Google será obrigado a permitir que sites bloqueiem uso de conteúdo em recursos de IA no Reino Unido

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Publishers poderão impedir que seus conteúdos sejam utilizados em funcionalidades de busca com inteligência artificial do Google.
  • Nova regulamentação do Reino Unido aumenta o controle de veículos de mídia e criadores de conteúdo sobre o uso de suas informações.
  • Google garante que a decisão de sair dos recursos de IA não afetará o posicionamento dos sites na pesquisa tradicional.

O avanço da inteligência artificial nos mecanismos de busca tem provocado debates cada vez mais intensos sobre direitos autorais, remuneração de conteúdo e o papel dos publishers na nova era digital. Agora, uma decisão regulatória do Reino Unido promete mudar parte dessa dinâmica ao obrigar o Google a oferecer aos proprietários de sites a possibilidade de escolher se desejam ou não que seus conteúdos sejam utilizados em recursos de busca baseados em IA.

A novidade foi anunciada pelo próprio Google, que confirmou a criação de uma ferramenta específica dentro do Search Console. A funcionalidade permitirá que publishers removam seus sites de experiências de busca generativa, como AI Overviews, AI Mode e outros formatos inteligentes que utilizam conteúdo da web para produzir respostas resumidas aos usuários.

A medida surge em um momento de forte expansão das ferramentas de IA do Google. Segundo a empresa, os resumos gerados por inteligência artificial já alcançam mais de 2,5 bilhões de usuários ativos por mês em todo o mundo. Já o AI Mode, recurso mais avançado de conversação integrado à busca, ultrapassou a marca de 1 bilhão de usuários mensais.

O que muda para os proprietários de sites

Na prática, a nova opção dará aos administradores de sites um controle que até agora não existia de forma clara. Atualmente, quando uma página é indexada pelo Google, ela pode aparecer tanto nos resultados tradicionais quanto em experiências de inteligência artificial da plataforma.

Com a mudança, será possível continuar aparecendo normalmente na busca convencional enquanto se bloqueia especificamente o uso do conteúdo em respostas geradas por IA. Isso significa que um publisher poderá continuar recebendo tráfego dos resultados orgânicos sem necessariamente contribuir para os resumos produzidos pela inteligência artificial do Google.

A empresa informou que a implementação será feita inicialmente com um grupo limitado de publishers do Reino Unido. O objetivo é avaliar o funcionamento da ferramenta antes de expandi-la para outros mercados. A expectativa é que o recurso seja disponibilizado globalmente após a fase de testes.

Essa separação entre busca tradicional e busca baseada em IA vinha sendo uma das principais reivindicações de empresas de mídia, que argumentam que seus conteúdos são utilizados para alimentar respostas geradas automaticamente sem que haja, necessariamente, retorno proporcional em visitas ou receita.

Regulador britânico considera medida inédita

A iniciativa não partiu do Google de forma espontânea. Ela é resultado direto das ações da Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido, conhecida pela sigla CMA.

O órgão classificou a mudança como uma iniciativa pioneira no setor. Segundo a autoridade britânica, a nova regra coloca os publishers em uma posição mais forte para negociar acordos comerciais relacionados ao uso de conteúdo em produtos de inteligência artificial.

A CMA vem acompanhando de perto o crescimento das grandes plataformas digitais e seus impactos sobre a concorrência. Em outubro de 2024, o Google recebeu a designação de empresa com “status estratégico de mercado”, uma classificação criada para identificar companhias que exercem influência significativa sobre o ambiente digital.

A partir dessa classificação, o regulador passou a ter mais ferramentas para exigir mudanças na forma como a empresa opera determinados serviços. Em janeiro deste ano, a CMA já havia indicado que pretendia garantir aos publishers a possibilidade de decidir se seus conteúdos poderiam ser utilizados tanto em recursos de busca com IA quanto no treinamento de modelos de inteligência artificial.

A decisão anunciada agora representa uma das primeiras aplicações concretas desse novo modelo regulatório.

Transparência e atribuição também entram no foco

Além da opção de exclusão, a regulamentação exige que o Google seja mais transparente sobre a origem das informações utilizadas em suas respostas geradas por inteligência artificial.

Uma das principais críticas feitas por publishers nos últimos meses é que os resumos produzidos por IA muitas vezes entregam ao usuário a informação desejada sem incentivar a visita ao site original. Isso pode reduzir o tráfego de páginas jornalísticas, blogs especializados e outros produtores de conteúdo.

Para atender às novas exigências, o Google afirma ter aumentado significativamente a quantidade de links presentes dentro das respostas geradas por IA. A empresa também passou a exibir mais prévias de páginas, oferecendo aos usuários uma visualização mais clara da fonte original da informação.

Segundo o Google, essas mudanças têm como objetivo incentivar os cliques e garantir que os criadores de conteúdo continuem recebendo visitantes provenientes da busca.

Ainda assim, o debate sobre o impacto da IA no ecossistema da web continua longe de um consenso. Muitos veículos defendem que apenas a atribuição não é suficiente e argumentam que será necessário criar modelos de remuneração mais robustos para compensar o uso de conteúdo em sistemas de inteligência artificial.

Google tenta convencer publishers a permanecer

Embora esteja oferecendo a possibilidade de exclusão, o Google também trabalha para mostrar aos publishers o valor de permanecer dentro de seus recursos de IA.

A empresa anunciou que disponibilizará novos relatórios no Search Console para que os administradores possam acompanhar como seus conteúdos aparecem nas respostas geradas por inteligência artificial. Entre os dados prometidos estão métricas de impressões, páginas utilizadas, alcance geográfico e outros indicadores relacionados à visibilidade nos produtos de IA.

Novas estatísticas deverão ser adicionadas gradualmente ao longo dos próximos meses.

Outro ponto enfatizado pela companhia é que a decisão de não participar dos recursos generativos não será usada como sinal de ranqueamento. Em outras palavras, um site que optar por sair dos produtos de IA continuará sendo elegível para aparecer normalmente nos resultados tradicionais da busca.

Essa garantia busca reduzir preocupações de publishers que poderiam temer algum tipo de penalização indireta por não permitir o uso de seus conteúdos em ferramentas de inteligência artificial.

O caso britânico pode se tornar um importante precedente para outros países. Reguladores de diversas regiões já analisam maneiras de equilibrar a inovação promovida pela inteligência artificial com a necessidade de proteger produtores de conteúdo. Caso o modelo adotado pelo Reino Unido seja considerado bem-sucedido, ele poderá servir de inspiração para futuras regulamentações em mercados como União Europeia, Canadá, Austrália e até mesmo os Estados Unidos.

À medida que a IA se torna cada vez mais integrada às plataformas de busca, o desafio será encontrar um equilíbrio entre a conveniência oferecida aos usuários, os interesses das empresas de tecnologia e a sustentabilidade econômica de quem produz as informações que alimentam toda a web.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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