Astrônomo amador encontra cratera de impacto de 390 milhões de anos no Google Maps

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Uma descoberta por acaso: Joël Lapointe procurava um lugar para acampar quando percebeu uma enorme depressão circular nas imagens do Google Maps.
  • Uma cratera gigantesca: a estrutura Uhackatik tem cerca de 25 quilômetros de largura e se formou há aproximadamente 390 milhões de anos.
  • Ciência cidadã em campo: pesquisadores confirmaram a descoberta após uma expedição ao remoto Québec, onde encontraram evidências geológicas características de impactos de meteoritos.

Imagine abrir o Google Maps procurando um lugar para montar a barraca e, em vez disso, encontrar uma estrutura geológica que pode ter sido formada quando os primeiros grandes animais ainda nem existiam.

Foi exatamente o que aconteceu com o astrônomo amador francês Joël Lapointe.

Em 2024, enquanto procurava locais para acampar na região de Côte-Nord, no Québec, Lapointe percebeu uma formação circular incomum próxima ao Lago Marsal. A aparência chamou sua atenção e ele decidiu levar a suspeita a pesquisadores.

O palpite parecia improvável.

Mas não era.

Uma depressão que escondia uma história gigantesca 🔎

A estrutura, posteriormente batizada de Uhackatik, possui aproximadamente 25 quilômetros de largura.

Pesquisadores estimaram que ela tenha cerca de 390 milhões de anos, colocando o impacto em uma época muito anterior ao surgimento dos dinossauros.

A descoberta também tem importância histórica. Se receber o reconhecimento formal da Meteoritical Society, Uhackatik será a maior cratera de impacto confirmada na Terra desde 2018.

Naquele ano, a cratera Hiawatha, com cerca de 31 quilômetros de diâmetro, foi identificada sob o gelo da Groenlândia.

EstruturaLocalizaçãoDiâmetro aproximado
HiawathaGroenlândia31 km
UhackatikQuébec, Canadá25 km

A comparação ajuda a dimensionar o achado. Não estamos falando de uma pequena depressão provocada por um meteorito recente, mas de uma estrutura geológica que se estende por dezenas de quilômetros.

O Google Maps foi só o começo 🛰️

Lapointe levou sua observação a pesquisadores da Universidade Aix-Marseille, na França.

O local acabou sendo apresentado como uma possível estrutura de impacto durante uma reunião da Meteoritical Society em 2024.

Foi aí que a história deixou de ser apenas uma curiosidade encontrada em um mapa.

O geólogo planetário Gordon Osinski, da Western University, no Canadá, e diretor do banco de dados Impact Earth, organizou uma expedição para investigar a formação diretamente no terreno.

E chegar até lá não foi exatamente como seguir uma rota no aplicativo.

Quatro pesquisadores contra um terreno difícil 🌲

Em outubro de 2025, uma equipe de quatro pessoas viajou de hidroavião até a região.

O cenário encontrado era bastante remoto. Para alcançar a área de interesse, os pesquisadores precisaram atravessar cerca de 50 metros de água e avançar por terreno pantanoso e coberto por vegetação densa.

Mas a recompensa apareceu rapidamente.

No segundo dia de trabalho, a equipe encontrou shatter cones, estruturas geológicas produzidas pela intensa onda de choque associada a impactos de grandes objetos.

🪨 A pista decisiva: os shatter cones foram identificados em vários afloramentos rochosos, fornecendo uma evidência de campo particularmente importante para confirmar a origem da formação.

Segundo Osinski, esse tipo de estrutura é a única evidência inequívoca de um evento de impacto que pode ser observada diretamente em campo a olho nu.

💡 O detalhe que transformou uma suspeita em descoberta: a forma circular vista no mapa era apenas o começo. Foram as rochas encontradas no local que forneceram a evidência física do impacto.

E como descobriram a idade?

A equipe também coletou amostras de rocha para análise laboratorial.

Os resultados apontaram para uma idade de aproximadamente 390 milhões de anos para o evento.

Isso coloca o impacto no período Devoniano, uma época em que a Terra tinha uma configuração muito diferente da atual.

A vida já havia se diversificado nos oceanos e os primeiros ecossistemas terrestres estavam se desenvolvendo, mas ainda faltava muito tempo para o domínio dos dinossauros.

Ou seja: quando o objeto atingiu a região que hoje pertence ao Québec, nossa história natural estava em uma fase completamente diferente.

O nome também tem uma história 🌎

A estrutura recebeu o nome Uhackatik após consultas com o Conselho Innu de Ekuanitshit.

A formação está localizada em terras tradicionais dos Innu, e a escolha do nome incorporou essa relação com o território.

Esse detalhe acompanha uma tendência importante na pesquisa contemporânea de estruturas geológicas e arqueológicas: além de identificar uma descoberta científica, pesquisadores também precisam considerar a história e os vínculos das comunidades que vivem ou possuem relações tradicionais com essas regiões.

Um caso raro de ciência cidadã 👀

Talvez o aspecto mais curioso da descoberta seja justamente quem percebeu a estrutura primeiro.

Lapointe não fazia parte de uma equipe científica procurando crateras.

Ele estava procurando um lugar para acampar.

De acordo com Osinski, trata-se da primeira vez que uma estrutura de impacto identificada inicialmente por uma pessoa do público é posteriormente confirmada como cratera de impacto.

Isso é especialmente relevante porque existem aproximadamente 200 estruturas de impacto confirmadas na Terra, e a maioria foi identificada por geólogos e outros pesquisadores profissionais.

Aqui, o caminho foi inverso.

Uma observação casual levou a uma hipótese. A hipótese levou a uma expedição. E a expedição encontrou evidências geológicas.

E agora?

O reconhecimento formal ainda depende da Meteoritical Society, que deverá analisar a descoberta em sua próxima reunião.

Se aprovada, Uhackatik se tornará a 11ª estrutura de impacto conhecida no Québec.

Para Lapointe, a experiência também deixa uma lição bastante simples.

Em declaração ao CityNews, ele disse ter ficado “nas nuvens” quando os pesquisadores confirmaram sua suspeita e incentivou outras pessoas a não ignorarem uma observação simplesmente porque ela está fora de sua área de especialidade.

No fim, uma busca feita para encontrar um bom lugar para dormir ao ar livre acabou revelando uma cicatriz deixada por um impacto ocorrido centenas de milhões de anos antes.

E talvez seja justamente essa a parte mais interessante da história: às vezes, basta olhar para um mapa com atenção para perceber que o terreno em que estamos pisando guarda uma história muito maior do que parece.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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