimina a necessidade de revisão humana. Pelo contrário. Em um ambiente jurídico, a função da IA tende a ser muito mais próxima de acelerar o trabalho de profissionais especializados do que substituir completamente o julgamento de um advogado.

Thomas Kurian, CEO do Google Cloud, destacou justamente a necessidade de que os fluxos conduzidos por agentes sejam precisos, factuais e fundamentados em autoridade jurídica.

Contratos, processos e conformidade entram no radar

A quantidade de tarefas que a plataforma pretende automatizar ajuda a mostrar a dimensão da aposta.

Uma delas é a criação e atualização de playbooks de contratos. O sistema pode analisar acordos existentes para identificar termos importantes, posições alternativas de negociação e conhecimento acumulado pela organização.

Isso pode ajudar empresas que precisam manter padrões semelhantes em centenas ou milhares de contratos.

Outra aplicação está na preparação de documentos judiciais. O Google cita, por exemplo, o fluxo de uma motion to seal, que envolve preparar documentos para apresentação sob sigilo e identificar informações sensíveis ou dados pessoais que precisam ser protegidos.

Também existe espaço para a criação de documentos como NDAs. Nesse caso, a proposta inclui manter padrões estruturais definidos pelo escritório, verificando hierarquia e formatação do documento enquanto a IA auxilia na elaboração.

A automação também chega à área de privacidade.

Com recursos de DSAR, a plataforma pode ajudar a localizar e reunir dados pessoais espalhados por sistemas conectados, reduzindo o trabalho manual necessário para responder solicitações de titulares dentro dos prazos estabelecidos por regulamentações de proteção de dados.

O grande teste será a confiança

É aqui que a estratégia do Google encontra seu maior desafio.

No setor jurídico, economizar alguns minutos em uma tarefa não compensa se a ferramenta introduzir um erro que depois precise ser descoberto e corrigido por um advogado. Quanto mais autonomia um agente recebe, maior também é a importância de controles, rastreabilidade e revisão.

O Google parece reconhecer essa realidade ao colocar governança e integração no centro do produto.

A plataforma também não está sendo construída sozinha. Empresas como Accenture, Deloitte, KPMG, Devoteam, Eudia, Factor Law, Tribe AI, Valtech, Zazmic e 66degrees participam do ecossistema de parceiros anunciado pela companhia.

Ao mesmo tempo, empresas especializadas em tecnologia jurídica estão conectando seus próprios produtos ao Gemini Enterprise for Legal.

A Relativity, por exemplo, integrou o RelativityOne por meio do Model Context Protocol, ou MCP, permitindo que usuários acionem fluxos relacionados a casos e dados jurídicos a partir do ambiente do Gemini, enquanto os dados permanecem dentro das estruturas de segurança da plataforma.

A Legora também entrou no lançamento como parceira. Sua integração permite que clientes aprovados façam perguntas jurídicas dentro do Gemini Enterprise e recebam respostas com links de volta ao ambiente da Legora para revisão das fontes, citações e histórico.

Isso revela uma estratégia interessante.

Em vez de tentar substituir todo o ecossistema jurídico existente, o Google quer transformar o Gemini Enterprise em uma camada de orquestração, capaz de conversar com diferentes ferramentas especializadas.

Quatro grandes escritórios ajudam a testar a tecnologia

O lançamento também chama atenção pelos primeiros usuários.

Cleary Gottlieb, Freshfields, Weil e Williams & Connolly estão entre os escritórios envolvidos desde o início. A participação dessas empresas serve não apenas como vitrine comercial, mas também como uma forma de testar a tecnologia em ambientes jurídicos complexos.

No caso da Weil, a parceria foi apresentada como uma oportunidade para obter acesso antecipado às novas capacidades e ajudar a moldar a evolução da plataforma de acordo com as necessidades da prática jurídica sofisticada.

A lógica é importante porque a distância entre uma demonstração de IA e uma ferramenta realmente útil para um grande escritório pode ser enorme.

Um agente precisa entender permissões, documentos, processos internos, padrões de redação, fontes confiáveis e limites de atuação. Também precisa se encaixar na rotina dos profissionais sem criar mais uma ferramenta isolada que exija trabalho manual para alimentar e revisar.

O Google está tentando atacar justamente esse problema.

A pressão econômica está acelerando a corrida

Existe ainda uma força externa empurrando os escritórios para esse movimento: os próprios clientes.

Segundo Jonathon Soler, co-gestor da Weil, as expectativas dos clientes mudaram e os escritórios passaram a enfrentar maior pressão para adotar IA e demonstrar os ganhos financeiros que a tecnologia pode gerar.

Isso ajuda a explicar por que o debate sobre IA no direito deixou de ser apenas tecnológico.

Para grandes bancas, a questão agora envolve produtividade, custos, velocidade de atendimento e capacidade de oferecer serviços competitivos.

Se uma equipe consegue revisar milhares de documentos mais rapidamente, identificar riscos contratuais antes de uma negociação ou encontrar precedentes relevantes em menos tempo, o impacto pode aparecer diretamente no modelo de prestação de serviços.

Mas existe outro lado.

Quanto mais tarefas forem automatizadas, maior será a necessidade de definir quem responde pelo resultado produzido por uma máquina. O advogado continuará sendo responsável pela análise final? Em quais situações o agente poderá agir sem aprovação? Como registrar cada decisão tomada durante um fluxo automatizado?

Essas perguntas não são detalhes técnicos. Elas fazem parte do próprio futuro da profissão.

Google transforma o Gemini em uma plataforma por setores

O lançamento do produto jurídico também revela uma mudança maior na estratégia do Google Cloud.

A empresa apresentou o Gemini Enterprise como uma plataforma para criação, gerenciamento e governança de agentes empresariais. Agora, em vez de entregar apenas essa infraestrutura, o Google começa a empacotar soluções específicas para setores que possuem necessidades particulares.

O jurídico é um dos primeiros exemplos. O financeiro foi anunciado simultaneamente, com ferramentas voltadas para fluxos de trabalho de instituições desse mercado.

A empresa também afirma que pretende levar a abordagem para áreas como saúde, ciências da vida e outros serviços profissionais.

Essa estratégia pode ser importante para o futuro da inteligência artificial empresarial.

Modelos generalistas continuarão sendo importantes, mas empresas de setores regulados precisam de algo além de inteligência. Elas precisam de contexto, permissões, dados confiáveis, integrações e governança.

É justamente essa combinação que o Google está tentando transformar em produto.

A grande aposta não é apenas fazer o Gemini entender direito. É fazer a IA trabalhar dentro do direito.

Se a plataforma conseguir entregar isso em escala, o lançamento pode representar uma mudança significativa na forma como grandes escritórios e departamentos jurídicos usam inteligência artificial.

A IA não ficaria restrita à janela de um chatbot. Ela passaria a ocupar uma posição muito mais próxima da infraestrutura operacional do escritório, conectando documentos, sistemas, bases jurídicas e agentes especializados.

Por enquanto, o Gemini Enterprise for Legal ainda está em prévia. Isso significa que boa parte da promessa terá de ser comprovada no uso cotidiano.

Mas o sinal dado pelo Google é claro: a próxima disputa da inteligência artificial empresarial não será apenas sobre qual modelo responde melhor. Será sobre qual plataforma consegue transformar inteligência artificial em trabalho real, com contexto suficiente para ser útil e controles suficientes para ser confiável.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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