Bilibili relança app internacional e mira YouTube: empresa já contrata em São Paulo

Renê Fraga
17 min de leitura

Principais destaques

  • A Bilibili relançou o aplicativo internacional e eliminou a exigência de documento de identidade para usuários estrangeiros que querem publicar conteúdo.
  • A empresa prepara um site em inglês e procura criadores, estúdios e parceiros em mercados como Estados Unidos, Japão, Europa e Brasil.
  • Uma vaga de Business Development & Community Manager em São Paulo mostra que o Brasil não está apenas sendo observado de longe.

A plataforma chinesa quer sair de sua zona de conforto. Depois de anos concentrada no mercado asiático, a Bilibili voltou a colocar seu aplicativo internacional em circulação, retirou uma das principais barreiras para criadores estrangeiros e começou a montar uma estrutura para disputar atenção fora da China.

O movimento chega acompanhado de uma promessa ainda maior: um site em inglês para facilitar a publicação de vídeos por produtores internacionais.

E São Paulo está no meio dessa história.

TL;DR

A Bilibili, uma das maiores plataformas de vídeo da China, está tentando transformar sua enorme comunidade doméstica em uma operação global. O aplicativo internacional voltou, o cadastro ficou mais simples e a empresa começou a procurar criadores e parceiros em vários países. No Brasil, a vaga aberta em São Paulo é um dos sinais mais concretos de que a expansão chegou por aqui.

A notícia não significa que o YouTube terá amanhã um novo rival com a mesma escala global. A Bilibili ainda está construindo sua operação internacional e não apresentou um cronograma completo para essa expansão.

Mas os sinais deixaram de ser isolados.

A empresa está mexendo simultaneamente no aplicativo, no cadastro, na distribuição de conteúdo, na estrutura para criadores e na contratação de equipes locais. Quando todos esses movimentos aparecem juntos, fica difícil enxergar o projeto apenas como um experimento.

A Bilibili quer deixar de ser conhecida apenas na China

A Bilibili nasceu como uma comunidade ligada a animação, quadrinhos e games e construiu uma identidade muito particular ao longo dos anos. O serviço cresceu até se tornar uma das principais plataformas de vídeo da China, com uma audiência especialmente forte entre usuários mais jovens.

Agora, a companhia parece querer transformar essa força em uma marca internacional.

Em 19 de agosto, a conta oficial bilibili Creator Hub afirmou que o aplicativo internacional havia sido lançado globalmente. A primeira versão está disponível no Android, enquanto uma versão para iOS e a expansão para mais países foram indicadas como próximas etapas. A própria comunicação destacou três pontos: conteúdo distribuído globalmente, localização melhorada e cadastro mais simples, sem verificação de identidade.

A mudança é importante porque a versão chinesa impunha barreiras consideráveis para quem estava fora do país e queria publicar.

Agora, a empresa está tentando tornar essa porta de entrada muito mais parecida com aquilo que o público internacional espera de uma plataforma de vídeo.

O detalhe que muda bastante a experiência

Não exigir passaporte ou outro documento de identidade para o cadastro internacional parece uma alteração burocrática.

Na prática, pode ser uma das decisões mais importantes da nova estratégia.

Um criador estrangeiro que encontra uma plataforma desconhecida precisa de um motivo para testar o serviço. Se, logo no primeiro contato, precisa entregar documentação pessoal para conseguir publicar, a chance de desistência aumenta.

Ao remover esse obstáculo, a Bilibili reduz o atrito justamente no ponto em que precisa crescer: a entrada de pessoas que ainda não fazem parte de sua comunidade.

Isso não significa que todas as funções da plataforma ficaram livres de verificação. A política de privacidade da Bilibili continua prevendo autenticação de identidade para determinadas funções, como transmissões ao vivo, saques, recuperação de conta e algumas operações comerciais.

A diferença está no acesso internacional básico e, principalmente, na possibilidade de começar a publicar sem entregar um documento.


371 milhões de usuários mostram por que a aposta é séria

A Bilibili não está começando do zero.

O resultado financeiro mais recente, divulgado em 27 de agosto, mostra uma plataforma já gigantesca dentro da China. No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou 371 milhões de usuários ativos mensais e 116,5 milhões de usuários ativos diariamente.

O usuário médio também passou bastante tempo dentro do serviço: foram 113 minutos por dia, segundo os dados divulgados pela companhia. O tempo total gasto pelos usuários cresceu 14% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Bilibili em números

Indicador2º trimestre de 2026
Usuários ativos mensais371 milhões
Usuários ativos diários116,5 milhões
Tempo médio diário113 minutos
Receita trimestralRMB 7,94 bilhões
Receita de publicidadeRMB 3,13 bilhões
Crescimento da receita+8%

Os números ajudam a entender a ambição internacional.

A empresa já possui audiência, infraestrutura e experiência para operar uma grande comunidade de vídeo. O que falta é transformar uma plataforma essencialmente chinesa em um produto que faça sentido para pessoas em diferentes idiomas e culturas.

E esse é um desafio muito maior do que simplesmente traduzir botões.

A companhia precisa convencer criadores a publicar, encontrar conteúdo relevante para cada país, construir relações comerciais, adaptar a experiência e criar mecanismos de descoberta que façam um usuário brasileiro, americano ou japonês encontrar motivos para voltar.

É justamente aí que entram as novas contratações.


São Paulo não aparece por acaso

Entre os sinais mais interessantes está uma vaga aberta pela Bilibili em São Paulo para Business Development & Community Manager.

A descrição da posição vai muito além de cuidar de redes sociais.

O profissional deverá buscar estúdios independentes de animação, donos de propriedades intelectuais, parceiros institucionais e criadores de conteúdo. Também deverá representar a empresa em eventos, organizar encontros, desenvolver relacionamentos e negociar parcerias.

Isso revela uma estratégia bastante diferente de simplesmente traduzir o aplicativo.

A Bilibili está tentando construir uma comunidade local.

O objetivo não é apenas trazer espectadores. É trazer quem produz o conteúdo.

A vaga também cita interesse em AIGC e formatos emergentes, além de exigir familiaridade com o mercado local de conteúdo. O inglês em nível nativo ou próximo disso aparece entre os requisitos.

São Paulo, portanto, não parece ter sido escolhida apenas para servir como ponto administrativo.

A posição prevê contato direto com o ecossistema brasileiro de conteúdo, participação em eventos e desenvolvimento de parcerias.

Isso coloca a empresa mais perto de estúdios, produtores e criadores brasileiros.

Uma equipe internacional está sendo montada

São Paulo não é a única cidade no radar.

As vagas identificadas na estratégia internacional incluem posições de comunidade em Los Angeles, Londres, Cidade do México, São Paulo, Istambul e Tóquio. Em Singapura, a empresa também procura profissionais ligados a sistemas de moderação de conteúdo com inteligência artificial.

O desenho é revelador.

Em vez de tentar operar tudo a partir da China, a Bilibili está distribuindo pessoas pelos mercados onde pretende construir comunidades.

É uma estratégia que lembra, em escala diferente, o caminho percorrido por outras plataformas globais: primeiro criar audiência, depois construir relações com criadores, anunciantes e parceiros locais.


O site em inglês pode ser a peça que estava faltando

O aplicativo é apenas uma parte da história.

A Bilibili também prepara um site em inglês voltado ao público internacional. A intenção, segundo materiais distribuídos a criadores e informações obtidas por veículos que acompanharam a movimentação, é facilitar a entrada de produtores que não falam chinês.

Hoje, essa diferença é importante.

Uma plataforma pode até ter um aplicativo internacional, mas se o processo de publicação e descoberta continuar preso à lógica de seu mercado doméstico, fica difícil convencer criadores ocidentais a adotá-la como uma ferramenta profissional.

Um portal em inglês muda essa equação.

Ele pode servir como porta de entrada para criadores, estúdios, agências e marcas que nunca tiveram contato com a Bilibili.

E existe outro detalhe interessante: a empresa vem tentando apresentar a operação internacional como uma extensão do mesmo ecossistema de conteúdo, e não como uma plataforma completamente separada.

Isso significa que a Bilibili pode levar para o público estrangeiro uma parte da enorme biblioteca construída na China ao mesmo tempo em que tenta incorporar produção internacional.


[ Prós ]

Audiência enorme

A empresa encerrou o segundo trimestre com 371 milhões de usuários ativos mensais, dando à expansão uma base financeira e tecnológica muito maior do que a de uma startup começando do zero.

Entrada mais simples

A retirada da verificação de identidade para o cadastro internacional reduz uma barreira que dificultava a participação de criadores estrangeiros.

Brasil no plano

A vaga em São Paulo busca justamente construir relacionamentos com criadores, estúdios e parceiros locais.

Conteúdo com identidade própria

Anime, games, cultura pop e comunidades de interesse são áreas nas quais a Bilibili já possui experiência e público.


[ Contras ]

Ainda não é um YouTube global

A operação internacional está sendo construída. Não há indicação de que a Bilibili já tenha uma presença internacional comparável à do YouTube.

O site em inglês ainda está no futuro

A empresa revelou o plano, mas o portal internacional em inglês ainda não está disponível como uma operação madura.

Moderação será um desafio

A companhia precisa adaptar suas políticas e sistemas para diferentes mercados, culturas e legislações. A própria expansão internacional prevê o desenvolvimento de estruturas de moderação com inteligência artificial.

Criadores precisam de motivos para ficar

Ter uma plataforma disponível é uma coisa. Fazer um produtor abandonar parte de sua estratégia no YouTube, TikTok ou outras redes é outra completamente diferente.


O Brasil pode ser um dos mercados mais interessantes

A escolha de São Paulo chama atenção porque o Brasil tem uma combinação particularmente atraente para uma plataforma de vídeo.

Existe uma população enorme conectada à internet, uma cultura muito forte de produção de conteúdo e comunidades extremamente ativas em games, anime, música, tecnologia e entretenimento.

São também áreas próximas da identidade histórica da Bilibili.

A vaga brasileira menciona especificamente estúdios de animação, propriedades intelectuais e criadores. Isso sugere que a empresa não está procurando apenas alguém para vender anúncios.

Ela quer construir um ecossistema.

Esse detalhe pode ser decisivo.

Uma plataforma de vídeo dificilmente consegue competir apenas oferecendo um aplicativo. O que faz um serviço crescer é a combinação entre criadores, conteúdo e audiência.

Se a Bilibili conseguir atrair alguns produtores brasileiros relevantes, esses criadores podem trazer seus próprios públicos. A partir daí, o catálogo começa a ganhar características locais.

É assim que uma plataforma estrangeira deixa de parecer estrangeira.


E o YouTube, precisa se preocupar?

Ainda não.

Pelo menos não no sentido de uma ameaça imediata à liderança global.

O YouTube possui uma escala, uma infraestrutura publicitária, uma base de criadores e uma presença cultural que a Bilibili levaria anos para replicar.

Mas seria um erro olhar para a movimentação chinesa apenas como mais um aplicativo tentando copiar o YouTube.

A Bilibili tem uma comunidade muito particular e vem construindo sua própria lógica de relacionamento com usuários.

O interesse internacional também não surgiu do nada.

A companhia já vinha tentando atrair criadores conhecidos fora da China. Entre os nomes que receberam atenção da empresa está MrBeast, um dos maiores criadores do mundo.

Agora, a estratégia parece estar ficando mais estruturada.

Não se trata apenas de convidar uma celebridade para publicar alguns vídeos.

É criar uma infraestrutura para que centenas ou milhares de criadores tenham razões para entrar.


A grande disputa pode acontecer antes mesmo dos vídeos

Existe uma camada ainda mais importante nessa história.

O verdadeiro campo de batalha não será apenas o número de vídeos.

Será a atenção.

A Bilibili chega ao mercado internacional em um momento no qual YouTube, TikTok, Instagram e outras plataformas disputam o mesmo recurso escasso: o tempo das pessoas.

Para conseguir espaço, ela precisa responder a uma pergunta simples:

por que alguém deveria abrir a Bilibili em vez de abrir o YouTube?

A resposta provavelmente não será apenas “porque temos vídeos”.

Terá de envolver comunidade, descoberta, conteúdo exclusivo, criadores interessantes e uma experiência diferente.

É justamente por isso que a contratação em São Paulo importa tanto.

Se a empresa estivesse interessada somente em distribuir vídeos chineses no Brasil, não precisaria montar uma equipe para procurar estúdios, propriedades intelectuais e criadores brasileiros.

Ela quer conteúdo local.

E conteúdo local significa competição de verdade.


A Bilibili está chegando, mas ainda está montando a casa

Há uma diferença importante entre dizer que a Bilibili chegou ao Brasil e dizer que a Bilibili está preparando sua chegada.

Hoje, a segunda frase é mais precisa.

A empresa relançou seu aplicativo internacional, retirou a exigência de documento de identidade para o acesso internacional básico, prometeu uma experiência em inglês e abriu uma posição estratégica em São Paulo.

Ao mesmo tempo, continua construindo equipes em outras cidades e tentando atrair criadores de fora da China.

Tudo isso acontece enquanto a própria Bilibili mantém uma operação gigantesca em seu mercado doméstico. No segundo trimestre, a empresa registrou crescimento de receita de 8% e lucro líquido de RMB 339,1 milhões, além dos 371 milhões de usuários mensais.

Ou seja, a expansão internacional não está sendo financiada por uma empresa pequena tentando sobreviver.

É uma plataforma já estabelecida que decidiu tentar uma jogada muito maior.

A Bilibili ainda não é o próximo YouTube. Mas, pela primeira vez, está construindo as condições para tentar ser uma alternativa global a ele.

E o fato de São Paulo estar entre as cidades escolhidas torna essa história especialmente interessante para o Brasil.

O próximo passo será descobrir se os criadores brasileiros vão aceitar o convite.

Se aceitarem, a disputa pelo tempo de tela pode ganhar uma nova concorrente.

Apoie o Eurisko
Este conteúdo é independente, sem anúncios e feito por pessoas.
A inteligência artificial e as mudanças recentes do Google reduziram significativamente o alcance dos sites independentes. Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar o Eurisko e todo o ecossistema de projetos com qualquer valor.
Quero apoiar
Seguir:
Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
Nenhum comentário