Google vai colocar uma TPU em órbita para testar data center de IA no espaço

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Primeiro teste orbital: Google pretende lançar um satélite equipado com uma TPU Trillium em 1º de outubro, a bordo de um Falcon 9 da SpaceX.
  • IA contra o ambiente espacial: o protótipo será submetido a radiação, vibração, temperaturas extremas e aos desafios de dissipação de calor no vácuo.
  • Um data center fora da Terra: o Projeto Suncatcher prevê constelações de satélites capazes de processar IA em órbita, mas a própria análise do Google aponta que a ideia ainda depende de uma forte queda nos custos de lançamento.

O Google quer descobrir se existe uma maneira diferente de construir a infraestrutura de inteligência artificial.

Em vez de colocar mais servidores em grandes data centers na Terra, a empresa está começando a testar uma possibilidade bem mais distante: levar os chips de IA para o espaço.

O primeiro passo será bastante concreto. Um satélite experimental equipado com uma TPU do Google deve ser colocado em órbita terrestre baixa em 1º de outubro.

A primeira TPU do Google no espaço 🚀

O satélite, chamado internamente de MVP, será lançado em um foguete Falcon 9 da SpaceX, a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia.

O lançamento fará parte da missão de carona compartilhada Transporter-18 e foi desenvolvido em parceria com a Planet Labs.

A missão terá uma função essencialmente experimental: descobrir como o hardware desenvolvido para inteligência artificial se comporta quando deixa o ambiente relativamente confortável de um laboratório.

🔬 O teste é mais amplo do que simplesmente ligar o chip: o equipamento terá de enfrentar as forças do lançamento, a radiação espacial e as temperaturas extremas encontradas em órbita.

E existe uma pergunta especialmente importante: o chip consegue continuar funcionando?

Antes do espaço, veio o laboratório ☢️

As TPUs Trillium já passaram por testes de radiação em uma instalação de feixe de prótons da Universidade da Califórnia, em Davis.

Durante os experimentos, os chips receberam doses de radiação enquanto executavam cargas de trabalho de inteligência artificial.

Segundo o Google, as TPUs suportaram uma dose total de radiação ionizante superior àquela que receberiam ao longo de uma missão espacial de cinco anos.

Isso não elimina todos os riscos, mas indica que uma das principais dificuldades do projeto já começou a ser investigada em condições controladas.

E depois veio o terremoto particular

O Google também precisou descobrir se o satélite sobreviveria ao momento mais violento de qualquer viagem espacial: o lançamento.

O equipamento, aproximadamente do tamanho de uma geladeira, passou por testes de vibração em um laboratório em São Francisco.

A ideia era reproduzir as condições às quais a estrutura seria submetida durante a subida do Falcon 9.

🛠️ O resultado foi positivo: os parafusos permaneceram no lugar e os chips internos não sofreram danos.

James Manyika, vice-presidente sênior de pesquisa do Google, classificou os resultados dos testes de vibração como “ótimos”, embora tenha admitido que está curioso para descobrir como o equipamento se comportará quando finalmente chegar ao espaço.

💡 O laboratório consegue simular muita coisa. A órbita é onde o Google vai descobrir o que ainda não conseguiu simular.

O problema que não dá para resolver com ventilador 🌡️

Existe ainda outro desafio menos cinematográfico, mas fundamental para qualquer data center: calor.

TPUs consomem energia e, como consequência, produzem calor. Em um data center terrestre, sistemas de refrigeração movimentam ar e utilizam outras técnicas para retirar esse calor dos equipamentos.

No espaço, não existe atmosfera para simplesmente fazer o ar circular.

O Google está, portanto, testando uma combinação de tubos de calor e radiadores para transportar e dissipar a energia térmica.

É uma mudança importante de engenharia.

Na Terra, parte da infraestrutura necessária para manter milhares de chips funcionando está justamente ao redor dos chips. No espaço, cada componente precisa ser pensado levando em consideração massa, energia, temperatura e capacidade limitada de manutenção.

O Projeto Suncatcher vai muito além de um satélite ☀️

O lançamento de outubro é apenas o começo.

O Google apresentou oficialmente o Projeto Suncatcher em novembro de 2025, em um trabalho preliminar que descreveu uma possível arquitetura para constelações de satélites dedicadas à computação de IA.

A ideia de longo prazo envolve grupos de satélites interconectados em órbitas heliossíncronas.

E existe uma vantagem óbvia nessa escolha: acesso à energia solar.

De acordo com a proposta do Google, painéis solares posicionados nessas órbitas poderiam produzir até oito vezes mais energia do que em determinadas condições na superfície terrestre.

☀️ Em outras palavras: o Google está tentando combinar dois recursos extremamente valiosos para a IA, energia solar abundante e infraestrutura computacional, em um lugar onde o espaço disponível é praticamente ilimitado.

Mas transformar essa ideia em um negócio é outra história.

Ainda falta fazer os satélites conversarem 🔭

Para que um conjunto de satélites funcione como uma infraestrutura de computação, não basta colocar TPUs em órbita.

Os equipamentos precisam trocar grandes quantidades de dados entre si.

É aí que entram os links ópticos a laser de alta largura de banda.

O Google planeja lançar mais dois satélites em 2027 para testar justamente essa parte da arquitetura.

A evolução planejada pode ser resumida assim:

1️⃣ Primeiro: verificar se a TPU consegue sobreviver ao lançamento e operar em órbita.

2️⃣ Depois: testar comunicação de alta velocidade entre os satélites.

3️⃣ No futuro: conectar grupos de satélites para formar uma infraestrutura orbital de computação.

Essa última etapa ainda está longe de ser realidade comercial.

A conta precisa fechar 💰

O espaço pode oferecer energia solar em abundância, mas colocar equipamentos lá em cima continua sendo caro.

E existe uma diferença enorme entre demonstrar que uma tecnologia funciona e provar que ela é economicamente competitiva.

A própria análise do Google indica que os custos de lançamento precisariam cair para menos de US$ 200 por quilograma para que data centers orbitais possam competir economicamente com instalações terrestres.

A estimativa apresentada pela empresa coloca esse patamar em algum momento de meados da década de 2030.

QuestãoSituação atual
TPU em órbitaPrimeiro teste previsto para 1º de outubro
Comunicação entre satélitesNovos testes previstos para 2027
ResfriamentoTubos de calor e radiadores em avaliação
Viabilidade econômicaDepende de lançamentos abaixo de US$ 200/kg
Data centers orbitais em escalaAinda uma visão de longo prazo

Então o Google realmente quer construir data centers no espaço? 🛰️

O Projeto Suncatcher aponta nessa direção, mas existe uma diferença importante entre pesquisar a possibilidade e anunciar um plano comercial pronto para execução.

Por enquanto, o Google está desmontando o problema em partes.

  • Primeiro, o chip.
  • Depois, a sobrevivência do hardware.
  • Em seguida, comunicação entre satélites.

Só então entram questões como escala, manutenção, custo e competitividade.

🌌 O curioso é que o primeiro “data center espacial” do Google começa de maneira quase modesta: um único satélite, uma TPU e uma pergunta simples.

Se o chip sobreviver e conseguir trabalhar em órbita, o próximo desafio será descobrir se é possível transformar esse experimento em uma rede de máquinas.

E, nesse caso, o verdadeiro teste do Suncatcher não estará apenas no espaço. Estará na conta que chega de volta à Terra.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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