Falsos profissionais de TI invadem empresas presencialmente para roubar dados, revelam Google e FBI

Renê Fraga
9 min de leitura
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Principais destaques

  • Grupo criminoso está enviando falsos técnicos de TI para acessar empresas pessoalmente e facilitar ataques cibernéticos.
  • Criminosos utilizam pendrives, softwares de acesso remoto e técnicas avançadas de engenharia social para roubar dados sigilosos.
  • Google e FBI classificam a prática como uma escalada significativa nas ameaças digitais que atingem organizações de diversos setores.

Uma nova e preocupante tendência no mundo da cibersegurança está chamando a atenção de autoridades e especialistas em tecnologia. O Google e o FBI divulgaram alertas sobre uma campanha conduzida pelo grupo criminoso conhecido como Silent Ransom Group, que passou a combinar ataques virtuais tradicionais com ações presenciais para invadir empresas e roubar informações confidenciais.

A mudança de estratégia representa um avanço nas táticas utilizadas por organizações criminosas. Em vez de depender exclusivamente de e-mails fraudulentos, malware ou ataques remotos, os criminosos agora estão dispostos a aparecer fisicamente nos escritórios das vítimas, assumindo a identidade de profissionais de suporte técnico para ganhar acesso aos sistemas corporativos.

Segundo as investigações, essa abordagem foi utilizada em diversos ataques registrados entre janeiro e maio deste ano, atingindo dezenas de organizações, especialmente escritórios de advocacia. O método chamou a atenção dos especialistas porque mistura elementos do crime digital moderno com técnicas tradicionalmente associadas à espionagem corporativa.

Como funciona o golpe dos falsos técnicos

De acordo com os pesquisadores de segurança do Google, o esquema normalmente começa de forma semelhante a outros ataques de engenharia social. Os criminosos entram em contato com funcionários por telefone, e-mail ou aplicativos corporativos, alegando fazer parte da equipe de suporte técnico da empresa.

Durante essas conversas, os invasores constroem uma relação de confiança com os funcionários. Eles costumam mencionar supostos problemas de segurança, atualizações de sistemas ou projetos internos de migração de dados para tornar a abordagem mais convincente.

Em alguns casos, porém, o golpe vai além do ambiente digital. Os criminosos chegam a comparecer fisicamente aos escritórios das empresas, apresentando-se como técnicos enviados para resolver problemas específicos. Uma vez dentro das instalações, conseguem acesso direto a computadores, servidores ou estações de trabalho.

As investigações apontam que os invasores utilizam dispositivos USB para copiar informações diretamente dos equipamentos comprometidos. Em outras situações, instalam softwares que permitem que outros membros do grupo assumam o controle remoto das máquinas posteriormente.

Especialistas da Mandiant, divisão de segurança do Google responsável pela investigação, afirmam que já observaram casos semelhantes no passado envolvendo funcionários infiltrados, colaboradores subornados ou invasores que conseguiram acesso físico aos ambientes corporativos. No entanto, a frequência com que essa tática está sendo utilizada atualmente demonstra uma evolução preocupante das ameaças.

Dados altamente sensíveis estão na mira dos criminosos

O objetivo principal do grupo é obter acesso a informações valiosas que possam ser utilizadas em esquemas de extorsão. Entre os dados mais procurados estão contratos empresariais, registros financeiros, documentos jurídicos, declarações fiscais e informações pessoais de clientes e funcionários.

O FBI confirmou que recebeu relatos de múltiplos incidentes envolvendo indivíduos que se passaram por profissionais de suporte técnico para entrar fisicamente em empresas ou obter acesso a dispositivos corporativos.

A escolha dos escritórios de advocacia como alvo não acontece por acaso. Essas organizações costumam armazenar grandes quantidades de informações confidenciais relacionadas a clientes, disputas judiciais, negociações empresariais e documentos financeiros. O vazamento desse tipo de material pode causar prejuízos milionários e danos irreparáveis à reputação das vítimas.

Além disso, os criminosos sabem que empresas que lidam com dados altamente sensíveis tendem a sofrer maior pressão para evitar a divulgação pública das informações roubadas.

Uma nova geração de extorsão digital

Embora o grupo seja frequentemente associado ao universo do ransomware, sua estratégia atual difere dos ataques tradicionais que ficaram famosos nos últimos anos.

Normalmente, ataques de ransomware envolvem o bloqueio ou criptografia dos arquivos da vítima. Os criminosos exigem um pagamento para devolver o acesso aos sistemas comprometidos.

No caso do Silent Ransom Group, o foco principal está no roubo de dados. Após obter as informações, os invasores ameaçam divulgar o conteúdo caso a empresa se recuse a pagar um resgate.

Para aumentar a pressão, o grupo mantém plataformas próprias de vazamento de dados na internet. Nesses espaços, informações roubadas podem ser publicadas gradualmente para demonstrar que a ameaça é real.

Segundo o Google, os criminosos frequentemente entram em contato diretamente com as vítimas após o roubo dos arquivos. As mensagens costumam incluir ameaças explícitas de divulgação pública.

Em alguns casos analisados pelos investigadores, os criminosos afirmaram que notificariam funcionários, parceiros comerciais e clientes caso não fosse alcançado um acordo financeiro. A estratégia busca criar um ambiente de urgência e medo, aumentando as chances de pagamento.

Engenharia social continua sendo a principal arma

Apesar da sofisticação dos métodos utilizados, especialistas destacam que a engenharia social continua sendo o elemento central dos ataques.

Os criminosos exploram características humanas como confiança, senso de urgência e desejo de colaborar com procedimentos corporativos. Muitas vezes, as vítimas acreditam estar ajudando um colega ou resolvendo um problema legítimo quando, na verdade, estão permitindo a entrada dos invasores.

O Google relata que os criminosos frequentemente orientam os funcionários a participar de sessões de compartilhamento de tela. Sob o pretexto de corrigir falhas de segurança ou auxiliar em processos internos, os invasores conseguem visualizar informações sensíveis e até assumir o controle dos dispositivos.

Aplicativos amplamente utilizados no ambiente corporativo, como Zoom e Microsoft Teams, podem ser explorados nesse tipo de golpe quando os usuários não verificam adequadamente a identidade de quem está solicitando acesso.

Além disso, os criminosos frequentemente pedem que os funcionários instalem programas específicos ou alterem configurações de segurança, criando novas oportunidades para comprometer os sistemas corporativos.

Empresas precisam reforçar a segurança física e digital

Os novos casos demonstram que a proteção contra ameaças cibernéticas não pode mais se limitar a firewalls, antivírus e sistemas de detecção de intrusões.

Especialistas alertam que organizações precisam fortalecer também seus controles de acesso físico, processos de verificação de identidade e programas de conscientização dos funcionários.

Treinamentos regulares podem ajudar colaboradores a identificar tentativas de engenharia social, enquanto procedimentos rigorosos para a entrada de visitantes reduzem o risco de que pessoas não autorizadas tenham acesso aos ambientes internos.

A recomendação é que qualquer solicitação de suporte técnico seja confirmada por canais oficiais antes que um funcionário conceda acesso a sistemas ou equipamentos. Da mesma forma, visitantes que aleguem prestar serviços de tecnologia devem ter sua identidade validada e sua presença previamente autorizada.

O alerta do Google e do FBI reforça uma realidade cada vez mais evidente: os criminosos digitais estão diversificando suas estratégias e combinando técnicas virtuais e presenciais para aumentar suas chances de sucesso. Para as empresas, isso significa que a segurança precisa ser encarada de forma abrangente, envolvendo tecnologia, processos e comportamento humano.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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