Flamengo usa Google Cloud e IA para ganhar vantagem tática no futebol

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Dados centralizados: Flamengo, BlueShift e Google Cloud modernizam a infraestrutura de análise do clube com o BigQuery.
  • Mais inteligência nas partidas: a plataforma organiza informações sobre milhares de eventos em campo para ajudar a comissão técnica a avaliar jogadores, adversários e estratégias.
  • IA no horizonte: a arquitetura prepara o clube para incorporar aplicações de inteligência artificial com o Vertex AI, sem reconstruir toda a infraestrutura.

O futebol acontece em segundos. Um passe muda o ritmo da partida, uma movimentação abre espaço na defesa e uma decisão pode definir o resultado. Por trás desses lances, porém, existe uma quantidade crescente de informações que os clubes precisam transformar em vantagem competitiva.

O Flamengo quer aproveitar melhor esse potencial. Em parceria com a BlueShift e o Google Cloud, o clube está modernizando sua plataforma de dados para organizar estatísticas, facilitar análises de desempenho e oferecer à comissão técnica uma base mais consistente para preparar e ajustar suas estratégias.

A iniciativa conecta infraestrutura de tecnologia e conhecimento esportivo. O objetivo é tornar os dados mais acessíveis e úteis para quem precisa interpretar o que acontece dentro de campo.

⚽ Mais de 3 mil eventos em 90 minutos

Uma partida de futebol gera mais informações do que o placar consegue mostrar. Passes, chutes, toques na bola e outros acontecimentos produzem milhares de registros que, analisados em conjunto, podem revelar padrões de comportamento individual e coletivo.

O desafio está em transformar esse volume de dados em informações relevantes, com qualidade e agilidade suficientes para apoiar o trabalho da equipe técnica.

🔎 O problema não é apenas coletar informações: é conseguir cruzá-las, encontrar padrões e disponibilizar os resultados de maneira organizada para os profissionais responsáveis pelas análises.

Para enfrentar essa demanda, o Flamengo contou com a BlueShift na modernização da infraestrutura, com a separação dos fluxos de registro e análise e a centralização do ambiente analítico no BigQuery, serviço de dados do Google Cloud.

A mudança busca tornar o processamento das informações mais estruturado e facilitar o acesso aos dados usados no planejamento esportivo.

🧩 Uma arquitetura para conectar as peças

O projeto também adotou uma arquitetura chamada lakehouse, que combina características de ambientes de armazenamento de dados com recursos de análise.

Na prática, a proposta é reunir informações em uma estrutura integrada, organizando-as em diferentes etapas, desde os registros originais até os dados tratados e preparados para consulta.

Essa organização permite trabalhar com estatísticas de partidas e indicadores de desempenho dos atletas em um ambiente comum. Com isso, os analistas podem comparar métricas, acompanhar a evolução dos jogadores e investigar padrões que ajudem a compreender o funcionamento da equipe.

Entre as possibilidades de análise estão:

  • Desempenho individual: acompanhamento de indicadores dos jogadores ao longo das partidas.
  • Comportamento coletivo: identificação de padrões e tendências na atuação da equipe.
  • Análise de adversários: cruzamento de informações para preparar estratégias específicas para cada confronto.
  • Planejamento tático: consulta a dados organizados para embasar avaliações e decisões técnicas.

A implementação também levou em conta as ferramentas e as competências já utilizadas pelos profissionais do clube. Esse detalhe importa porque uma infraestrutura sofisticada só produz valor quando consegue ser incorporada à rotina de quem trabalha com ela.

📊 Da estatística à decisão em campo

Ter milhares de registros não significa, por si só, tomar decisões melhores. A vantagem aparece quando os dados ajudam a responder perguntas concretas: quais padrões merecem atenção, onde estão os pontos fortes de um adversário e quais aspectos do desempenho precisam ser avaliados?

É nessa passagem entre informação e interpretação que a iniciativa pretende contribuir.

💡 O valor dos dados não está apenas no volume armazenado, mas na capacidade de transformar registros em informações úteis para o planejamento e a tomada de decisões.

A plataforma oferece uma base para que a comissão técnica explore informações de forma mais estruturada, compare cenários e identifique tendências relevantes para a preparação das partidas.

Isso não significa que a tecnologia determine automaticamente a escalação ou a estratégia de jogo. A interpretação dos indicadores continua dependendo do conhecimento dos analistas e da comissão técnica, que precisam considerar o contexto de cada confronto.

🗣 A visão da BlueShift: Esteban Huerta, especialista em Google Cloud na empresa, afirma que o diferencial está em conectar os dados às necessidades reais do futebol. Segundo ele, a abordagem também pode ser aplicada a organizações de outros setores que buscam melhorar processos e decisões a partir das próprias informações.

🤖 O próximo passo envolve inteligência artificial

A modernização não se limita à análise estatística tradicional. A arquitetura foi planejada para permitir a incorporação futura de aplicações de inteligência artificial por meio do Vertex AI, plataforma do Google Cloud.

A possibilidade é ampliar os tipos de análise que o clube poderá explorar, combinando estatísticas com imagens e outras fontes de informação.

No futebol, essa integração pode abrir caminhos para investigar relações entre diferentes variáveis do jogo e enriquecer as ferramentas disponíveis aos analistas. No entanto, a implementação de aplicações específicas de IA ainda é apresentada como uma possibilidade futura, e não como um recurso já confirmado em operação no projeto.

🛠 Por que preparar a infraestrutura agora? Porque incorporar novas ferramentas tende a ser mais simples quando os dados já estão organizados em uma arquitetura que permite expandir os recursos analíticos sem reconstruir todo o ambiente.

A solução também considera ambientes seguros para exploração dos dados, com controle de recursos e custos. Isso ajuda a criar condições para que novas aplicações sejam avaliadas sem perder de vista a gestão da infraestrutura.

Huerta destaca que a flexibilidade é importante em um esporte no qual cada confronto apresenta desafios diferentes. A proposta é permitir que o Flamengo acompanhe a evolução das necessidades analíticas e incorpore recursos mais avançados ao longo do tempo.

🏟️ A tecnologia também joga fora das quatro linhas

O projeto ilustra uma transformação mais ampla no esporte: a infraestrutura digital passa a fazer parte dos recursos utilizados para preparar equipes, avaliar desempenho e apoiar decisões.

Nesse cenário, a qualidade dos dados, a organização das informações e a facilidade de acesso podem ser tão importantes para o processo analítico quanto a escolha das ferramentas utilizadas.

Para o Flamengo, a parceria com a BlueShift e o Google Cloud estabelece uma base tecnológica que pode sustentar novas possibilidades de análise. O impacto esportivo, porém, dependerá de como essas informações serão incorporadas ao trabalho diário da comissão técnica e convertidas em decisões práticas.

A disputa continua sendo decidida no gramado. Mas, cada vez mais, parte da preparação acontece antes do apito inicial, na capacidade de encontrar sentido em milhares de eventos que, isoladamente, parecem apenas números.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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