Google e Microsoft disputam o dinheiro dos agentes de IA

Renê Fraga
11 min de leitura

Principais destaques

  • Modelos de negócio diferentes: a Microsoft amplia a cobrança por consumo no Copilot, enquanto o Google vislumbra oportunidades de publicidade com agentes de IA.
  • Gemini deve avançar entre consumidores: Sundar Pichai afirmou que o Google pretende levar agentes de IA ao público geral ainda em 2026, começando pelo aplicativo Gemini.
  • Investidores avaliam as apostas: a Microsoft já registra crescimento no uso de recursos cobrados por consumo, enquanto o Google busca transformar seus agentes em uma nova oportunidade de receita publicitária.

A próxima disputa entre Google e Microsoft não será apenas sobre qual empresa tem o agente de IA mais competente. A questão é quem conseguirá transformar esses sistemas em uma fonte sustentável de receita.

As duas gigantes apresentaram estratégias distintas ao divulgar seus resultados trimestrais na quarta-feira, 28 de outubro. De um lado, a Microsoft quer cobrar pelo trabalho realizado pelos agentes. Do outro, o Google enxerga oportunidades de monetização em experiências publicitárias adaptadas a essa nova forma de interação.

💰 A diferença está na conta: enquanto a Microsoft avança para um modelo em que o cliente paga conforme o consumo, o Google considera como a publicidade poderá se encaixar em experiências nas quais a IA executa tarefas em nome do usuário.

Google quer levar os agentes a bilhões de pessoas 🌐

O Google começou a desenvolver sua estratégia de agentes de IA pelo mercado corporativo, onde segurança, proteção de dados e governança são requisitos essenciais para a adoção empresarial.

Agora, a companhia pretende ampliar essa atuação para o consumidor comum.

Durante a apresentação dos resultados da Alphabet, o CEO Sundar Pichai afirmou que os recursos chegarão à Busca e ao aplicativo Gemini, que já ultrapassou a marca de 1 bilhão de usuários, segundo a empresa.

O plano também prevê integrar agentes a outros produtos do ecossistema Google, incluindo Chrome, Android e Workspace.

🗣 A ambição de Pichai: os agentes deverão funcionar como uma camada unificadora entre os produtos da companhia, permitindo que a inteligência artificial conecte diferentes serviços e execute tarefas de maneira integrada.

Questionado pelo analista Brian Nowak, do Morgan Stanley, sobre a chegada dos agentes ao público geral, Pichai indicou que o lançamento está previsto para ainda este ano, começando pelo Gemini.

A estratégia oferece ao Google uma vantagem potencial: distribuir agentes de IA por uma base gigantesca de usuários e aproveitar serviços que milhões de pessoas já utilizam diariamente.

Mas alcançar essa escala não significa, por si só, encontrar uma forma rentável de operar esses sistemas.

O custo de fazer a IA trabalhar

Agentes de IA podem ir além de responder a perguntas. Eles podem executar sequências de ações, interagir com ferramentas e realizar tarefas que exigem várias etapas de processamento.

Isso amplia as possibilidades de uso, mas também pode elevar os custos operacionais.

Segundo informações citadas pelo MarketWatch, o Google está desenvolvendo versões destiladas e mais leves do Gemini 4 Carbon para reduzir o custo de operação dos modelos.

A eficiência será importante para que a empresa consiga oferecer recursos avançados a uma base de usuários tão ampla sem comprometer a rentabilidade.

Há, portanto, duas frentes nessa estratégia: reduzir o custo de execução dos agentes e descobrir como monetizar as novas experiências.

📣 A publicidade pode acompanhar os agentes

A oportunidade publicitária foi destacada por Philipp Schindler, diretor comercial da Alphabet, e não por Pichai.

Ao responder a uma pergunta de um analista do Bank of America, Schindler afirmou que as experiências com agentes são adicionais às oportunidades existentes e demonstrou entusiasmo com as possibilidades de publicidade em um mundo orientado por agentes.

💡 Se os agentes passarem a intermediar mais atividades digitais, o Google poderá explorar novas formas de conectar publicidade, intenção de compra e descoberta de produtos.

Esse caminho, porém, ainda representa uma oportunidade em desenvolvimento, não uma fonte de receita com resultados comprovados no material apresentado.

A questão será encontrar formatos comerciais que funcionem em experiências cada vez mais automatizadas, sem comprometer a confiança do usuário.

Microsoft quer cobrar pelo trabalho realizado 💸

A Microsoft está seguindo outra direção. Em vez de depender principalmente de uma assinatura por usuário, a empresa está ampliando seu modelo comercial para incluir cobrança baseada no consumo.

Durante a teleconferência de resultados, o CEO Satya Nadella afirmou que o modelo de negócios do Copilot está se expandindo das assinaturas por usuário para incluir o consumo, ampliando o mercado potencial e a receita média por usuário.

A lógica é relativamente direta: se um agente executa tarefas de maior valor para uma empresa, o consumo desses recursos pode justificar gastos adicionais.

A aposta da Microsoft é transformar o trabalho executado pela IA em uma unidade de receita, além da assinatura tradicional.

A estratégia também permite relacionar parte do faturamento ao volume de utilização dos recursos, em vez de depender exclusivamente da quantidade de licenças contratadas.

📈 Os primeiros sinais de adoção

Os números apresentados pela companhia indicam crescimento no uso desse modelo:

  • Mais de 75%: aumento trimestral no número de clientes do Copilot que utilizam créditos baseados em consumo.
  • Mais de 2 vezes: crescimento no consumo de créditos de recursos com agentes no GitHub desde o início da cobrança baseada em uso.

Segundo o GeekWire, a Microsoft começou a oferecer cobrança baseada em consumo em conjunto com o preço por usuário em julho.

A diretora financeira Amy Hood também informou que a empresa não divulgou uma atualização do número de licenças do Copilot naquele trimestre.

Isso importa porque o número de assinaturas, isoladamente, não revela quanto os clientes estão efetivamente utilizando os recursos nem quanto estão dispostos a gastar além da mensalidade.

Dois modelos, duas maneiras de medir o sucesso

As estratégias podem ser resumidas em uma diferença fundamental: a Microsoft busca monetizar diretamente a utilização dos agentes, enquanto o Google explora como eles podem ampliar oportunidades comerciais dentro de seu ecossistema.

CritérioGoogleMicrosoft
Estratégia centralDistribuir agentes entre produtos e consumidoresAmpliar a monetização do Copilot por consumo
Principal oportunidadePublicidade em experiências com agentesCobrança pelo uso de recursos de IA
DistribuiçãoGemini, Busca, Chrome, Android e WorkspaceCopilot e GitHub, entre outros produtos
DesafioReduzir custos e desenvolver formatos comerciaisDemonstrar valor e controlar o custo do consumo

Os modelos não são necessariamente excludentes. A Microsoft também pode explorar publicidade em determinados produtos, assim como o Google pode cobrar por recursos avançados de IA. A diferença está na ênfase que cada empresa atribui às oportunidades neste momento.

O mercado já começou a fazer suas apostas 📊

Os resultados financeiros divulgados na mesma quarta-feira ajudam a explicar por que as estratégias receberam atenção.

A Microsoft reportou receita de US$ 92,3 bilhões no primeiro trimestre fiscal, alta de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a CNBC.

A Alphabet, por sua vez, registrou receita de aproximadamente US$ 127,6 bilhões, ligeiramente abaixo das estimativas dos analistas, segundo o material fornecido.

De acordo com o Benzinga, as ações da Alphabet recuaram fortemente nas negociações após o fechamento do mercado, enquanto as da Microsoft avançaram.

Esses movimentos não comprovam que os investidores tenham escolhido definitivamente um dos modelos de monetização. Os resultados trimestrais refletem diversos fatores, e não apenas as perspectivas dos agentes de IA.

Ainda assim, existe uma diferença relevante entre as duas apostas: a cobrança por consumo já apresenta sinais mensuráveis de adoção na Microsoft, enquanto a publicidade associada aos agentes do Google permanece uma oportunidade futura a ser desenvolvida.

A pergunta que vai definir a próxima fase da IA

A popularização dos agentes pode mudar a maneira como as empresas de tecnologia calculam o valor de seus produtos.

Uma assinatura tradicional vende acesso a uma ferramenta. A cobrança por consumo procura capturar o valor associado ao uso dessa ferramenta. Já a publicidade depende da capacidade de conectar usuários, intenções e oportunidades comerciais sem prejudicar a experiência.

Cada modelo enfrenta desafios próprios. O consumo precisa justificar seus custos e preços; a publicidade precisa encontrar espaço em interações que podem ser cada vez mais automatizadas.

O próximo teste será econômico, não apenas tecnológico. Se os agentes realmente assumirem tarefas mais complexas, Google e Microsoft terão de demonstrar que conseguem transformar essa conveniência em receitas recorrentes e rentáveis.

A disputa, portanto, não termina quando um agente conclui uma tarefa. Ela começa quando alguém precisa pagar por ela, direta ou indiretamente.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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