Google tenta frear ordem da UE para compartilhar dados de busca com rivais

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Recurso contra Bruxelas: Google pediu ao Tribunal Geral da União Europeia a suspensão provisória da ordem que exige o compartilhamento de dados de pesquisa.
  • Privacidade no centro: A empresa afirma que a medida pode expor consultas sensíveis dos usuários, enquanto a Comissão Europeia diz que os dados serão anonimizados.
  • Briga vai além da busca: O Google também contesta uma ordem para ampliar o acesso do Android a serviços de IA concorrentes, em mais um capítulo da disputa sob a Lei dos Mercados Digitais.

O Google está tentando apertar o freio antes que uma nova obrigação regulatória europeia entre em vigor.

A Alphabet entrou com um pedido no Tribunal Geral da União Europeia para suspender provisoriamente uma determinação da Comissão Europeia que exige que a empresa compartilhe dados de pesquisa com mecanismos de busca concorrentes e chatbots de IA, incluindo a OpenAI.

A disputa faz parte de uma ofensiva regulatória mais ampla contra o poder das grandes plataformas digitais na Europa.

O que o Google está contestando? ⚖️

Na terça-feira, a empresa apresentou recursos contra duas decisões tomadas pela Comissão Europeia em julho no âmbito da Lei dos Mercados Digitais, o Digital Markets Act.

A primeira envolve justamente os dados de pesquisa. A segunda determina que o Google amplie o acesso à plataforma Android para serviços de inteligência artificial de empresas concorrentes.

Agora, o Google quer que pelo menos a obrigação relacionada aos dados de busca seja temporariamente interrompida enquanto o processo judicial avança.

🔎 O ponto mais sensível: a empresa afirma que a medida poderia obrigá-la a compartilhar informações derivadas do histórico privado de buscas dos usuários europeus.

Oliver Bethell, diretor sênior de concorrência do Google, afirmou que a companhia está recorrendo de decisões que, segundo ele, poderiam exigir o compartilhamento de histórico de buscas privadas sem anonimização suficiente e enfraquecer proteções de segurança consideradas essenciais no Android.

E as buscas médicas e pessoais? 🔐

Esse é o principal argumento apresentado pelo Google para tentar suspender a ordem.

A empresa afirma que consultas feitas pelos usuários podem revelar informações extremamente sensíveis. Entre os exemplos estão pesquisas relacionadas à saúde, questões pessoais e outros assuntos privados.

A preocupação levantada pela companhia é que esses dados acabem acessíveis a entidades comerciais concorrentes.

A Comissão Europeia, porém, apresenta uma leitura diferente.

Segundo a instituição, suas decisões já consideram requisitos de segurança e proteção de dados pessoais. A Comissão também afirma que as informações de pesquisa deverão ser anonimizadas antes do compartilhamento.

💡 O conflito central: para Bruxelas, os dados podem ajudar a reduzir a vantagem competitiva do Google; para a empresa, o mecanismo pode criar novos riscos para a privacidade.

Por que a UE quer esses dados? 📊

A lógica da Comissão Europeia está relacionada à concorrência.

O Google ocupa uma posição dominante no mercado de buscas, e a União Europeia entende que o acesso a determinados dados pode ajudar concorrentes a desenvolver produtos capazes de disputar esse mercado em condições mais equilibradas.

A determinação estabelece que o compartilhamento deverá começar até janeiro de 2027.

A medida também alcança chatbots e serviços de IA, o que torna a disputa particularmente relevante em um momento em que mecanismos de busca e assistentes de inteligência artificial começam a se aproximar cada vez mais.

Pensando no cenário atual, dados de busca não são apenas um registro do que as pessoas procuram na internet. Eles também podem funcionar como matéria-prima para produtos de pesquisa, recomendação e IA.

E o Android entrou na briga 🤖

O segundo processo aberto pelo Google envolve o Android.

A Comissão Europeia determinou que a empresa amplie o acesso de serviços de IA concorrentes à plataforma móvel.

O prazo estabelecido para essas mudanças é julho de 2027.

O Google argumenta que permitir permissões mais elevadas para aplicativos fora dos mecanismos atuais de verificação poderia comprometer a segurança e a integridade dos dispositivos Android.

Aqui, portanto, o debate muda de eixo.

Na busca, a discussão passa principalmente por dados e concorrência. No Android, envolve acesso à plataforma e segurança.

DisputaExigência da UEPrazo
Dados de pesquisaCompartilhamento com concorrentes e serviços de IAJaneiro de 2027
AndroidAmpliação do acesso a serviços de IA rivaisJulho de 2027

Mais um round entre Google e Bruxelas 🇪🇺

Não é a primeira vez que o Google entra em conflito com a Comissão Europeia por causa da Lei dos Mercados Digitais.

A legislação foi criada para impor obrigações específicas às grandes plataformas consideradas gatekeepers, buscando limitar práticas que possam dificultar a concorrência nos mercados digitais.

O caso atual acrescenta uma dimensão nova: a disputa acontece justamente quando a inteligência artificial está embaralhando as fronteiras entre buscadores, chatbots e plataformas.

⚡ A mudança de cenário: uma obrigação pensada para aumentar a concorrência no mercado de buscas agora também pode afetar diretamente a corrida pela IA.

Isso ajuda a explicar por que o caso interessa não apenas ao Google.

Se a Comissão conseguir manter a exigência, outras grandes plataformas poderão enfrentar obrigações semelhantes relacionadas ao acesso a dados e infraestrutura. Se o Google obtiver a suspensão ou posteriormente derrubar as determinações, o precedente também poderá influenciar a maneira como o DMA será aplicado.

Agora a decisão está nas mãos do tribunal 🏛️

A Comissão Europeia deverá defender suas decisões no processo judicial.

O Tribunal Geral da União Europeia terá de avaliar primeiro o pedido de suspensão provisória apresentado pelo Google. A discussão sobre o mérito dos recursos é uma etapa diferente e pode levar mais tempo.

Enquanto isso, os prazos definidos pela Comissão continuam apontando para 2027.

O caso coloca duas prioridades em rota de colisão: abrir mercados digitais para aumentar a concorrência e preservar a proteção dos dados e a segurança das plataformas.

E o resultado poderá ajudar a definir até onde Bruxelas consegue avançar quando uma obrigação criada para reduzir o poder de um gigante tecnológico também interfere na maneira como ele protege dados de milhões de usuários.

No fim, a disputa começou com uma caixa de busca. Mas pode terminar ajudando a estabelecer as regras do jogo para a próxima geração de serviços de IA.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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